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Esquerdo 1


EXPORTAÇÃO: A ÚNICA SAÍDA
Em meio à pior crise da história, o Instituto Aço Brasil apresenta um projeto capaz de reequilibrar o mercado.
 
Marina Teixeira da Silva
 
O ano de 2016 foi muito duro para a siderurgia brasileira. A crise política e econômica que tomou conta do país trouxe reflexos desastrosos para o setor do aço, cujo desempenho apresentou quedas sucessivas e números negativos.
Sem esperanças de recuperação na demanda interna, o Instituto Aço Brasil vê, apenas, uma luz no fim do túnel. Trata-se de uma proposta emergencial para incrementar a exportação, única saída capaz de promover a retomada dos negócios. Segundo o IABr, isso seria possível e viável com o aumento da alíquota do Reintegra para 5%. O projeto – elaborado por uma coalizão de dez entidades representativas dos setores mais afetados pela recessão, reunidas na Associação de Comércio Exterior do Brasil – conta com o respaldo de autoridades no assunto. Já foi apresentado ao governo, mas ainda espera uma resposta.
E foi exatamente essa iniciativa o destaque entre os muitos assuntos abordados ao longo da entrevista coletiva promovida pelo IABr, para apresentar à Imprensa os resultados do setor no ano de 2016. Comandado por Alexandre de Campos Lyra, presidente do Conselho Diretor do Instituto, e Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo, o encontro, como de hábito, expôs e analisou os números do desempenho do aço no Brasil e no mundo, bem como as previsões da entidade para 2017.
“O quadro que vemos na demanda interna é sinistro”, resumiu Alexandre Lyra, depois de apresentar os gráficos que demonstram a situação atual da Indústria do Aço no Brasil. O panorama é, realmente, desanimador. Basta dizer que os setores responsáveis por 80% do consumo de aço tiveram, no cômputo geral, uma queda de 16,4%, nos nove primeiros meses de 2016 (Jan-Set), em comparação ao mesmo período de 2015, segundo os dados apresentados durante a coletiva de Imprensa. Isso, sem contabilizar, ainda, os dados de fechamento dos últimos 2 meses do ano. Nesse mesmo período, se comparada com 2013, a queda já atingia, na ocasião, 34,2%. Por setor, a indústria já acumulava, no período relatado, uma queda de 16,7 pontos percentuais, enquanto que o segmento automotivo já havia despencado impressionantes 47,7%.
Em relação a 2015, a produção de aço bruto caiu 9,2%, e foi de pouco mais de 30,2 milhões de toneladas – o menor volume de produção registrado desde 2009. As vendas internas de produtos siderúrgicos também caíram 9,1%: foram 16,5 milhões de toneladas, praticamente o mesmo resultado de 2009.
“Analisando os principais segmentos, podemos ver que a queda foi geral”, salientou Lyra. “Em relação ao histórico da Indústria do Aço, podemos dizer que 2016 teve o mesmo patamar de 2006. Tivemos investimentos, mas em demanda de consumo paramos no tempo”, complementou.
OVO DE COLOMBO
Face a esse quadro, na visão do Instituto Aço Brasil, a única solução para que o país comece uma retomada de crescimento é a Exportação. “Não há outra coisa a fazer”, deixou claro Marco Polo de Mello Lopes. As assimetrias competitivas e o enorme custo Brasil impedem o crescimento e têm motivado a performance negativa do setor, cujo desempenho é cada vez pior. Em relação a 2015, houve uma queda nas exportações siderúrgicas de 6,7% em volume (12,4 milhões de toneladas) e 13,8% em valores, batendo em perto de US$ 5 milhões, com inevitáveis declínios na arrecadação. “Precisamos virar a mesa. Podemos exportar, pois temos capacidade de produção”, enfatizou o executivo. A título de informação, as importações de aço para o Brasil também sofreram severas quedas tanto em volume (41,4%), quanto em valor (45,9%) em 2016.
A ideia é convencer o governo a aumentar para 5% a alíquota do Reintegra, que começou em 3% quando foi criada (2011), mas foi caindo até chegar a 0,1% em 2016. A proposta encomendada pelo IABr demonstra que, com o aumento para cinco pontos percentuais – conforme previsto no Parágrafo 2º, Artigo 22 da Lei 13.043/2014 –, a equação se tornará perfeitamente harmônica, ou seja, o governo não perde a arrecadação, os setores industriais voltarão a crescer e, de quebra, poderá recuperar dois terços dos empregos perdidos.
