PRA FRENTE É QUE SE ANDA

Marcus Frediani

Se, em termos de resultados da economia e da indústria brasileira, 2018 até surpreendeu os empresários, o ano de 2019 amplifica os desafios que ela terá que enfrentar, muitos deles solucionáveis apenas com o estabelecimento de uma parceria – de fato – por parte do novo governo.

OK! Você pode até dizer que 2018 não foi o “Dream Year” que todo mundo esperava. Mas é inegável que os resultados da economia brasileira no período encerrado no último dia 31 de dezembro não foi, nem de longe, decepcionante. Ao contrário, trouxe muitos resultados positivos para a maciça maioria dos setores e segmentos da cadeia produtiva. E exemplos disso, com maior e menor intensidade, não faltam.

Pelo segundo ano consecutivo, o Indicador de Nível de Atividade (INA) da indústria paulista ficou positivo e encerrou 2018 com alta moderada de 1,2%. Houve avanço nas variáveis do total de vendas reais (20,1%), horas trabalhadas na produção (3%) e no Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) para 0,4 p.p. A variação do INA ficou positiva em 11 dos 20 setores acompanhados em 2018. Entre os setores de destaque está o de veículos automotores, com crescimento de 15,3%, metalurgia (10,7%) e farmacêutico (10,2%).

De acordo com o segundo vice-presidente da FIESP, José Ricardo Roriz Coelho, o INA refletiu o resultado positivo do PIB dos dois últimos anos. “Existe uma confiança na melhora do ambiente de negócios, que tende a subir com as primeiras ações do governo. A posse dos novos deputados e senadores e a apresentação de uma série de propostas do governo, como a da Previdência, em discussão desde a campanha eleitoral, está trazendo mais otimismo para o mercado”, avalia, embora faça a ressalva de que a utilização da capacidade instalada das indústrias do Estado ainda está abaixo da média histórica, que é de 80%.

Verdade seja dita, muitas das expectativas da indústria nacional não se materializaram no período. O Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, deve encerrar 2018 com crescimento de 1,4% segundo a mais recente estimativa do Banco Central, frustrando a projeção do início do ano, que era de 2,6%. Ato contínuo, o PIB da indústria também deve crescer apenas 1,3%, índice menor do que os 3% estimados no início de 2018. E o adiamento das reformas foi um dos fatores que prejudicou o desempenho da economia brasileira e do próprio setor. “Avançar nas reformas estruturantes, como a Previdenciária e a Tributária, por exemplo, estão entre as medidas consideradas fundamentais para a melhoria do ambiente de negócios. E o país deve se unir em favor de medidas que impulsionem o desenvolvimento econômico e social, como a desburocratização”, dá a receita o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade.

Demanda reprimida bem atendida

Sem dúvida, com o destravamento das reformas, entre outros muitos avanços necessários, o que foi bom em 2018, pode ser ainda melhor em 2019. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) deu a ideia exata dessa premissa ao apresentar ao mercado os resultados da indústria automobilística brasileira no ano passado, além de suas previsões para as vendas, produção e exportação de veículos e máquinas agrícolas e rodoviárias em 2019.

O licenciamento de auto veículos em 2018 registrou 2,56 milhões de unidades, aumento de 14,6% frente às 2,24 milhões de unidades vendidas em 2017. Na análise mensal, foram negociadas em dezembro 234,5 mil unidades, o que representa crescimento de 1,6% sobre as 230,9 mil unidades de novembro, ou de 10,3% na comparação com as 212,6 mil de dezembro de 2017.

“O resultado da indústria automobilística brasileira no ano passado mostrou que 2018 consolidou a retomada iniciada em 2017. O mercado interno teve forte reação, o que mostra que parte da demanda reprimida foi bem atendida. O crescimento das vendas de caminhões e máquinas agrícolas indica a recuperação da economia brasileira. O único indicador negativo foi o volume de exportações, por conta da forte retração do mercado argentino, nosso principal parceiro comercial. O balanço da produção também foi positivo, mesmo com a redução nas exportações”, afirma Antonio Megale, presidente da Anfavea.

