MUITO TRABALHO PELA FRENTE

Marcus Frediani

Não dá mais para esperar: o Brasil precisa urgentemente fazer os ajustes necessários para fortalecer suas exportações e ocupar seu merecido lugar de destaque no cenário internacional.

A afirmação de que o Brasil tem uma economia relativamente fechada ao comércio internacional, feita pelo presidente Jair Bolsonaro durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, parece ter repercutido de maneira negativa – ou, pelo menos, surpreendente – entre os interlocutores do encontro e, ainda na Imprensa brasileira. Notadamente quando levamos em conta o fato de que, sempre que possível, nos autoproclamamos como o “País do Futuro” ou, ainda, nos jactamos de sermos o “Celeiro do Mundo”. Há uma profunda contradição nesse fato, porque um país com tantos recursos – mas que não tem uma atividade exportadora forte – está longe de poder alardear tais títulos.

“Somos um país continental. Temos espaço, solo fértil, mão de obra farta. Tanto potencial e ainda somos muito menos do que poderíamos ser. Talvez essa abundância toda seja justamente um dos problemas. Preocupações com o comércio exterior geralmente são muito maiores em países com pouca extensão territorial, que não conseguem construir fortunas apenas com o mercado interno. Esse é um dos pontos que tornam o Brasil culturalmente menos propenso a buscar a economia externa”, opina, com precisão cirúrgica, o fundador e diretor da PALAS, consultoria em gestão da qualidade e inovação, Alexandre Pierro. Ainda segundo ele, além de uma visão extremamente restrita e limitada, vemos que manter as portas fechadas está nos fazendo empobrecer. “A soma de comodismo com má gestão estagnou o Brasil em um cenário onde se morre de fome com o prato de comida na mesa”, resume, mais uma vez com propriedade, o consultor.

Seguindo em sua linha de raciocínio, Pierro constata que fechados em nossa “bolha”, não buscamos nos adequar aos padrões internacionais, tanto em qualidade de produtos quanto de serviços. E não importa o quanto países do mundo inteiro se reúnam para construir um manual, uma certificação de melhores práticas, o Brasil tende sempre a ignorá-los. Assim, nos sentimos autossuficientes a ponto de ignorarmos não só o comércio exterior, mas também todas as oportunidades de crescimento que esse intercâmbio é capaz de trazer.

Pensamento preguiçoso

Não é a toa que existem certificações mundialmente reconhecidas. Essas práticas são exaustivamente discutidas e testadas, podendo demorar mais de dez anos entre o início do estudo e a prática para garantir os requisitos e padrões de conformidade/qualidade. Elas garantem não só a sobrevivência como também o crescimento da empresa, visto que criam oportunidades para a expansão dos negócios.

Mas, infelizmente, por aqui, essas certificações são pouco valorizadas. Ainda prevalece o velho pensamento de “por que se preocupar com o que eles acham, se nosso solo garante a riqueza de tantas empresas?”. “É um pensamento preguiçoso e enraizado na nossa cultura empresarial. A maioria não quer as dores de cabeça de ter de se adequar, se reciclar e melhorar suas práticas de gestão. Pensam que é trabalhoso, custoso e que não compensa”, pontua o diretor da PALAS, com justa indignação.

E essa postura indiferente redunda num erro crasso. Isso porque, neste momento que vivemos, estamos sentindo mais do que nunca os efeitos desse comodismo na forma de crises econômicas e dificuldades de relações comerciais com outros países. Em outras palavras, não somos um país fechado para o mundo no papel, mas na prática não saímos de nosso quintal, uma “zona de conforto” paradoxalmente muito desconfortável.

Falta de visão

Não é segredo para ninguém que muito desse comodismo é herança de uma cultura protecionista, que se preocupou em se desenvolver internamente, mas se esqueceu que conhecimento e progresso se constroem em conjunto, num ambiente de troca. “Inicialmente, o Brasil investiu na indústria e meio que parou por aí. Por diversos outros motivos políticos, acreditou que só isso seria suficiente para ir longe e manter o crescimento. Hoje, pagamos um preço alto por essa falta de visão. Precisamos correr contra o tempo para atender aos padrões internacionais e criar uma base econômica sólida e menos dependente do consumo interno”, alerta Alexandre Pierro.

Para o analista, a única alternativa para o governo Bolsonaro cumprir o que prometeu em Davos está justamente em incentivar economicamente que se mude essa cultura empresarial. Assim, como observa Pierro, precisamos estimular o comércio internacional, mas antes de tudo, nos organizarmos para encarar a amplamente preparada concorrência que encontraremos lá fora. Temos que falar a língua das normas mundiais. “A saída está em uma gestão mais eficiente e com padrões que atendam às melhores práticas internacionais”, faz, ainda, questão de registrar o executivo.

Gigante tímido

Seja como for, a despeito de uma política externa que, pelo que tudo indica, será pouco convencional, a comunidade empresarial alimenta boas expectativas com o novo governo Bolsonaro. De alguma forma, o momento econômico do Brasil levou os empreendedores a pensarem mais na venda de seus produtos e serviços no exterior. E, para 2019, a aposta é pela continuidade do foco nas exportações como estratégia de negócio e não mais como alternativa emergencial, o que, pelo menos, demonstra um sinal de coerência.

