“DESOBEDECER” É A CHAVE DOS NEGÓCIOS NOS NOVOS TEMPOS

O futuro de qualquer empreendedor como você depende da análise correta – e, às vezes, exclusivamente pessoal –, que a gente faz das inúmeras variáveis que nos cercam. E, para isso, ousar, desafiar o senso comum e continuar aprendendo sempre com o mundo, com as mudanças e com você mesmo é absolutamente imprescindível. Porque para mudar e melhorar o mundo para você, é preciso melhorar a vida de todo mundo. Simples assim.

Marcus Frediani

Escritor, empreendedor, mentor, palestrante, “Cidadão Emérito” pelo seu município - Vacaria, no Rio Grande do Sul –, Mauricio Benvenutti ajudou a transformar um pequeno escritório na XP Investimentos, uma das maiores corretoras independentes do Brasil. Quando a empresa já valia mais de um bilhão de Reais ele mudou para o Vale do Silício, na Califórnia/EUA, e agora é sócio da StartSe, a maior plataforma do Brasil para conectar empreendedores, investidores e mentores. Autor de best-sellers de negócios, como os livros “Audaz” e “Incansáveis”, em suas palestras, Mauricio compartilha a sua experiência de forma direta, instigante e desconfortável para muitas pessoas. Requisitado por empresas, universidades e eventos, sua visão questiona métodos tradicionais de gestão, fomenta a atitude empreendedora e prepara os participantes para a nova economia, que, aliás, já está aí.

Nesta entrevista, gentilmente concedida à Revista Siderurgia Brasil, Mauricio joga não um, mas incontáveis raios de luz sobre a iniciativa de empreender e de transmutar a vida das pessoas em algo muito, muito melhor, dando dicas valiosas como a necessidade de nos transformarmos em “autodidatas implacáveis” para acompanhar as rápidas mudanças do mundo atual, nos mantermos competitivos e na liderança de nossos negócios, questionando absolutamente tudo, com muita ousadia, usando a tecnologia a nosso favor, e nos dando sempre a chance de recomeçarmos a aprender, tendo sempre em vista o objetivo principal, que é melhorar a vida das pessoas. Com vocês, Mauricio Benvenutti!

Siderurgia Brasil: O mundo dos negócios e a realidade do consumo estão mudando cada vez mais rápido. O que fazer para se manter competitivo nos dias de hoje?

Mauricio Benvenutti: Hoje em dia, tudo se torna muito obsoleto e cada vez mais rápido. Segundo o portal global de conteúdos Delloite Insights, a meia vida de uma competência é de cinco anos. Ou seja, tudo que eu aprendo hoje, em 2019, a partir de 2024, metade desse valor vai desaparecer. Então, a única forma para eu profissional ou empresa continuarmos na vanguarda daquilo que fazemos é nos requalificarmos constantemente. Tendo isso em tela, do meu ponto de vista, existem várias respostas para nos mantermos competitivos em face às mudanças. Mas eu diria que uma das principais é que a gente precisa, tanto enquanto pessoa física quanto jurídica, se tornar um autodidata implacável. Nos dias de hoje, precisamos exercer o hábito de aprender por conta própria, nos tornarmos ases, verdadeiras autoridades em aprender sozinhos e em ganhar conhecimento. Não existe mais hoje motivo para esperar a conclusão de um curso para se tornar melhor ou uma capacitação para evoluir. Hoje, uma pessoa com cinco minutos de pesquisa na internet é exposta aos conteúdos mais ricos, densos e profundos que existem sobre um determinado tema no mundo. Então, exercer o hábito de se capacitar por conta própria é fundamental porque a educação, o aprendizado é o único antídoto capaz de combater os efeitos das atuais transformações.

Qual a real contribuição da tecnologia nesses novos tempos?

A tecnologia tornou acessível a qualquer pessoa o que, no passado, era restrito aos governos, grandes empresas e pessoas com muito dinheiro. Hoje, uma pessoa com um celular conectado à internet nas mãos no meio do continente africano consegue acessar mais informações que o presidente Bill Clinton acessava quando governou os Estados Unidos há 20 anos. O acesso à informação é igual para todos, e a tecnologia contribuiu para democratizá-lo. Em outras palavras, a tecnologia contribuiu principalmente para transformar o que era escasso no passado em abundante no presente.

Quais as habilidades e competências que um empreendedor tem que observar para se manter na vanguarda daquilo que executa?