A produção em 2018 foi de 2,89 milhões de unidades – superior em 6,7% às 2,69 milhões de unidades do ano anterior. No último mês do ano, as 177,7 mil unidades fabricadas indicam baixa de 27,4% contra as 244,8 mil de novembro e de 16,8% quando analisado com as 213,7 mil do mesmo mês de 2017.

Nas exportações o cenário foi de baixa: 629,2 mil unidades foram negociadas com outros países no ano passado, o que significa queda de 17,9% sobre as 766 mil unidades de 2017, ano em que a indústria registrou números recordes no comércio exterior. Em dezembro, 31,7 mil veículos atravessaram as fronteiras, baixa de 7,9% em relação a novembro com 34,4 mil unidades e 48,1% menor frente as 61,1 mil de dezembro de 2017.

Bastante otimista, a Anfavea estima aumento de 11,4% no licenciamento de autoveículos em 2019: a expectativa é de comercializar 2,86 milhões de unidades. No caso das exportações a projeção é de estabilidade com 590 mil unidades negociadas com outros países. A produção deve chegar em 3,14 milhões de unidades, o que significa um aumento de 9%.

“Para 2019, nossa expectativa é de mais um ano de crescimento, exceto nas exportações. A conjuntura macroeconômica indica fatos positivos, como aumento do PIB, inflação diminuindo e queda do dólar. A oferta de crédito em 2018 foi a maior desde 2011. Na soma de todos esses fatores ao otimismo com as reformas econômicas propostas pelo novo governo, acreditamos em uma reação sequencial, que passa pela retomada da confiança tanto do consumidor quanto do investidor”, aponta Antonio Megale.

Já para o setor de máquinas agrícolas e rodoviárias, a previsão é de alta das vendas internas em 10,9%, com 53 mil unidades em 2019. As exportações seguirão o mesmo patamar do ano passado, com 13 mil unidades. Já a produção de novos produtos será de 66 mil unidades em 2019 – alta de 0,5%.

Superando expectativas

Quem também comemora os bons resultados de 2018 – e tem perspectivas bastante positivas para 2019 – é a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). De acordo com a entidade, os emplacamentos de todos os segmentos somados (automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motocicletas, implementos rodoviários e outros veículos) que apresentaram alta acumulada de 13,58% em 2018, somando 3.653.500 unidades, ante as 3.216.730 registradas em 2017.

Para o presidente da Fenabrave, Alarico Assumpção Júnior, o fechamento do ano de 2018 superou as primeiras expectativas da entidade: “Iniciamos 2018 com uma expectativa de alta mais moderada, porém, em função da melhora, mais acentuada, da economia e da confiança do consumidor e investidores, ao longo do ano, o desempenho do setor automotivo foi maior do que o esperado. Mesmo com acontecimentos negativos, como a greve dos caminhoneiros, em maio, e a indefinição política – no período pré-eleitoral, o mercado continuou em ritmo de alta”, argumenta Assumpção Júnior. Ainda segundo ele, o mercado reagiu positivamente ao resultado das eleições: “Os índices de confiança e de expectativas, tanto dos consumidores como dos empresários, refletiram otimismo com a apuração das urnas”, destaca.

Com expectativas ainda moderadas, a Fenabrave acredita na manutenção do clima favorável às vendas, para todos os segmentos automotivos, em 2019. De acordo com as projeções da entidade, o Setor em geral deverá apresentar crescimento de 10,1% com relação a 2018. “Tudo dependerá dos rumos a serem dados pelo novo governo de Jair Bolsonaro, como a aprovação das reformas necessárias, mas, a sinalização, nesses primeiros dias do ano, já se mostra positiva, com uma agenda de intenso trabalho, proposta para os primeiros 100 dias”, faz eco a seus pares Alarico Assumpção Júnior.

