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A INDÚSTRIA 4.0 está aí: e agora, Brasil?
 
O universo de transformações impostas pela chegada da 4ª Revolução Industrial empareda as soluções paliativas e deixa muito claro um desafio irrecorrível: nosso país precisa, a todo custo, se tornar competitivo. E rápido.
 
Marcus Frediani
 
Realidade “instalada” e tangível em países como Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul, a 4ª Revolução Industrial – ou mais comumente denominada Indústria 4.0 – ainda engatinha no Brasil. Conceito definidor de uma série de mudanças proporcionadas pela adoção de algumas novas tecnologias para automação e troca de dados, por meio da utilização de modelos de sistemas ciber-físicos, Internet das Coisas e Computação em Nuvem, menos de 2% das empresas do país estão atualmente integradas a ele, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). E, de acordo com a mesma fonte, a projeção de adesão para os próximos dez anos, embora positiva, não é das mais animadoras: espera-se que esse número atinja 15% das indústrias atuando no conceito no Brasil.
Por que é tão difícil expandir a Indústria 4.0 por aqui? Quais são os principais entraves e desafios para que a mudança entre em velocidade de cruzeiro e siga em frente? Bem, boa parte das respostas já é bastante conhecida por quem se “aventura” a empreender no Brasil. A burocracia estatal, a falta de vontade política, a lentidão das reformas tão necessárias para a nação, a ausência de linhas de crédito, o delay tecnológico e tantas outras mazelas que abrem verdadeiros abismos entre a gente e as ditas nações desenvolvidas do planeta são apenas algumas delas. E claro, num país que ainda capenga em termos de desenvolvimento social, outra questão salta aos olhos: o que fazer com tantas pessoas que irão perder seus empregos ao longo do processo de instalação da Indústria 4.0 por aqui? Como equacionar todas essas questões num mundo globalizado, no qual teremos que competir com economias cada vez mais produtivas e agressivas do ponto de vista comercial e de negócios?
Está difícil. Mas, se recuar não é e nem pode ser opção, as soluções precisam aparecer. E rápido. Nesta entrevista exclusiva ao Anuário Brasileira da Siderurgia 2018, Guto Ferreira, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) dá algumas pistas importantes do caminho que precisa ser percorrido a passo largo pelas empresas no país, bem como fala dos movimentos do Grupo de Trabalho da Indústria 4.0 – o GTI 4.0 –, instalado em julho do ano passado, e que tem como atribuição propor uma Estratégia Nacional para a Indústria 4.0, buscando sua correlação com outras ações governamentais em curso que impactam a indústria nacional. Acompanhe e tire suas conclusões.
 
Anuário Brasileiro da Siderurgia 2018: Guto, numa recente matéria divulgada no jornal O Estado de S. Paulo, você declarou que a adoção dos conceitos da Indústria 4.0 pode gerar economia anual de R$ 73 bilhões para o setor produtivo no Brasil, apenas com a redução de custos. Na prática, como isso será possível? E em que tempo?
Guto Ferreira: Essa é uma avaliação elaborada a partir dos resultados publicados por fontes tais como o Instituo McKinsey e a CNI. São valores resultantes de ganhos de eficiência energética, da redução do custo de manutenção de equipamentos por meio do uso de estratégias preditivas e da produtividade de fatores. Os ganhos de eficiência operacional poderão ocorrer no curto prazo e com baixo investimento inicial, como, por exemplo, os ganhos obtidos no Programa Brasil Mais Produtivo. Dependentes de recursos financeiros e definidos pelo fluxo de investimentos de origem privada ou gerados em parceria com o governo, os ganhos de produtividade relacionados à eficiência energética podem ocorrer em médio prazo.
 
Na mesma reportagem, você diz que não haverá incentivo fiscal, mas apoio por meio de linhas de financiamento. Isso, naturalmente, gera muita desconfiança no empresariado, porque crédito é uma das coisas mais difíceis de conseguir hoje no Brasil, inclusive em função do enorme nível de burocracia e das altas exigências para se obtê-lo. Além disso, incentivo fiscal sempre foi interpretado pela indústria – e continua sendo – como “mola” para o desenvolvimento. Qual é a “mágica”, então, para a coisa toda não desandar?
A proposta é estimular a adoção de tecnologias da Indústria 4.0, resultando em ganhos de produtividade em curto prazo. As medidas de estímulo estão sendo tratadas de forma ampliada envolvendo os vários ministérios. Nesse momento, a participação do capital privado é decisiva e os agentes financeiros privados devem estar presentes para a viabilização de parte dos investimentos necessários.
 
