A economia e seus desafios

Marcus Frediani

Na avaliação geral dos analistas, os principais indicadores conjunturais deverão manter sua trajetória em prol da recuperação da economia brasileira. Mas há áreas que precisam de atenção especial.

O ano de 2019 chegou repleto de desafios ao Brasil. Entre eles, destaque para necessidade de aceleração do processo de retomada do crescimento econômico, hoje ainda tímido e frágil. De fato, as sequelas da crise ainda estão vívidas no país: mais de 12 milhões de brasileiros estão desempregados, segundo o IBGE, e mais de 60 milhões estavam inadimplentes em 2018, conforme a Serasa.

Na avaliação de Anderson Pellegrino, economista e mestre em História Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp e professor dos cursos de MBA da IBE-Conveniada FGV, esse nefasto quadro é resultante de 11 trimestres de recessão, com perdas acumuladas no PIB em torno de 7% entre 2014 e 2016. A recuperação começou em 2017, com 1% de crescimento do PIB e permaneceu em 2018 com 1,35% (previsão de mercado para o indicador), desempenhos pálidos. O caminho para uma retomada consistente do crescimento econômico, portanto, ainda parece desafiante.

“Para a superação do atual cenário econômico algumas condições estão postas. Primeiramente, o novo governo, nos âmbitos executivo e legislativo, terá que conduzir reformas pouco populares, porém saneadoras do ambiente econômico no médio prazo. Refiro-me às áreas da Previdência e Tributária”, afirma Pellegrino.

Segundo ele, na primeira delas, a reforma enfrentará o desafio de propor um regime previdenciário novo, capaz de arrumar o descompasso existente entre o crescimento da população economicamente ativa e os inativos e de promover uma estrutura mais justa e igualitária, corrigindo, por exemplo, diferenças existentes entre a previdência pública e a privada. “Já na segunda, terá que apresentar uma Reforma Tributária que elimine a complexidade e as inúmeras distorções – sociais e produtivas – provocadas pelo atual regime, que opera como um ‘freio de mão puxado’ no aumento da competitividade e no estímulo ao empreendedorismo no país”, explica o especialista. “Aprovadas, tais reformas devem, de imediato, afetar positivamente a confiança do empresariado – nacional e estrangeiro – na economia brasileira, ainda que seus reais efeitos sobre o ambiente socioeconômico devam demorar mais tempo para aparecer, em especial no deteriorado quadro fiscal do governo. Mas isso já pode fazer muita diferença”, completa Pellegrino.

Ativando o velho circuito

Se a retomada da confiança do empresariado é um elemento-chave para a aceleração da recuperação econômica, dela deve vir também o impulso para a ampliação do investimento produtivo, responsável direto pelo aumento do produto, do emprego, da massa salarial e, em decorrência, do consumo das famílias. E aqui, de acordo com Pellegrino, temos um ponto central: reaquecer o consumo das famílias, algo imprescindível para que o país volte a sonhar com um crescimento econômico mais robusto e atrelado ao mercado interno. “Ativar o velho circuito investimento/produto/emprego/renda/consumo é, portanto, caminho obrigatório ao crescimento e à redução do atual grau de endividamento dos agentes econômicos, empresários e trabalhadores, aliviando inclusive a pressão sobre as contas públicas”, observa.

Mas apenas a retomada da confiança basta para que haja ampliação do investimento produtivo? Para Anderson Pellegrino, a resposta é não, porque ela somente acontecerá se houver iniciativas governamentais no intuito de promover melhorias no ambiente de negócios. “Por aqui, claramente, a necessidade de reformas, modernização, revisão e desburocratização, em especial em certos marcos regulatórios, se faz urgente. Nesse contexto, a figura do agente Estado se reafirma então como zelador, promotor e regulador de um ambiente de negócios produtivo, atraente, ágil e competitivo, e que pode inclusive contar com sua participação em parcerias público-privadas em áreas estratégicas ao desenvolvimento nacional. Mas sem falso otimismo”, faz questão de registrar. (NE: Leia o artigo do Prof. Anderson Pellegrino no quadro da pág. 33)

“Freios” do PIB

O ano de 2019 começou com grandes expectativas – e algumas incertezas – acerca da condução da política econômica brasileira. Após um período de recessão, seguido por um 2017 e um 2018 de lenta retomada do crescimento, a perspectiva é de que a recuperação possa ser acelerada, caso o novo governo consiga implementar as reformas tão debatidas nos últimos anos e ao longo do período eleitoral. No caso do comércio internacional, espera-se uma postura mais liberal do Brasil, possibilitando incremento das importações e desenvolvimento de novos mercados para as exportações.

A previsão de mercado (Focus – Bacen) para o crescimento do PIB brasileiro para 2019 oscila em torno de 2,5%. Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta para o Brasil crescimento de 2,4%. Mas, segundo os analistas econômicos, podemos impor desempenho melhor do que o hoje previsto, inclusive em razão das projeções de crescimento econômico do FMI para países emergentes (do qual fazemos parte) e para países desenvolvidos em 2019: 4,7% para o primeiro grupo e 2,1% para o segundo grupo.

