Guia_2019

SB_Mkt_Geral




Nada mais será como antes, amanhã...
 
Enquanto o advento da Indústria 4.0 se torna uma realidade cada vez mais tangível nos quatro cantos do planeta, as profundas transformações que ela propõe – somadas à velocidade com a qual elas acontecem – assustam e preocupam os empresários. Mas tudo indica que o futuro, embora inevitável, será bastante promissor.
 
Marcus Frediani
 
A 4ª Revolução Industrial já é uma realidade no mundo. O conceito teve origem de um projeto estratégico de alta tecnologia do governo alemão, com o objetivo de promover a informatização da manufatura. A primeira revolução industrial mobilizou a mecanização da produção usando água e energia a vapor. A segunda revolução industrial, então, introduziu a produção em massa com a ajuda da energia elétrica. Em seguida, veio a revolução digital e o uso de aparelhos e dispositivos eletrônicos, bem como Tecnologia da Informação (TI) para automatizar ainda mais a produção, que abriu espaço para a Indústria 4.0.
Por meio dessa verdadeira nova maravilha, as indústrias e empresas têm buscado entender e trabalhar de forma mais automatizada ainda, o que inclui robôs e tecnologias digitais em favor da produção otimizada, dentro de fábricas cada vez mais inteligentes. Na Indústria 4.0, a convergência entre os meios físicos de produção e a tecnologia da informação dá as cartas, resultando em um novo modelo caracterizado pela integração e pelo controle da produção a partir de sensores e equipamentos conectados em rede, tornando possível o uso da inteligência artificial. “A Indústria 4.0 vai promover um encurtamento dos prazos de lançamento de novos produtos no mercado, maior flexibilidade nas linhas de produção e mais eficiência no uso de recursos naturais e energia”, lista algumas vantagens do processo Reynaldo Saad, sócio-líder da Deloitte Brasil para a indústria de Consumo e Produtos Industriais.
O processo de transformação é um movimento mundial que surge do posicionamento ativo do novo consumidor, também conhecido como prosumer, ou seja, aquele que, em alguns momentos, vira produtor da transformação do capitalismo pela economia de custo marginal quase zero e da adoção das novas tecnologias disruptivas, as quais geram um salto de eficiência e de integração econômica. “Tudo indica que, em breve, veremos a transformação da forma como energizamos a atividade econômica, com a expansão do uso das fontes de energia renováveis descentralizadas, e a transformação da forma como movemos a atividade econômica. Atualmente, as empresas que buscam ter sucesso nesse novo cenário econômico vivenciam esta jornada tanto como provedores de soluções para a transformação de seus clientes como protagonistas da própria transformação interna”, enfatiza, por sua vez, Augusto Moura, CEO da IHM Engenharia, empresa do Grupo Stefanini, maior multinacional brasileira de tecnologia.
 
