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O INFERNO ASTRAL DA SIDERURGIA JÁ PASSOU
Seguindo a tendência geral de bolsa, o mercado de venda de ações de siderurgia deve apresentar melhoras em 2017. Isto é, se forem mantidas as condições ideais para que isso aconteça.
 
Marcus Frediani
 
Na contramão das expectativas e até mesmo do senso comum, a Bolsa de Valores encerrou 2016 no patamar de melhor investimento no país. Nem mesmo a crescente aversão ao risco que dominou os mercados globais nos últimos tempos foi suficiente para abalar a performance do mercado de ações brasileiro. Num ano de muita volatilidade, a alta nos negócios foi de impressionantes 38,93%, segundo o Ibovespa, que encerrou o último pregão do ano acima dos 60 mil pontos.
O resultado da carteira teórica de ativos também demonstra que eles fecharam esse ciclo com uma alta ainda mais forte: o Índice de dividendos da bolsa (IDIV) subiu mais de 60% no período. Com tudo isso, o IBOV, cotação da empresa Ibovespa, conquistou também a terceira posição entre os índices de maior retorno no acumulado de 2016 na América Latina e Estados Unidos, criando boas expectativas de continuidade para 2017.
"Dois mil e dezesseis foi muito bom para a bolsa. E o mercado continua animado para 2017, acreditando que o que aconteceu o ano passado pode se repetir", convalida Flávio Conde, analista da consultoria WhatsCall, com 30 anos de experiência em mercado financeiro local e internacional, em equity research buy-side e sell-side de ações. Flávio encontrou um tempo em sua atribulada agenda para conversar com a reportagem do Anuário Brasileiro da Siderurgia, o que resultou nesta entrevista exclusiva. Confira!
Anuário Brasileiro da Siderurgia: Os últimos 12 meses redundaram num período bastante difícil e agitado para a economia e para a política brasileiras. Quais foram os principais reflexos disso no mercado de capitais?
GC 2017 Flavio CondeFlávio Conde: A Bolsa de Valores não começou 2016 nada bem. Em fevereiro, o pessimismo estava nas alturas, porque parecia que a Dilma (Rousseff) não ia embora. Havia muitas previsões negativas, como a de que o dólar ia bater nos R$ 4,00 ou mais, que a recessão ia ser pior. O cenário era muito ruim. A bolsa despencou e as ações da Petrobras caíram para R$ 5,00. Aí, a partir de março, com a votação do impeachment sendo aprovada na Câmara e, depois, no Senado, os investidores ficaram mais animados com a possibilidade da entrada de um grupo novo, e a bolsa começou a subir. Com a entrada do (Michel) Temer, o resultado foi um crescimento de mais de 30% nos negócios, diretamente em função da troca de governo. O dólar também caiu. E, mais para o final do ano, tivemos um fator surpreendente, por ter acontecido como uma reação, que foi a eleição do Trump em novembro. Só que, ao contrário do que se imaginava, a bolsa americana em vez de cair, subiu. Então, com essa conjunção de fatores, o ano de 2016 foi muito bom para a bolsa de valores no Brasil. E o mercado continua animado para 2017, acreditando que o que aconteceu o ano passado pode se repetir.
Bem, mas a gente sabe que o dinheiro é como um pequeno coelho assustado, que, ao menor ruído ou movimento estranho, acaba sumindo no bosque. Mesmo com as sucessivas perdas de grau de investimento que o país amargou em 2016, será que isso vai animar os investidores internacionais a colocarem seu dinheiro no Brasil?
Olha, posso lhe dizer, sem medo de errar, que perda do grau de investimento já foi esquecida. Os investidores estrangeiros estão olhando para frente, estão animados com o governo Temer, com a aprovação da PEC do limite dos gastos federais, com a queda da inflação e dos juros... E essa animação também se reflete no dólar, que tem caído porque tem entrado muito dinheiro, principalmente para a renda fixa e para o mercado de ações.
Existe alguma ordem para essa volta dos investimentos?
Sim, esse é um movimento clássico: primeiro vêm os investidores estrangeiros mais arrojados; depois vêm os investidores estrangeiros de renda fixa, além de variável; e, por último, que é o que está começando a acontecer, vêm os investidores de economia real, como as empresas, indústrias, hospitais, imóveis, shopping centers. A primeira leva é do pessoal que entra e sai com rapidez. Já a segunda, é dos investidores que entram devagar, para ficar por muito tempo, uma vez que eles demoram mais para tomar a decisão. Isso já está acontecendo no setor elétrico, com investimentos tanto de China, quanto de Europa, já está acontecendo na parte de compra de empresas, com fundos de equity americanos comprando companhias brasileiras. E o principal setores que eles estão olhando, além do de energia elétrica, é o de saúde, notadamente hospitais e laboratórios clínicos.