“Mas se a economia brasileira em 2019/2020 tem boas perspectivas, há, também, alguns fatores externos que podem fazer com que o crescimento do PIB brasileiro, em 2019, não passe de 2,5%”, alerta o Prof. Roberto Dumas Damas, mestre em Economia, em Economia Chinesa e Chartered Financial Analyst, para quem único motor que garantirá crescimento econômico sustentável é o investimento privado. Segundo ele, um dos reiterados “freios” que atrapalham a superação dessa marca é a demora na conclusão da Reforma da Previdência, que é crucial para estabilizar a dinâmica explosiva da dívida pública no Brasil. “Estima-se que se ela não for aprovada, em 2030 os gastos correspondentes com a Previdência atingirão 96,4% do teto dos gastos, aprovado pela PEC”, projeta Damas.

Altamente preocupante também, a Dívida Pública Bruta, que era de 76% do PIB em 2017, chegou a 78% em 2018. Em 2014, era 57,2%. “Apenas combater a corrupção e as privatizações não resolverá o rombo da previdência. Não vamos capitalizar com as privatizações nada próximo de R$ 1 trilhão, como a previsão do governo, e ainda haverá contas a pagar”, alerta o economista.

Outro fator relevante é garantir maiores investimentos como forma de eliminar “gargalos” logísticos e aumentar a produtividade da economia brasileira. Em relação à qualidade da infraestrutura, o País ficou na 123ª posição, bem aquém do que se esperaria para seu nível de renda. “A infraestrutura brasileira é ruim e o aumento da demanda, especialmente por transportes, vem gerando gargalos sérios que comprometem nossa produtividade”, explica Damas, abrindo um parêntese para tecer um comentário sobre o desemprego, cuja taxa ainda anda elevada, próxima aos 12%, cifra esta que, acredita, deve diminuir para 10,4% em 2019, notadamente em função da maior flexibilização proporcionada pela Reforma Trabalhista.

Ameaças externas

O Prof. Damas também revela que um dos mais significativos focos de preocupação da economia brasileira tem como cenário a dinâmica internacional em 2019. “O principal problema começa por Trump, devido à política expansionista implantada quando já estava em pleno crescimento”, argumenta, citando outro fator que poderá afetar o Brasil – a guerra comercial entre Estados Unidos e China, por meio da qual o governo Trump impõe tarifas que chegam a 25% sobre mais de US$ 200 bilhões em produtos chineses. “Com mais tarifas virá a volatilidade”, ressalta. Segundo o especialista, a economia norte-americana desacelerará mais rápido do que se imagina, trazendo desconfortáveis respingos ao Brasil.

A economia da Argentina também não vai bem, com dívida pública de 58% (PIB), taxa de juros de 60% ao ano, depreciação do peso em mais de 50%, contração do PIB no segundo trimestre e inflação de 40% ao ano. Com, isto as exportações de veículos e autopeças são reduzidas no Brasil. Ainda no cenário internacional, Damas alerta que a Turquia também passa grandes dificuldades, com déficit em conta corrente de 6,5% do PIB e alta exposição de bancos europeus a ativos turcos. E a coisa toda pode se complicar ainda mais em função do que está acontecendo na Europa: “Na França, Macron perdeu credibilidade e a chance de ser um grande líder, pós-protestos dos ‘jaquetas amarelas’, devidos à elevação de impostos sobre a gasolina. E há problemas também com o governo populista da Itália, com a aposentadoria de Angela Merkel na Alemanha, e a China, que precisará rebalancear seu modelo de crescimento econômico. Com tudo isso, o mundo crescerá menos” enfatiza o Prof. Damas.

Mas, no entendimento do especialista, alguns fatores que podem auxiliar a economia brasileira, entre os quais o aumento da renda da população chinesa e, como consequência, maior demanda de soft commodities, maiores investimentos no Brasil, com internacionalização e diversificação de empresas chinesas, investimentos em infraestrutura e logística.

Caminhos e perspectivas

“Em 2017, observamos uma melhoria generalizada nos indicadores macroeconômicos relacionados ao consumo. Inflação baixa e consequente crescimento da massa salarial real, juros em queda e retomada do emprego, ainda que de forma moderada, foram ingredientes importantes para fomentar a volta do consumo das famílias. Em 2019, devemos manter o mesmo ritmo, embora haja potencial para uma aceleração. Isso será ditado pela confiança das empresas e consumidores”, resume o economista da FecomercioMG, Guilherme Almeida.

Para deixar mais clara sua visão, Almeida elaborou com o auxílio do professor de Comércio Exterior e Negócios Internacionais da GS Educacional, Henrique Mascarenhas, entidade parceira da FecomercioMG, um corolário de análises acerca de caminhos a serem trilhados e perspectivas para a economia brasileira em 2019. Confira!

Reformas – Como já foi amplamente citado, a implementação de reformas será fundamental para melhorar a situação das contas públicas e, consequentemente, gerar mais confiança para o país. A principal delas é a da Previdência, pois é estrutural, ou seja, independentemente do mérito em relação a como as mudanças serão realizadas, é a Previdência que comporta os maiores gastos do governo, situação que irá piorar nos próximos anos.