QUEBRA DE PARADIGMAS
Contudo, se para a totalidade dos especialistas em Indústria 4.0 da atualidade, seguir na direção da 4ª Revolução Industrial não seja mais uma mera alternativa para a indústria e, sim, uma realidade irrecorrível proposta pelos novos tempos, o “bilhete” para ingressar nessa viagem sem volta para as empresas ainda tem um custo bem alto, assim como sua “compra” implica, naturalmente, a ruptura de velhos paradigmas e em vencer grandes desafios inerentes ao pleno estabelecimento do novo modelo, principalmente aqui na Terra Brasilis.
Não se pode dizer que, por aqui, o cenário não seja de boas intenções para tanto. Passada a fase mais crítica da crise econômica, empresas começam a pôr em prática planos para se adaptarem à Indústria 4.0. Só que o abismo a ser superado para tal é mais profundo do que pode supor nossa vã filosofia, como comprovam a pedregosa trajetória percorrida por países nos quais ela já contabiliza significativas taxas de conversão, como é o caso da já mencionada Alemanha, tendo como companhia a Coreia do Sul, os Estados Unidos e Israel.
Por exemplo, de acordo com o estudo inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) “Oportunidades para Indústria 4.0: aspectos da demanda e oferta no Brasil”, dos conhecidos 24 setores da indústria brasileira, nada menos do que 14 precisam adotar com urgência estratégias – entre elas, algumas até bastante básicas – de digitalização para se tornarem internacionalmente competitivos.
O documento cruzou dados de produtividade, exportação e taxa de inovação das empresas verde e amarelas e os comparou ao desempenho dos mesmos segmentos nas 30 maiores economias do mundo, que, juntas, representam 86% do PIB mundial. “O objetivo foi identificar quais atividades poderiam ser mais beneficiadas pela adoção de tecnologias digitais voltadas ao aumento da eficiência, quais correm o maior risco diante do avanço da nova onda tecnológica em países que concorrem com o Brasil e qual a capacidade de absorção e desenvolvimento de tecnologias pela indústria nacional”, conta o gerente-executivo de Política Industrial da CNI João Emílio Gonçalves.
No geral – e, infelizmente, sem muita surpresa – os segmentos estudados apresentam produtividade inferior à média internacional e baixa inserção no comércio exterior. O grau de inovação, por sua vez, é bastante heterogêneo. “A migração para a Indústria 4.0 exigirá um esforço maior principalmente para empresas menos inovadoras, menos familiarizadas com a adoção de novas tecnologias, o que demonstra a necessidade de estabelecer iniciativas direcionadas. Além disso, dado o gap de produtividade, os setores sofrerão cada vez mais com a concorrência internacional, tornando a urgência muito elevada”, avalia Gonçalves.
E a má notícia nessa história toda, é que as zonas de conforto estão datadas, ou seja, têm prazo inexorável para acabar. Para a CNI, a Indústria 4.0 vai se impor como uma necessidade para todos os setores. Mesmo em áreas nas quais hoje o Brasil se encontra em situação relativamente confortável em função das suas vantagens comparativas, o avanço tecnológico em outros países poderá provocar pressões competitivas no futuro. E, paradoxalmente, no entendimento do gerente-executivo da entidade, isso pode ser bom: “Temos de ver a Indústria 4.0 como uma chance de recuperarmos rapidamente o tempo que perdemos nas últimas duas décadas, quando a nossa produtividade cresceu muito lentamente”, abre a perspectiva.
Pensando nisso, a CNI prepara um conjunto de propostas e ações que serão apresentadas para os candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano para estimular e apoiar a adoção de tecnologias digitais pela indústria. Entre elas, destaca-se a criação de um programa nacional que reúna instituições capazes de apoiar a indústria na elaboração de planos empresariais de digitalização. “Cada empresa terá necessidades e objetivos diferentes com a adoção de novas tecnologias. Por isso, as soluções muito provavelmente, serão customizadas”, avalia o gerente-executivo da CNI.Outra proposta é sobre o financiamento da implementação dos planos de digitalização. “Será preciso mobilizar recursos para a modernização das empresas, pois o grau de investimento também vai variar de caso em caso”, completa Gonçalves.
 
INVASÃO ROBÓTICA
Sim, na visão de muitos executivos, analistas e do governo brasileiro, 2018 poderá ser o ano de start e de importantes avanços para a efetiva instalação da Indústria 4.0 no Brasil. Mas, que ninguém se engane, será uma tarefa titânica: atualmente, segundo a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), ligada ao Ministério da Indústria e Comércio (MDIC), menos de 2% das empresas estão inseridas nesse conceito. A meta/expectativa do órgão é de que, em dez anos, 15% das indústrias atuem no conceito, que se dá principalmente pela digitalização e robotização.
Nesse cenário, a economia brasileira, que começa a dar sinais de recuperação, tem no investimento da indústria nacional em robotização da produção um dos principais indicativos de que o Brasil está andando na direção certa. Segundo dados mais recentes da Federação Internacional de Robótica (IFR, da sigla em inglês), em 2016, foram vendidos 1,8 mil robôs industriais no mercado nacional. Embora seja um avanço, é um volume considerado ainda baixo em relação aos países mais desenvolvidos, como a China, que vende cerca de 90 mil unidades por ano, e a Coreia do Sul, 40 mil. Porém, o volume de robôs tende aumentar exponencialmente no Brasil até 2020: a IFR aponta, por aqui, que cerca de 12 mil robôs industriais serão comercializados até lá.
De acordo com Guilherme Thiago de Souza, CEO da Roboris, empresa de tecnologia e engenharia, com foco no desenvolvimento de projetos turn-key de células robotizadas e automação industrial, esse aumento se deve principalmente ao setor automotivo, que atualmente é o que mais investe nesta tecnologia e que foi responsável por introduzir os robôs na produção industrial brasileira. “No mundo, cerca de 70% dos equipamentos estão neste segmento. Como os robôs possuem capacidade de movimento similar ao do braço humano, são mais usados em tarefas pesadas, como a soldagem, a pintura e o carregamento de máquinas”, afirma.
 