Bem, nos dias de hoje tenho que causar impacto na vida das pessoas. Tenho, ainda, que olhar a próxima curva, ou seja, tenho que manter o que eu faço, mas ao mesmo tempo eu tenho que olhar qual é a evolução do meu trabalho, da minha carreira, da minha profissão, justamente porque o que eu vou fazer no futuro possivelmente vai ser muito diferente do que eu faço hoje. Questionar, em vez de ter resposta pronta também é fundamental nos dias de hoje. Outra dica importante é trazer as pessoas para dentro do processo produtivo, fazer “COM” elas e não simplesmente “PARA” elas, porque um dos maiores objetivos dessa história toda é melhorar a qualidade de vida delas em algum aspecto. A pessoa no check-out tem que ter saído melhor do que no check-in. Em outras palavras, no término de qualquer relacionamento com você, ela tem que sair melhor do que no início. Enfim, essas competências falam por si só. Tudo isso junto leva você a perseguir sempre a conquista daquela versão melhorada de si mesmo.

Mas esses são pontos que, nem sempre, estão em linha que o senso comum. Ou não?

Isso é verdade. Quando a gente observa essas empresas que hoje caem nas graças das pessoas, claramente a gente vê que elas nascem com um pé naquilo que “pode” e outro naquilo não que “não pode”, mas que ninguém disse que “não pode AINDA”. Ou seja, com um pé naquilo que “dá” e um pé naquilo que ninguém disse que “AINDA não dá”. Então, claramente as grandes oportunidades hoje não surgem mais do senso comum: ao contrário, elas surgem nas bordas, nos limites, nas fronteiras do senso comum. Essa é a única forma para que eu, enquanto profissional, consiga enxergar as oportunidades que hoje nascem nas fronteiras. Em outras palavras, tenho que me permitir nos dias de hoje ser mais desobediente. Tenho que ser mais questionador. Tenho que ser mais interrogador do ambiente. Essa é a única maneira de eu conseguir ser um profissional que destoa da média e da maioria. Você tem que se permitir ser desobediente. E ser desobediente faz bem. Desobedecer padrões, regras... Mas desobediência no sentido do novo, não daquilo que nos trouxe até aqui e, sim, naquilo que vai nos levar daqui para a frente. Então se a gente não ousar ser um pouquinho rebelde, usar um pouquinho nossa criatividade para construir soluções novas, dificilmente vai dar o passo à frente.

Outra questão importante é que muitas dessas regras e normas que regem a nossa sociedade já não servem mais para os tempos atuais de transformação.

É verdade. Elas foram criadas há 20, 30, 40 anos, quando parte das facilidades do mundo atual não existiam. Ou seja, boa parte das regras, normas da nossa sociedade foram criadas para um mundo que não existe mais. Então, naturalmente que para mover a sociedade à frente, temos que vencer esse marasmo e sair dessa mesmice para conseguir enxergar além dessas leis que, hoje, são anacrônicas, para poder construir soluções novas. Essa é uma habilidade hoje fundamental. Por exemplo, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quando esteve no Brasil, no final deste ano, falou uma frase em sua palestra que me surpreendeu muito. Ele disse: “As decisões que tomei que mais impactaram os Estados Unidos enquanto eu fui presidente foram aquelas em que havia mais pessoas discordando do que concordando comigo.” E isso por quê? Porque quando você expõe algo e gera discordância, isso pode ser um sinal positivo, porque pode significar que você está tomando uma decisão que está se afastando do senso comum. Em outras palavras, quando muita gente discorda de algo, isso pode indicar que você está tomando uma atitude, uma decisão que afasta você da média de mercado. Então, eu diria que uma das principais habilidades nos dias de hoje que profissionais e empresas precisam desenvolver é se permitir ser desobediente, inquieto, questionador, interrogador, porque só assim você consegue tirar, se afastar da massa, do comportamento mediano, e consegue realmente criar algo inovador.

OK! Mas ideias todos nós temos. E como um empresário pode saber que aquela ideia empreendedora diferente em sua cabeça é inovadora e “tem futuro”?

Veja bem, uma ideia, mesmo que seja uma boa ideia, quando está apenas dentro das cabeças das pessoas, continua sendo só isso: uma boa ideia nas cabeças das pessoas. Não vale nada. Ideia mesmo que seja a melhor do mundo, na cabeça de alguém, vale zero. Eu costumo dizer que se você quer saber se a sua ideia tem um bom potencial de virar um produto, serviço ou solução, tente responder “Sim” a quatro perguntas. A primeira é: a sua ideia é estranha? Porque as ideias que viraram bons produtos no início eram estranhas. Elas pareciam não fazer sentido. E quando você tem uma ideia que parece não fazer sentido, isso pode ser um bom sinal. Já a segunda pergunta é: sua ideia está inserida no mercado crescente? Quando pensa numa ideia, muita gente só olha o tamanho do mercado, se o mercado é grande o suficiente para ser rentável. Mas tão ou mais importante quanto o tamanho do mercado é se ele cresce, porque se você estiver num mercado grande, mas que não cresce, isso é muito ruim, é o pior cenário. É o cenário que você vai ter que brigar pelo cliente da concorrência, o que é muito ruim. Agora, se você está num ambiente, num cenário, num mercado pequeno, mas que cresce, aí você tem cliente novo entrando todo dia, você tem demanda nova, esse é um cenário fantástico.