De volta ao patamar pré-crise

Por sua vez, as vendas da indústria de autopeças – extraídas da amostra de empresas da Pesquisa Conjuntural do Sindipeças – encerraram 2018 com expansão de 17,4% em comparação ao ano precedente. Moderadamente inferior ao que fora registrado em 2017, quando o faturamento nominal avançou 22,2% por sobre uma base ainda deprimida, a atividade em 2018 beneficiou-se da recuperação do mercado interno e do bom desempenho das exportações que, a despeito da crise na Argentina, alcançou diversificação de mercados e maior volume de transações com OEM (do inglês “Original Equipment Manufacturer”, ou “Fabricante Original do Equipamento”) e revendedores de mercados tradicionais.

Já as exportações de autopeças, para 203 mercados, somaram US$ 7,89 bilhões em 2018, 6,4% superior ao de igual período de 2017, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), consolidados pelo Sindipeças. As importações, de 190 diferentes origens, cresceram 6,1% e totalizaram US$ 13,52 bilhões. Com esses resultados, o déficit comercial de autopeças no ano passado alcançou US$ 5,63 bilhões, 5,6% maior que o registrado em 2017. A Argentina manteve-se em primeiro lugar na lista de destinos das exportações e a China, no topo do ranking de origem das importações. As exportações em reais (26,5%), foram beneficiadas pela valorização do dólar, e pela atividade das montadoras (17,4%), cujo desempenho esteve atrelado ao movimento interno mais forte.

Na avaliação do Sindipeças, ao final do biênio 2017-2018, o faturamento corrente da indústria de autopeças retornou ao patamar pré-crise, totalizando crescimento acumulado de 42,7% no período em oposição à queda de quase 26% observada entre 2014 e 2016. Apesar que no mês de dezembro, devido a fatores sazonais, os negócios costumam ser mais fracos – o que justificaria as variações negativas por canal de vendas e a elevação da ociosidade do setor para o patamar de 39% –, no acumulado do ano, entretanto, os resultados foram sólidos, contabilizando-se crescimento em todos os canais de distribuição. Assim, com o aquecimento das vendas de veículos novos, o mercado de reposição também enxerga boas perspectivas para 2019.

Retomada da confiança por parte do consumidor

Boas surpresas também no mercado de duas rodas. A produção de motocicletas fechou 2018 em alta, seguindo a curva de crescimento registrada durante todo o ano. De acordo com dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), de janeiro a dezembro do ano passado foram fabricadas 1.036.846 unidades no Polo Industrial de Manaus (PIM). O volume representa alta de 17,4% em relação ao total de 2017, quando saíram das linhas de produção 882.876 motocicletas.

O resultado do ano, segundo Marcos Fermanian, presidente da Abraciclo, é reflexo da retomada da confiança por parte do consumidor, da recuperação econômica e do aumento da oferta de crédito, além do número significativo de lançamentos de novos modelos pelas fabricantes de motocicletas. “O volume final ficou bem próximo da nossa projeção revisada, que era de 1.035.000 unidades e crescimento de 17,2%, demonstrando o otimismo da entidade em relação ao setor e a recuperação do cenário econômico no País”, destaca Fermanian.

Já as bicicletas não ficaram atrás nesse desempenho. Os fabricantes de bicicletas instaladas no PIM produziram 773.641 unidades em 2018, volume 15,9% superior ao registrado no ano anterior (667.363 unidades), conforme dados da mesma Abraciclo.

Segundo Cyro Gazola, vice-presidente do Segmento de Bicicletas da entidade, depois de quatro anos de declínio, a indústria demonstrou uma retomada nos negócios em 2018, impulsionada pela maior oferta de produtos, preços mais competitivos e expansão da mobilidade urbana. “Isso mostra com clareza o impacto positivo da ampliação das redes de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas nas cidades brasileiras”, comenta. Na avaliação do executivo, outro motivo para o desempenho expressivo está na redução do índice de inadimplência dos consumidores, aliada ao aumento da oferta de crédito pelas instituições financeiras.