INTEGRAÇÃO DE ÁREAS
Tudo isso indica que a indústria brasileira precisa de uma diretriz bem definida e para o desenvolvimento e amadurecimento dessa nova era tecnológica. A cadeia de produção, assim como o modelo de negócio, deverá ser repensada, considerando que muitos dos processos serão alterados exigindo novas capacidades técnicas e comportamentais e a qualificação do novo profissional será um elemento chave para viabilizar essa mudança.
A 4ª Revolução Industrial promete ser tão densa, que questionará a própria razão de existir das empresas. “No Brasil, ainda temos um longo caminho a percorrer, embora a transformação digital seja uma necessidade crescente entre empresas que buscam se reinventar. Na era do crescimento exponencial, precisamos mostrar como a tecnologia de ponta pode ser um fator decisivo para nos mantermos na liderança ou, simplesmente, desaparecer. Em dez anos, a estimativa é de que 40% das corporações atualmente relacionadas no índice Fortune 500 tenham deixado de existir”, enfatiza Marco Stefanini, fundador e CEO global do Grupo Stefanini
Então, não resta a menor dúvida de que todos os segmentos serão diretamente impactados. É apenas uma questão de quando isto irá acontecer. Por isso, é necessário que as empresas trabalhem a construção de sua estratégia pela perspectiva de reinventar seus processos para obter eficiência e flexibilidade com as novas tecnologias, num momento em que o produto/serviço é praticamente cocriado pela experiência que o usuário deve vivenciar. “Como em toda transformação, seu sucesso somente será alcançado com pessoas sendo o epicentro da mudança. É indispensável preparar bem as equipes, identificar o que há de melhor nelas, desenvolver novas habilidades, fomentar a mudança de mindset, de forma que se tornem protagonistas da era digital”, pontua Augusto Moura, da IHM Engenharia.
Ainda segundo ele, embora problemas de infraestrutura, qualidade da educação e lacunas de legislação sejam obstáculos em diversos projetos de implementação da 4ª Revolução Industrial, deve-se acreditar no potencial econômico do Brasil, no espírito empreendedor do brasileiro e nas novas tecnologias que surgem para transformar o mundo. “A revolução é inevitável e prevê uma crescente integração entre diversas áreas de conhecimento para mudar radicalmente – para melhor – a vida das pessoas e o dia a dia das corporações”, decreta o CEO da empresa do Grupo Stefanini.
 
RELAÇÕES EM XEQUE
Só que, no âmbito da implantação da 4ª Revolução Industrial, “melhorar a vida das pessoas” pode trazer uma proposta de quase colapso – ou de colapso total, na opinião de alguns estudiosos mais pessimistas do tema – nas atuais relações de trabalho no Brasil e no mundo. Estimativas divulgadas pela consultoria McKinsey durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, no último mês de janeiro, dão conta de que mais de 15,7 milhões de trabalhadores brasileiros serão afetados pela automação até 2030. Ainda segundo o estudo, na perspectiva mundial, entre 2015 e 2020, o Fórum Econômico Mundial prevê perda de 7,1 milhões de empregos, principalmente nos setores de administração e indústria. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), desde 2010, o número de robôs industriais cresce a uma taxa de 9% ao ano.
Contudo, para Márcia Ogawa, sócia para a área de tecnologia da Deloitte Brasil, o temor da perda de empregos com o uso mais intenso de tecnologias avançadas não pode travar a inovação. “Se fosse assim, ainda estaríamos usando charretes”, exemplifica, acrescentando que, no processo, a mão de obra vai precisar se requalificar e se adaptar rapidamente à nova realidade, como, aliás, ocorreu em outros momentos de rupturas tecnológicas.
“É natural que todas essas transformações tecnológicas causem um desconforto inicial, como também aconteceu nas revoluções anteriores. Muitos profissionais veem na automação um risco iminente para a empregabilidade. Com certeza, haverá mudanças significativas, que sinalizam para o fim de atividades repetitivas, que serão cada vez mais incorporadas pelas máquinas”, pondera Marco Stefanini.
Por outro lado, ainda de acordo com o empresário, as pessoas também terão a oportunidade de investir em outras profissões que envolvem uma capacidade analítica maior. Para sustentar essa afirmação, Stefanini destaca o estudo “Futuro do Trabalho”, publicado pelo Fórum Econômico Mundial em 2017, que revela que quase dois terços das crianças que ingressam no ensino primário irão trabalhar em funções que ainda não existem. Ou seja, a tendência é que surjam novas vagas na área de internet móvel, IoT, robótica, matemática e análise de dados.
E como o Brasil pode se preparar para este novo cenário? “Bem, não existe apenas um caminho a trilhar, mas certamente um deles passa pela educação e qualificação profissional. Como iniciativa privada, nosso dever é contribuir para a formação de pessoas que poderão utilizar a inovação como um diferencial competitivo no curto e médio prazos. Com as novas exigências do mercado, a sobrevivência de uma empresa depende da sua capacidade de inovar e abraçar novas mudanças. O novo mundo do trabalho é mais colaborativo e flexível, e a geração de empregos no futuro estará diretamente relacionada à criatividade, à qualificação, à resiliência e à capacidade de trabalharmos eficientemente em equipe”, conclui o CEO global da Stefanini.