Como se comportaram os negócios de ações de siderúrgicas no Brasil?
As ações de siderurgia vinham de um colapso bastante preocupante: tinham despencado 90% em 2015, por causa da alta do dólar – todas elas são endividadas em dólar – e também por causa da queda do preço do aço no mercado internacional, com China e Turquia vendendo muito aço no mundo naquele ano, gerando um excedente gigantesco. Para piorar o cenário, tudo isso coincidiu com uma queda da demanda interna, da indústria automobilística, da construção civil, da indústria naval, e das chamadas empresas industriais, transformam matérias-primas em produtos acabados para satisfação das necessidades humanas, com a finalidade de lucro.
Ou seja, um cenário de "tempestade perfeita".
Exatamente. Aí, quando chegamos em 2016, imagine só, uma ação que cai 90%, cai de 10 para 1, chama, naturalmente, a atenção de todo mundo, que fica de olho nela para ver se ela não pula de 1 para 2, porque, se isso acontece, ela sobe 100% e ainda está barata. Então, com a queda do dólar e com o preço do minério de ferro e do aço começando a subir no mercado internacional, os investidores voltaram a comprar ações de siderúrgicas no ano passado. Isso, sem falar dos acertos que a China começou a fazer, apesar do excedente de produção. Ela partiu para algumas fusões de siderúrgicas por lá, e começou a fechar algumas plantas que não conseguiam se pagar.
Uma mudança brusca, mas necessária.
Sim, porque o problema da China era – e, em alguns casos continua sendo – que as empresas eram medidas pela produção e não pelo lucro. Ou seja, a visão era: quanto mais produzir melhor. O negócio era volume, e não rentabilidade. Só que aí os chineses falaram "Epa! Está errado isso aí!", e começaram a fechar diversas plantas de siderúrgicas. Com isso, o excedente de produção mundial de 800 milhões de toneladas de aço foi caindo um pouco, até chegar à faixa dos 600 milhões.
E como deve ficar essa situação este ano?
Veja bem, uma coisa é você ter excedente de capacidade instalada, e outra é produzir o excedente. Quando você produz um excedente gigantesco, tem que guardá-lo em algum lugar. E, no ano seguinte, você não pode produzir tanto, porque tem que vender o que está guardado. Então, quando a China começou a atuar com uma racionalização um pouco maior no setor siderúrgico, isso conspirou para que as ações das siderúrgicas brasileiras subissem duas vezes e meia e até três vezes e, mesmo assim, continuando baratas. Se você olhar vis a vis o que elas valiam em 2014, elas ainda estão baratas. Então, as ações de siderúrgicas subiram 150% no ano passado, e ainda há espaço para que elas subam mais em 2017.
Qual é o motivo dessa expectativa?
Em 2017, o mercado espera que a produção automobilística – que não foi bem em janeiro – cresça 5% no segundo semestre. E a expectativa é que isso não só aconteça com a indústria automobilística, como também com a de bens de capital e com a construção civil. Então, o segundo semestre deste ano pode ser bom. Como todo mundo sabe, o investidor sempre compra o que vai acontecer daqui a seis meses a um ano. Então, o pessoal continua com bons olhos para o setor siderúrgico, com foco em seus três expoentes: CSN, Usiminas e Gerdau.
Existe algum fator decisivo que propicie essa boa performance?
Um fator decisivo e muito importante para essas três empresas é o dólar. Então, o dólar caindo como vem caindo desde meados de 2016, é bom para elas, porque todas têm dívidas em dólar. Assim, toda queda de um centavo é comemorada. As ações das três estão num caminho bom, positivo, e podem valorizar mais ainda em 2017. Os resultados devem ser de crescimento, tanto em receita, quanto em geração de caixa – que a gente chama de EBITDA –, e quanto em lucro líquido.
Você arriscaria dizer que o "inferno astral" da siderurgia brasileira já passou?
A consultoria WhatsCall está animada e continuará animada com o setor. Acreditamos que vamos ter um ano bom em 2017, e um melhor ainda em 2018. E, respondendo a sua pergunta, o "inferno astral" do setor de siderurgia, que atingiu sua mais alta temperatura em 2015 e parte de 2016, já passou sim. O setor embicou para cima, e vai continuar a subir, desde que alguns fatores fundamentais sejam respeitados. Por exemplo, o dólar tem que continuar baixo, na faixa dos R$ 3,00, os juros no Brasil têm que continuar caindo... Se isso acontecer, vamos gerar um crescimento econômico em torno de 1% em 2017, e na faixa de 2%, em 2018. E como o setor siderúrgico tem uma elasticidade da demanda em torno de duas vezes, ele vai sair muito bem nessa foto, porque quando a economia cresce 2%, ele tem tudo para crescer 4%. Além de tudo isso, tem, ainda, uma coisa muito importante.