Com base nos resultados do ano passado, a entidade reforça seu otimismo em relação aos negócios previstos para 2019. “Acreditamos que haverá um crescimento de 10,8% na produção de 2019, devendo chegar a 857.000 unidades”, diz Gazola. De acordo com o executivo, esta expectativa está baseada nas mudanças e implantação de novas medidas na economia, que podem ocorrer com o novo governo federal, além da continuidade dos lançamentos de bicicletas de maior valor agregado pelas fabricantes do PIM. Segundo ele, o mercado percebe e responde positivamente à melhoria contínua da tecnologia, qualidade e gama de oferta dos produtos e marcas nacionais, que têm preços mais acessíveis aos consumidores.

Na dependência das renovações antecipadas

Conforme já era previsto ao final do ano passado e registrado na edição de 2018 do Anuário Brasileiro da Siderurgia, os volumes de produção e entrega de veículos ferroviários de carga caíram em 2018, na comparação com 2017. Segundo o diretor do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários (Simefre) e presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer), Vicente Abate, deverão ser entregues cerca de 2.500 vagões de carga, sendo 50 exportados para o Peru (contra 2.878 em 2017) e 64 locomotivas, 2 exportadas para a Colômbia (contra 81 em 2017). A queda, explica, se deveu a não ocorrência das Renovações Antecipadas dos contratos atuais das concessionárias de carga, o que fez com que os investimentos caíssem.

Em carros de passageiros não aconteceu nenhuma nova encomenda no mercado doméstico desde 2017. O volume de fabricação e entrega cresceu em relação a 2017 (369 carros contra 312) apenas porque ocorreu uma nova exportação para o Chile, além da entrega de contratos obtidos em anos anteriores. “Diante deste quadro, os fabricantes de carros continuaram a reduzir significativamente sua mão de obra, cuja redução só não foi mais drástica devido à nova exportação e à execução de serviços de modernização de trens e fabricação de carros remanescentes de contratos nacionais que estão se encerrando em 2018”, explica o vice-presidente do Simefre, Luiz Fernando Ferrari.

Foram exportados 85 carros de passageiros para o Chile e África do Sul, já incluídos no volume acima mencionado. A exportação de rodas ferroviárias e grampos de fixação teve continuidade, em volumes estáveis. O faturamento total do setor deverá atingir R$ 6,5 bilhões em 2018, segundo ano consecutivo de queda. Segundo Ferrari, continua a expectativa da indústria nacional de participar, ainda em 2018, de licitação na Argentina para 560 carros, cujo financiamento encontra-se em fase de avaliação pelo BNDES.

Para 2019, o desempenho da indústria de vagões de carga, locomotivas e materiais para via permanente dependerá da efetivação das Renovações Antecipadas dos contratos atuais das concessionárias RUMO, VLI, MRS e VALE. “É de vital importância que as assinaturas de todos os contratos de renovações ocorram no primeiro semestre de 2019. Caso isso não aconteça haverá mais dispensa de mão de obra qualificada na indústria, assim como atrasos significativos nos investimentos planejados pelo setor, pois os volumes de vagões e locomotivas serão os mais baixos dos últimos anos”, ressalta Abate.

Para 2019, o volume de carros de passageiros será menor, de apenas 120 unidades, sendo dois terços para exportação. Os volumes de veículos de carga continuarão em queda. Estima-se um volume de somente 40 locomotivas (5 para exportação) e 1.500 vagões. “Esperamos que o novo governo, tanto no Ministério da Infraestrutura quanto no de Desenvolvimento Regional, crie as condições para que o setor ferroviário seja destravado, já em 2019, para que em 2020 a indústria ferroviária possa apresentar maiores volumes que os previstos no próximo ano”, pontua Abate.