“Ao que parece, a palavra de ordem será abertura. E, desde que acompanhada das reformas domésticas que tanto impactam nosso desenvolvimento, será muito bem-vinda. Hoje, a presença do Brasil no comércio exterior mundial é inexpressiva, algo em torno de 1%. Somos um gigante tímido. ‘Timidez’ essa que também é fruto da burocracia, da infraestrutura deficitária e da mão de obra, em geral, improdutiva”, destaca, por sua vez, Kaio Cezar de Melo, Chief Executive Officer da Braver, empresa especializada em comércio exterior estratégico e relações internacionais.

E uma das soluções, ainda segundo ele, é que o Brasil precisa, no quesito macroeconômico internacional olhar, para além da América Latina, e assumir um papel mais relevante entre os BRICS enquanto houver contexto para isso, e avançarmos rumo à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“Quando a pauta é o BRICS, a instabilidade política pela qual o Brasil passou nos últimos anos nos deixou em pé de desigualdade em relação aos demais países do grupo. A China, por exemplo, está a um passo de se tornar a maior economia do mundo”, enfatiza Melo, acrescentando que, fora isso, deveria haver facilitação no trânsito de pessoas entre essas potências. E, como ele mesmo destaca, o único movimento – ainda insuficiente – registrado nesse sentido foi entre Brasil e Índia, com o e-Visa. “Precisamos simplificar o trânsito de capital intelectual entre esses países e não perder de vista nações como Canadá, Estados Unidos, Israel, Japão e Reino Unido, que tanto nos agregariam em ciência, tecnologia e inovação”, argumenta.

Já no que diz respeito à OCDE, Melo cita o México e o Chile como bons exemplos. Desde a entrada para esse seleto grupo, ambos têm registrado crescimentos expressivos no produto interno bruto ano após ano. Ato contínuo, vizinhos nossos como a Argentina – que conta com o apoio declarado dos Estados Unidos – e o Peru, já se movimentaram nessa direção, assim como vem acontecendo com a Croácia, a Bulgária e a Romênia. De acordo com o CEO da Braver, a chancela da organização favorece, entre outros aspectos, a atração de investimentos ao país, já que seus membros possuem um alto padrão de transparência nas relações e na gestão pública. “Mais do que isso, no longo prazo, fazer parte do grupo pode corroborar a competitividade das empresas brasileiras e posicionar o país em um patamar internacional relevante, mais digno de nossa grandeza”, sinaliza o executivo.

Outro ponto importante que Kaio Cezar de Melo faz questão de ressaltar são os obstáculos para empreender no Brasil. Hoje, ainda perde-se boa parte do tempo preenchendo papéis, indo a cartórios e/ou reclamando da telefonia, da internet, dos bancos. O empreendedor deveria concentrar seus esforços exclusivamente no desenvolvimento do seu negócio e o governo, de fato, precisaria ser parceiro das empresas, papel que o SEBRAE tem desempenhado muito bem para as micro e pequenas. “No cenário doméstico, são necessários mais bons exemplos como o da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (Camex), que acabou de lançar um guia de Boas Práticas Regulatórias, que proporcionou a eliminação de 249 burocracias no comércio exterior, estabelecendo um marco regulatório consistente e transparente, bastante alinhado aos padrões internacionais”, destaca.

Bem-vindo pragmatismo

Mais do que isso, quando o assunto é importação e exportação, precisa haver simplificação cambial, nos financiamentos, no recolhimento de tributos, nas adequações jurídicas. Não faz muito sentido que o empreendedor domine, tecnicamente, as equações tributárias ou tenha despesas administrativas em função delas. Uma alternativa lembrada por Melo, já aplicada em Hong Kong, seria a tributação de empresas com menos de dois anos de operação, exclusivamente sobre o lucro auferido, e/ou a criação de um imposto único e mais barato, espécie de VAT, amplamente difundido no exterior, sendo a União, a responsável pelo repasse aos estados e municípios.

“Na infraestrutura, é sabido que o fluxo de cargas no Brasil se dá majoritariamente pelas rodovias, das quais apenas 13% são pavimentadas. A ampliação da malha ferroviária – que representa apenas 15% do mapa logístico do país – facilitaria o transporte agrícola, carro-chefe do Brasil neste momento, e geraria uma economia de mais de R$ 15 milhões ao ano, além de melhorar o trânsito nos grandes centros urbanos, ser menos poluente e mais seguro”, aponta Melo, sem deixar de mencionar a alarmante situação nos 37 portos em operação no Brasil, que, a cada ano, vêm registrando índices cada vez menores de repasses portuários: o de 2017, por exemplo, foi o menor dos 14 anos anteriores. Mas, além de recursos incipientes, falta gestão. Não há governança corporativa, o que abre precedente para corrupção e diminui o interesse do investidor estrangeiro. Nesse contexto, a licitação dos portos seria uma alternativa.

“Que seja bem-vindo o pragmatismo, a presença de profissionais técnicos em áreas-chave, e a disposição para negociação com grandes nações. E que venham também as reformas estruturais que nos permitirão crescer para além da subjetividade das expectativas e que tenhamos um projeto de país consistente no longo prazo, com uma pauta de exportação de alto valor agregado – não escorada no agro – e com pequenos e médios empreendedores que, mais do que ouvir falar, saibam da importância da internacionalização para a perpetuidade de seus negócios”, deixa o recado final Kaio Cezar de Melo.