Que é...?
Com o "inferno astral" de 2015, as empresas siderúrgicas começaram – naquele ano mesmo, continuando em 2016 – a fazer um amplo processo de redução de custos e despesas. Assim, elas se tornaram empresas mais enxutas, com menos funcionários, com gastos menores, com custo de produção menor. Fecharam plantas que não produziam num custo adequado, e, ainda, inauguraram plantas como a de Ouro Branco, da Gerdau, mais modernas e de custo menor, em outras palavras, mais eficientes e mais produtivas. Então, o setor também reagiu bem. Os empresários não ficaram de braços cruzados, esperando a macroeconomia melhorar para fazer alguma coisa. Eles falaram "Vamos fazer a lição de casa agora!" Em síntese, as empresas foram pró-ativas. Sentindo que tinham uma demanda baixa, estavam no prejuízo, tinham que mandar gente embora, começaram a desativar altos-fornos pouco rentáveis, renegociaram contratos com fornecedores e fizeram a "lição de casa".
Além da siderurgia, que outros setores deverão apresentar um desempenho relativamente positivo em 2017 em termos de mercados de ações?
Mineração, porque o preço do minério subiu bastante; petróleo, porque, num período difícil, fez a "lição de casa" direitinho também; energia elétrica, porque não só o consumo vai aumentar, como também o custo da energia comprada deverá continuar caindo em função das chuvas, que voltaram a acontecer em grande volume no Brasil. E não é só isso, nestes dois últimos casos. A Eletrobras trouxe um presidente da iniciativa privada, o Wilson Ferreira, que tinha 20 e tantos anos de CPFL e é um "craque". O trabalho que o Pedro Parente está fazendo bem feito na Petrobras, o Wilson Ferreira está fazendo na Eletrobras. Então, eu acredito que esses quatro setores – siderurgia, mineração, petróleo e energia elétrica – vão ser os setores líderes da bolsa em 2017.
E a construção civil?
Esse, infelizmente, é um setor que vai demorar um pouco para se recuperar. Vejo a recuperação dele mais para 2018, porque as construtoras de imóveis estão com excesso de estoque. Então, elas vão lançar pouco este ano, e vão continuar vendendo estoque. Este só tende a recuperar mesmo no segundo semestre de 2017, porque o desemprego ainda é grande, assim como é grande a insegurança do consumidor. E comprar um imóvel, depois de casar, é a decisão mais importante das pessoas na vida, sem dizer que a questão financeira é a maior preocupação. Pessoalmente, conheço pessoas que têm dinheiro, pagam aluguel e estão esperando para ver se compram ou não um imóvel novo. Todo mundo está esperando para ver o que acontece.
Nem os preços menores têm potencial para antecipar a reversão desse quadro?
O preço dos imóveis caiu, sim. Se você comparar com o preço de 2014, você compra uma casa ou um apartamento com até 30% de desconto. Mas, mesmo assim, as pessoas estão aí aguardando. Mas, acredito que se tudo correr bem na economia e na política, elas vão começar a comprar no segundo semestre de 2017, e vão continuar comprando em 2018. Assim, a construção civil – diferentemente dos carros, que não tem um baita estoque – vai ter que esperar para fazer os lançamentos, que só vão precisar ocorrer em 2018, porque 2017 é o ano de zerar o estoque, de desovar o que já está construído. Só que desovar estoque é bom para a construção civil, mas não gera novos pedidos de aço, porque o prédio já está pronto. E com a construção civil demorando um pouco para reagir, vai demorar um pouco mais ainda para isso bater positivamente na siderúrgica.
E, pelo que estamos vendo por aí, isso também deve acontecer com setor de obras de infraestrutura, que não tem a mínima condição de vestir a roupa do "salvador da pátria", não é mesmo?
Correto. Acredito que a reação desse setor vai acontecer bem mais para frente, porque tem muita obra parada, e as grandes empreiteiras ainda estão enroladas com a Lava Jato e todas aquelas complicações que, todo dia, temos notícia nos jornais e na televisão. Então, acredito que essa reação só vai se dar mais para 2018. Outra constatação simples, que pode atestar essa minha crença, é que o pessoal está fazendo acordo de delação agora, para poder fazer, daqui a alguns meses, o de leniência. Assim, o sujeito só voltará para a empresa lá pelo final deste ano, para tocar de novo os negócios. Então, realmente, obra de infraestrutura é só para 2018, e não para 2017.