Investimentos de mais de R$ 2,7 bilhões em 2019

Após cinco anos consecutivos de queda na receita do setor fabricante de máquinas e equipamentos, que levou o setor a encolher 47% no período, 2018 encerrou com crescimento de 7% em relação a 2017, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Apesar do resultado positivo, o ano encerrou com as atividades produtivas em desaceleração. Dados da entidade registrados em dezembro do ano passado, em relação ao mesmo mês de 2017, apontam que esse encolhimento foi da ordem de 0,8%. De forma geral, o crescimento observado nas vendas se deu predominantemente no mercado externo, no mercado doméstico houve relativa estabilidade (+0,3%).

Segundo a Abimaq, o bom desempenho das vendas externas foi observado em quase todos os setores fabricantes de máquinas e equipamentos, com destaque para o forte aumento das vendas realizadas no setor de óleo e gás (+43%), nos setores fabricantes de bens de capital (+12%) e na construção civil (+7,8%). “O setor fabricante de máquinas e equipamentos está sempre entre os maiores exportadores da indústria de transformação, o que evidencia seu esforço em manter seus produtos adequados às necessidades internacionais”, sublinha João Marchesan, presidente da entidade.

Corroborando o otimismo do setor, o Departamento de Economia e Estatística, da Abimaq, elaborou uma pesquisa que indica que os fabricantes preveem investir mais de R$ 2,7 bilhões em 2019, uma alta 30,1%, em relação ao volume investido em 2018. O setor vem apresentando nos últimos anos uma relação muito baixa entre investimentos sobre receita líquida de vendas, chegando a ficar em 3% em 2017, já em 2018, este valor foi de 3,7%, valores muito aquém de outros anos, a média entre 2010 e 2013 foi de 9,3%.

“A saída para o Brasil voltar a crescer é o investimento na indústria de transformação por conta de seu maior valor agregado e pelos maiores ganhos de produtividade, além de gerar emprego e renda para os brasileiros”, afirma Marchesan.

A pesquisa ainda revelou que as “micro e pequenas” e “médias” empresas estão mais dispostas a investir em 2019 com uma previsão superior aos investimentos realizados em 2018 em 48,7% e 50,3%, respectivamente. As grandes empresas também estão mais dispostas a investir, contudo em um patamar um pouco menor, 17,9% superior. “Os investimentos devem ganhar mais fôlego somente no segundo semestre, quando algumas reformas forem aprovadas e o nível de ociosidade reduzido, que hoje se encontra em 25%”, ressalta o presidente da Abimaq.

Dos investimentos esperados em 2019, 35,5% devem ser destinados para modernização tecnológica, 30,5% na reposição de máquinas depreciadas, 24% na ampliação da capacidade industrial e 10% em outras áreas. “O que deverá impulsionar os investimentos é a nova rodada de concessões de setores de infraestrutura”, projeta Marchesan.

Ainda de acordo com o presidente da Abimaq, o equilíbrio fiscal mais contundente é essencial para melhorar a segurança dos investimentos. “É preciso também reduzir a insegurança jurídica, manter o câmbio competitivo e inflação controlada, além de simplificar e diminuir a carga tributária, ter mais disponibilidade de crédito e facilitar o acesso a juros de mercado menores que o retorno da atividade das empresas”.

Movimento mais promissor dos indicadores

Outro setor fortíssimo da economia brasileira – o da indústria da construção – mostra sinais de recuperação. Uma recente sondagem divulgada pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta melhoria nos indicadores de condições financeiras, intenção de investimento e expectativas por parte dos empresários.

Desde outubro os resultados demonstram aumento de otimismo e confiança. No último trimestre de 2018, o índice de condições atuais superou a linha divisória de 50 pontos, o que não acontecia desde 2014. A mudança acompanha o movimento mais promissor dos indicadores de confiança e expectativas.

Porém, o estudo destaca que os indicadores relacionados à produção – nível de atividade, emprego e utilização da capacidade operacional – permanecem ruins. Entretanto, há uma sazonalidade forte no setor de construção que mostra enfraquecimento das atividades no meio e fim do ano, o que pode justificar o pior resultado desses indicadores, quando comparados com os demais.