Para dar ao projeto a máxima credibilidade, o Instituto Aço Brasil contratou para conduzi-lo uma equipe de profissionais respeitados, sob a batuta do professor Joaquim José Martins Guilhoto, vice-reitor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), PhD em Economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e especializado em análises estruturais econômicas, com o respaldo do Professor José Roberto Alonso, economista, doutor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV/Rio), e do ex-ministro Antônio Delfim Netto, economista e professor catedrático da USP. No afã de produzir resultados, já foram realizadas diversas reuniões entre esse time estrelado e os ministros Henrique Meirelles e Marcos Pereira – respectivamente da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio –, bem como com Jorge Rachid, secretário da Receita Federal, e Carlos Hamilton, vice-presidente do Banco do Brasil.
A receptividade do governo foi boa, mas até a data da realização da coletiva de Imprensa do IABr já haviam se passados longos 40 dias, sem que houvesse um retorno à proposta. “Houve uma abertura, a porta não está fechada”, observa Marco Polo. “Mas a decisão tem que vir de um nível mais alto. Precisamos que o presidente da República arbitre a adoção das medidas. Em nossa opinião, esse é o ‘Ovo de Colombo’ para vencermos a crise”, ressaltou.
TEMPESTADE ASIÁTICA
No plano macro, ao analisar a situação mundial, o Instituto Aço Brasil ressaltou no encontro com os jornalistas que a situação está ruim para todos. A razão principal é uma velha conhecida de quem atua no setor: o excesso da oferta de aço no planeta, que hoje chega a 780 milhões de toneladas, e tende a crescer. Desse volume, mais de 400 milhões de toneladas estão na China. De acordo com as fontes do IABr, o país asiático continua a ser a maior ameaça ao mercado siderúrgico global, além de um concorrente injusto, pois as empresas recebem forte subsídio do governo local. Em 2000, a China participava com um terço das importações diretas de aço no Brasil. Porém, em 2015, atingiram 50,2% delas.
Contra essa concorrência predatória, um dos pleitos mais importantes do IABr é o não reconhecimento da China como economia de mercado – um tema que preocupa todos os setores industriais e está na agenda de muitos países. "Os preços do mercado interno chinês são totalmente distorcidos. Se a China for reconhecida, vai deixar de existir a proteção contra o dumping, e haverá um impacto violento na indústria de transformação brasileira, com a queda da produção e da receita bruta", pontuou Marco Polo. De acordo com o IABr, um dos efeitos mais nocivos do estabelecimento desse quadro será a perda de 850 mil empregos, sendo 30 mil só na siderurgia.
Ato contínuo, durante o encontro com os jornalistas, o Instituto Aço Brasil também se posicionou contra a instalação de novas usinas siderúrgica no Maranhão, financiadas pela China. Isso porque o governo brasileiro, diferentemente do parceiro oriental, não tem dinheiro para investir. Daí, a constatação é simples: como capital externo não vem de graça, a China vai acabar mandando em tudo, até na contratação e envio de funcionários chineses para a instalação. Complementarmente, o IABr faz um alerta ao governo: tudo tem que ser discutido também na cadeia de fornecedores.
BONS SINAIS?
Com tudo isso, a não ser que haja uma reação por parte do governo brasileiro e melhoria na crise política, as previsões da entidade para o ano de 2017 não são nada animadoras: o setor não vê retomada no curto ou no médio prazos. Fato é que qualquer problema que surja no plano político se reflete e faz ruído na economia.
Contudo, o IABr acredita que existe um engajamento positivo de todos os segmentos para tentar sair da crise, e a mudança de governo em 2016 criou um clima mais favorável de expectativas quanto a isso. “Uma boa notícia é que parece que a queda acumulada está desacelerando, diminuiu o ritmo”, afirmou Alexandre Lyra. Mas daí a se falar em crescimento, retomada do aço, há um longo caminho pela frente”, finalizou o presidente do Conselho Diretor do Instituto.