Qual o teor da Política Nacional da Indústria 4.0 que a ABDI vai lançar em março deste ano, durante o Fórum Econômico Mundial, em São Paulo?
O MDIC instituiu um Grupo de Trabalho (GTI 4.0) para elaborar e propor uma Estratégia Nacional para a Indústria 4.0, coordenada com outras ações governamentais em curso que venham a impactar a indústria nacional. O que temos é uma agenda de ações da Indústria 4.0 desenvolvida coletivamente pelo MDIC e pela iniciativa privada. A ABDI, como secretaria executiva do GTI 4.0, apoia a construção dessa agenda. As medidas estão em discussão e olham para economia como um todo, incluindo além da indústria, os setores de comércio e serviços.
 
A expectativa de vocês é que, em dez anos, 15% das indústrias atuem no conceito da Indústria 4.0 no Brasil, sem dúvida um grande salto nesse índice, ante aos menos de 2% de empresas que, atualmente, estão inseridas nesse modelo, segundo dados do MDIC. Porém, embora expressivo, esse ganho será suficiente para fazer frente, em termos de competitividade, à concorrência internacional, principalmente a de países como Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul, onde a Indústria 4.0 já é uma realidade mais do que tangível?
A adesão ao modelo produtivo da Indústria 4.0 é uma escolha estratégica de cada empresa, e aqui temos uma diversidade de porte e de maturidade tecnológica que vai estabelecer a velocidade e a intensidade da transformação. A ABDI desenvolveu instrumentos para estimular a adoção da Indústria 4.0 e para monitorar a evolução dos ganhos. O contingente de empresas aderentes ao modelo é um dos indicadores dessa transformação. Outros indicadores são a produtividade, os ganhos sociais, a sustentabilidade e a balança de pagamentos, que serão observados para avaliar a competitividade e implementar instrumentos que efetivem a transformação da indústria. A dinâmica da transformação é definida pela demanda, seja ela originada no mercado interno ou externo e para isso a agenda da Indústria 4.0 será aderente e complementar à política macroeconômica e cambial.
 
Entre os principais desafios e obstáculos para o estabelecimento pleno da Indústria 4.0 no Brasil seguramente se alinham, em ordem livre, os problemas de infraestrutura, as lacunas de legislação – ou, em certos casos, a total inexistência dela – e, ainda, os déficits na qualidade da educação. Como você acredita que será possível contorná-los, ou pelo menos, evitar que eles atrapalhem demais a evolução do modelo de Indústria 4.0?
A Indústria 4.0 é um modelo que busca excelência produtiva. Internamente à indústria, ele prescinde de fatores tais como estrutura operacional, tecnologias e processos. Externamente, dependerá de integração das cadeias produtivas por meio de TIC, logística, educação etc. Estes dois grupos de fatores, embora relacionados, têm dinâmicas distintas: os fatores internos são solucionados pelas empresas no curto prazo e os externos são estruturados no médio prazo com apoio do governo, o que significa que hoje já podemos avançar de forma coordenada a partir de ações conjuntas entre governo e a iniciativa privada.
 
Sem dúvida alguma, a 4ª Revolução Industrial promete ser tão densa, que deverá questionar a própria razão de existir das empresas. E um dos reveses dessa história será o equacionamento das questões do trabalho, com um grande número de demissões. Por exemplo, a consultoria McKinsey projetou no Fórum Econômico Mundial, realizado recentemente em Davos, na Suíça, que apenas no Brasil 15,7 milhões de trabalhadores serão afetados pela automação e pelos demais processos de conversão e acomodação da indústria até 2030. Então, como será possível o mundo se preparar para mudanças tão radicais sem gerar um colapso social generalizado nesse futuro próximo?
Análises como essa explicitam a existência de um paradoxo na divergência entre o aumento da produtividade (principalmente industrial), e o desenvolvimento social, balizado pelo nível de emprego e renda das pessoas. O certo é que o acelerado avanço científico tecnológico e a forma como tem se atomizado no âmbito das sociedades e das relações de existência humana nos colocam desafios também no campo da moral e da ética. Não se trata de avaliarmos os instrumentos isoladamente, ou de abster ou renunciar aos avanços tecnológicos que são inexoráveis, senão, ter uma avaliação ampliada para criar formas éticas e civilizadas de colocá-los a serviço do desenvolvimento social, sustentável e inclusivo.
 
Sem dúvida, também, todo esse universo de transformações trará consigo a intensificação e a criação de uma nova série de desafios seriíssimos e de amplitude nunca vista para os futuros governantes brasileiros. Como será possível vencê-los ao longo do tempo? E qual continuará sendo o papel da ABDI ao longo do desenvolvimento desse processo?
Além de uma base industrial consolidada, temos instrumentos legais e fiscais que suportarão o país ao longo do tempo. Pela ação dos órgãos de governo, as mudanças e adequações desses instrumentos ocorrerão tendo em vista a superação dos desafios e a obtenção de ganhos sociais e econômicos. A ABDI apoiará a indústria em seu desafio de se constituir na fonte geradora e difusora de acumulação de capital e do progresso tecnológico para a elevação da renda e do bem-estar social.