Todos os indicadores de expectativas melhoraram e ultrapassaram a linha divisória de 50 pontos, indicando otimismo. A intenção de investimento também aumentou, registrando 38 pontos em janeiro de 2019, o maior valor em quatro anos. É o que também atesta o Índice de Confiança do Empresário da Indústria da Construção (ICEI-Construção) que mostra aumento expressivo de confiança do setor, superando em 10,6 pontos a média histórica e atingindo 63,7 pontos em janeiro. Todos os indicadores que compõem o ICEI-Construção contribuíram para o resultado positivo.

Infraestrutura, no rumo das privatizações

Em sintonia com a sondagem do CBIC, a expectativa com o setor de infraestrutura também é bastante positiva. Um dos fatores que alicerça essa confiança é a declaração de que o governo do presidente Jair Bolsonaro vai manter o processo de concessão de rodovias, portos e aeroportos à iniciativa privada. A proposta foi solidificada já na cerimônia de transmissão de cargo do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, disse que a pasta dará continuidade ao processo de concessão de ativos da União para a iniciativa privada. Gomes de Freitas defendeu a necessidade de manutenção do modelo diante das “restrições fiscais” no país. “É importante dar continuidade, continuar transferindo ativos para a iniciativa privada e para isso eu conto com a secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que tem sido fundamental para o atingimento desses objetivos”, afirmou Gomes de Freitas na posse.

Na ocasião, o novo ministro apontou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Caixa Econômica Federal (CEF) e a Empresa de Planejamento Logístico (EPL) como principais apoiadores na modelagem de projetos de privatização. Decreto publicado no Diário Oficial da União transferiu a EPL para a nova pasta. Antes ela era ligada à Presidência da República. “Estamos criando uma Diretoria de Estruturação de Projetos na EPL, que vai ter a responsabilidade de colocar na praça uma série de ativos e desenvolver bons projetos que sejam bancáveis e atrativos para a iniciativa privada”, afirmou.

De acordo com o ministro o primeiro “teste” da pasta de Infraestrutura será no mês de março. No dia 15, está prevista a realização dos leilões de concessões de 12 aeroportos da 5ª Rodada de licitações, divididos em três blocos: Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Já no dia 28, deve ocorrer o leilão da Ferrovia Norte-Sul. “O desafio já começa em março, quando temos o leilão da ferrovia Norte-Sul, a quinta rodada de aeroportos. É o primeiro teste do nosso modelo em blocos e assim que a gente tiver esse teste pelo mercado, devemos retomar as concessões de aeroportos. A gente faz a quinta e já anuncia a sexta”, pontuou Gomes de Freitas.

A seu turno, as empresas do setor eletroeletrônico também estão otimistas com a evolução da economia brasileira em 2019. Levantamento realizado pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) apontou que 83% das pesquisadas projetam crescimento para este ano. “Temos observado um aumento na confiança tanto do consumidor como do empresário”, afirma o presidente da Abinee, Humberto Barbato. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) do Setor Eletroeletrônico, conforme dados da CNI agregados pela Abinee, atingiu 62,6 pontos, em dezembro de 2018, resultado 3,2 pontos acima do apontado em dezembro de 2017 (59,4 pontos).

Já no âmbito das projeções, a Abinee aponta crescimento de 8% no faturamento do setor eletroeletrônico em 2019, atingindo R$ 157,3 bilhões. A previsão acompanha a expectativa de melhora na economia. “Conforme Boletim Focus do Banco Central, os indicadores econômicos deverão ser melhores do que 2018, com crescimento do PIB de 2,5%, inflação em torno de 4,2% e a taxa Selic iniciando o próximo ano a 6,5% e terminando a 8% ao ano”, destaca o mais recente documento divulgado pela entidade.