Inflação – Atualmente, ela está sob controle, em função da redução do consumo. Porém, à medida que o volume de compras for aumentando em 2019, isso irá pressionar a inflação. No entanto, a projeção é de que a política monetária do Governo Bolsonaro seja semelhante à atual, mantendo as metas para o IPCA e a taxa básica de juros (Selic) como instrumento de controle dos preços.

Emprego – Apresenta uma expansão ainda muito fraca, com uma grande ociosidade na indústria. A geração de postos de trabalho deve continuar melhorando e até ser ampliada, se investimentos de grandes empresas, aguardados para o próximo ano, forem confirmados.

Mercado financeiro – Esperava-se que deslancharia após o período eleitoral, com a Bolsa de Valores ultrapassando os 100 mil pontos, o que não ocorreu. As incertezas sobre o futuro ainda deixam os investidores inseguros e, consequentemente, o mercado financeiro muito volátil. É preciso fortalecer os fundamentos econômicos para garantir a retomada de investimentos e de IPOs.

Varejo – Manterá o desempenho favorável, com previsão de crescimento entre 4% e 5%, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), assim como em 2018. O ritmo será ditado pela confiança na economia.

Cenário externo – As divergências entre os governos dos Estados Unidos e da China, grandes parceiros comerciais do Brasil, podem influenciar os preços internacionais. Por outro lado, a equipe econômica do presidente eleito Jair Bolsonaro tem postura mais liberal com relação à abertura para o mercado externo, com reflexos nas importações.

Importações – Existe uma sinalização de redução de barreiras e tarifas para a compra de vários produtos em outros países. Aliada à queda do dólar, a abertura possibilitará um incremento das importações. Isso contribui para a redução da inflação no Brasil, pois aumenta a competitividade no comércio.

Exportações – O novo governo também fala em novos acordos comerciais, a fim de reduzir a dependência do Brasil das vendas para o Mercosul. Entretanto, é preciso atenção ao mal-estar gerado com a China e com países árabes, em função de declarações polêmicas, que podem afetar diretamente diversas empresas exportadoras.

Uma agenda bem ampla

Acerca das perspectivas para a economia brasileira neste ano que se inicia, dados muito interessantes foram recentemente divulgados pela Delloite, no âmbito de sua pesquisa “Agenda 2019”, realizada pela Deloitte logo após o término do ciclo eleitoral – entre 29 de outubro e 5 de novembro do ano passado –, apontando as expectativas do empresariado brasileiro para o governo eleito e os seus próprios negócios.

Em síntese, no rol das prioridades, o que os representantes de 826 organizações de 32 segmentos econômicos – cuja soma das receitas totalizou R$ 2,8 trilhões no último ano (algo em torno de 43% do PIB nacional) – esperam do novo governo, entre outras, o avanço das reformas, o combate à corrupção, a geração de empregos, a melhoria das parcerias público-privadas e realização de investimentos ou a implementação de ações para melhorar o ambiente negocial em 2019.

Contudo, dois dos pontos que mais chamaram a atenção no estudo da Deloitte foram a questão da qualificação do profissional brasileiro e a busca de competitividade em tempos de transformação tecnológica acelerada, considerados pelas empresas como fatores de maior preocupação.

No apontamento das prioridades para o novo governo eleito, por exemplo, entre todas as respostas às questões que envolveram as cinco áreas pesquisadas, a educação aparece como o terceiro item mais assinalado (84%) desse levantamento, abaixo apenas da emergência das reformas Tributária (93%) e Previdenciária (90%). Por sua vez, nas intenções de investimento das próprias empresas para 2019, a manutenção de iniciativas de treinamento e formação para os funcionários aparece já na 3ª posição (49%); logo na 4ª, surge o percentual dos que vão desenvolver novas ações nesse sentido (38%).

“Além disso, nas medidas de estímulo do governo à atividade empresarial, aparecem cinco itens indicados com níveis muito similares de priorização. Entre eles, está a reivindicação de apoio para que as organizações se adaptem às mudanças trazidas pela Indústria 4.0 e à transformação digital (item assinalado por 48%), e aparece também a busca por mais incentivos tributários para programas, pesquisas e projetos de inovação (também com 48%)”, analisa Othon Almeida, sócio-líder de Market Development e Talent da Deloitte, ao observar a consolidação das respostas para perguntas de áreas distintas de questionamento da “Agenda 2019”.

Ao avaliar o tamanho ideal do Estado em diversas atividades econômicas e sociais, 65% dos entrevistados indicam que o governo deveria atuar mais do que atualmente para alavancar pesquisa e desenvolvimento no País. “Complementarmente, quando quase metade (46%) do grupo daqueles que preveem demitir funcionários no próximo ano alegam estar influenciados por fatores como a robotização, a automação de processos e a troca por funcionários mais qualificados, fica evidente, mais uma vez, a relevância dos movimentos disruptivos que afetam hoje o emprego e as operações das organizações”, ressalta Othon, chamando a atenção também para o fato de que 90% das empresas representadas na pesquisa devem manter ou aumentar treinamentos e investimentos em qualificação em 2019.