Cuidado com o processo de abertura comercial

O desempenho da indústria brasileira do aço em 2018 deve confirmar sua trajetória de recuperação, com crescimento nas vendas internas de 8,9% em relação a 2017, somando 18,8 milhões de toneladas, e de 8,2% no consumo aparente, que deve atingir 21,1 milhões de toneladas, segundo previsão do Instituto Aço Brasil.

No tocante à produção, tendo em vista a entrada de novas produtoras de aço no mercado e o atingimento do pleno ritmo de operação pela Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), a indústria brasileira do aço deve ter recorde de produção de aço bruto (estimada em 36 milhões de toneladas) em 2018. Já as importações devem aumentar 2,6% em relação a 2017, totalizando 2,4 milhões de toneladas e as exportações devem cair 7,2%, devendo atingir 14,2 milhões de toneladas.

Apesar dos números positivos de 2018, quando comparados a 2017, as projeções das vendas internas e do consumo aparente ainda permanecem abaixo dos níveis alcançados em 2013. A greve dos caminhoneiros, ocorrida em maio do ano passado, dificultou um maior crescimento das vendas de aço no mercado doméstico em 2018 e a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de restringir o mercado americano às importações de aço (Seção 232), desencadeou escalada protecionista por parte dos demais países prejudicando o crescimento do volume das exportações.

“Com expectativas otimistas em relação às medidas que estão sendo anunciadas pelo futuro governo, as previsões do Instituto Aço Brasil para 2019 são de aumento das vendas internas de aço em 5,8%, totalizando volume de 20 milhões de toneladas. O consumo aparente de aço deverá subir 6,2% em 2019, indo para 22,4 milhões de toneladas”, projeta o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

O Instituto Aço Brasil, que integra coalizão empresarial da indústria ao lado de outras nove entidades de classe (Abimaq, Abinee, Abicalçados, Abiquim, Abit, Abrinq, Anfavea, Aeb e Cbic), tem conversado com a equipe de transição do governo, defendendo uma agenda que tem como primeira e imprescindível prioridade o ajuste fiscal, associado à aprovação das reformas da previdência e tributária.

Constam também como prioridades da agenda da coalizão a retomada dos investimentos na construção civil e em infraestrutura e o fomento às exportações. Em relação a uma maior abertura comercial do país, a coalizão entende que somente seja feita após as correções das assimetrias competitivas. Neste sentido, a área econômica do futuro governo já sinalizou que a abertura será feita de forma gradual, segura e negociada.

Nesse sentido, representantes de grupos siderúrgicos pediram ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que haja “cuidado” para que o processo de abertura comercial defendido pelo governo não prejudique as empresas nacionais. Em outras palavras, isso significa que antes de colocar em prática as iniciativas é preciso corrigir “anomalias concorrenciais” vividas pela indústria brasileira – como juros e impostos considerados elevados.

“O setor espera que as medidas para abrir a economia sejam acompanhadas de reformas que melhorem o ambiente de negócios para os grupos nacionais. Não temos nada contra a abertura comercial desde que corrigidas as anomalias competitivas, como cumulatividade de impostos, juros elevados e a energia mais cara do mundo”, afirma o presidente executivo do Instituto Aço Brasil.

Para enfatizar esse posicionamento, ele ainda lembra uma fala pronunciada por Guedes em sua posse como ministro, em que disse que a abertura comercial teria que ser acompanhada de uma agenda de reformas ou o empresário brasileiro – já sobrecarregado com impostos e encargos trabalhistas, na visão do ministro – teria que ouvir “corre que o chinês vai te pegar”. “O ministro está correto na avaliação. Mas é preciso que ele se ‘lembre’ do que disse”, alerta Mello Lopes.

Acerca desse cenário, o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos (Sicetel), Daniele Pestelli, reafirma a confiança que os empresários do setor mantêm em relação aos seus negócios em 2019. Pela prévia da entidade, o segmento industrial no qual operam seus associados registrou uma pequena recuperação em 2018.

“Todavia, essa apuração é sempre em relação ao ano de 2017, cujo desempenho foi muito ruim. Registre-se que esse tímido incremento de mercado refere-se à média do nosso setor. Isto, porque os segmentos ligados aos fornecimentos às autopeças/montadoras (especialmente à linha de produção de caminhões) tiveram uma performance mais positiva do que os demais setores, e aquelas indústrias, que abastecem os mercado da construção civil e do agronegócio em geral mantiveram a mesma difícil situação de mercado de 2017. Finalmente, as empresas fornecedoras dos demais setores industriais do país também tiveram as suas vendas um pouco acima do ano de 2017”, pondera Pestelli.

O executivo sublinha que as boas expectativas para 2019 têm como alicerce a manutenção dos compromissos de campanha do novo governo Bolsonaro. “E parece que assim será, pelo que sinalizam os posicionamentos do ministro Paulo Guedes, especialmente no que diz respeito às reforma da Previdência e – talvez – a Tributária”, justifica.

Se assim for, de acordo com o presidente do Sicetel, a economia brasileira tem tudo para ter um crescimento mais expressivo em 2019, possivelmente atingindo um PIB de 2% a 3%. “Nós ainda vivemos um início de ano sem uma carteira fechada, mesmo no curto prazo, mas há um clima de maior otimismo no nosso mercado. Isto porque deverão se manter as previsões de crescimento dos nossos principais setores consumidores, especialmente as montadoras, eletroeletrônico, construção civil e o agrobusiness. Isso sem contar eventuais novos investimentos governamentais em obras de infraestrutura, que alavancam boa parte dos nossos negócios. Em síntese, então, 2019 deverá ser um ano positivo em relação ao ano passado”, registra Daniele Pestelli.

Importações no fiel da balança

Na ponta da distribuição, o Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda) divulgou dados anualizados dando conta que as vendas de aço que subiram 4,2% em 2018, para 3,09 milhões de toneladas, na comparação no período anterior. Fato não muito positivo apontado pela entidade é que, em dezembro do ano passado, as vendas de aços planos caíram 17,3%, para 188,6 mil toneladas, na comparação anual. Em relação a novembro, a queda foi de 28,1%. As compras recuaram 10,9%, para 196,9 mil toneladas, em relação a dezembro de 2017. Ante novembro, a queda foi de 27,1%. Os estoques fecharam dezembro em 939,4 mil toneladas, alta de 0,9% ante novembro. Já as importações encerraram o último mês do ano com alta de 13,7%, para 94,8 mil toneladas, em relação a igual período anterior. Na comparação com novembro, o avanço foi de 5,6%.

“Apesar da alta em dezembro, as importações de aços planos caíram 1,6% no acumulado de 12 meses de 2018, para 1,22 milhão de toneladas”, revela o presidente do Inda, Carlos Jorge Loureiro, informando, ainda, que, por país, o principal vendedor de aço para o Brasil foi a China, com 724,6 mil toneladas, o que representou 59% do total. O segundo maior vendedor foi a Áustria, com 205,1 mil toneladas, principalmente devido às importações de chapas grossas. Com relação às compras de aços planos, 2018 encerrou com alta de 5,4%, para 3,13 milhões de toneladas, na comparação com 2017.

“Com um prêmio de cerca de 15% nos preços em relação às importações, o setor de aços planos pode ter que repensar o atual patamar caso o dólar recue do atual patamar”, afirma Loureiro. “Se o dólar cair para R$ 3,60, o prêmio sobe de 15% para 20%, daí as usinas vão ter que baixar o preço”, acrescenta.

Vale lembrar que o prêmio atual leva em conta a moeda americana no patamar dos R$ 3,75. “As usinas estão preocupadas com o dólar: se cair mais abre espaço para importação”, alerta o presidente do Inda. Durante o ano passado, o setor realizou reajustes que resultaram numa elevação entre 25% e 28% nos preços dos produtos. No início de 2019, o aumento de aproximadamente 25% também foi repassado para os contratos anuais com o setor automotivo.