Ou seja, é muito melhor você estar num mercado pequeno, mas crescente, do que grande, mas estagnado.

Sim. E isso leva você à terceira pergunta: a sua ideia está inserida num mercado crescente e é capaz de monopolizar um pequeno mercado? Deixar isso claro na cabeça do empreendedor é muito importante, porque, em geral, no início, quando você cria algo você não pode querer dominar o mundo, uma vez que está apenas começando. Mas você pode quere dominar um mercado muito pequeno. Isso, sim, você consegue. E quando eu digo um mercado muito pequeno isso significa, às vezes pode ser o seu quarteirão, ou um determinado nicho de um segmento, ou um bairro da sua cidade. Mas ali você tem que se tornar um monopólio. Ali você tem que ser a referência. Exemplos disso não faltam. Quando foi lançado, o Google era o 13º mecanismo de busca do mundo – não era o primeiro, nem o segundo e nem o terceiro. Mas ele foi o primeiro a apresentar uma página em branco, um campo de busca e um botão. Todos os 12 anteriores eram portais com notícias para atrair a atenção das pessoas. Só que ele tinha um buscador. Estranho, né? Você criar um buscador, uma página em branco, um campo de busca e um botão. Mas, enfim, o resto é história, e o Google se tornou o que se tornou. E foi assim que o Uber, o Arbnb e Rappy nasceram também. Então, você começar pelos nichos, pelas bordas, pelas tribos e você realmente criar um monopólio do seu produto para aquela tribo, para aquele nicho é fundamental para você expandir o seu negócio. E a quarta e última pergunta que você tem que se fazer para saber se a sua ideia “tem futuro” é com relação ao timing. O timing correto é agora? Por que dois anos atrás era muito cedo e por que dois anos à frente será muito tarde? Então, se você responder “Sim” a essas perguntas, possivelmente a sua ideia tem grandes chances de se transformar num bom produto ou serviço.

Muita gente ainda diz que o berço da inovação são quase sempre as empresas menores, mais dispostas a correr riscos que as dinossáuricas organizações, como as grandes siderúrgicas, mais resistentes a “novo” e onde tudo acontece em velocidade mais lenta. Como as grandes corporações podem romper esse paradigma.

Na verdade, a inovação pode existir tanto nas pequenas empresas, quanto nas grandes. Só que, nestas últimas, há uma forma diferente de a inovação acontecer. Por exemplo, hoje, boa parte do futuro do transporte está sendo construído não por pequenas startups, mas por empresas gigantes como a GM, a Ford, o Google e o Uber, respectivamente com 116, 111, 21 e 11 anos de história. Colocaria entre elas também a Tesla, com seus 16 anos de trajetória, que também está pivotando – ou seja, gerando mudanças radicais no rumo de seus negócios –, para construir e pavimentar esse caminho dos carros autônomos para se preparar para o futuro do transporte. Todas elas são empresas muito grandes, que estão realmente construindo e transformando completamente esse segmento. Existe, é claro, a maneira de a inovação ser construída dentro delas, por meio da qual elas estabelecem uma estrutura, um framework, um modo para manter o que fazem, mas, ao mesmo tempo, olhando a próxima curva e trabalhar o futuro da organização para os próximos dez, 15, 20 anos. O Uber, por exemplo, foi uma empresa que rompeu o segmento de transporte de táxis e transformou praticamente no mundo inteiro. Ela promoveu tal mudança, só que, neste instante, está construindo uma versão nova de seu negócio, que vai “matar” seu negócio atual, porque a partir do momento que os carros autônomos estiverem andando nas ruas, não vai mais precisar ter o carro do Uber com o motorista levando as pessoas de um lado para o outro. Então, olha a visão dela! Essa é a cabeça dos negócios nos dias de hoje. De tempos em tempos você tem que ser capaz de “matar” seu próprio produto, porque é só assim que você consegue se manter na dianteira de mercado. Quando você encontra essa fórmula, criando a próxima versão de você mesmo, você consegue a liderança. E se você não fizer isso, outra pessoa fará por você. Então, é melhor que seja você, e não os outros a fazer isso. E essa é, exatamente, a forma de fazer inovação por meio do intraempreendedorismo, versão em português da expressão “intrapreneur”, que significa empreendedor interno, ou seja, empreendedorismo dentro dos limites de uma grande organização já estabelecida, criando dentro dela estruturas e facilitadores para que a inovação possa acontecer. E aí muitas grandes empresas criam estruturas para se aproximar de startups, a fim de que seus próprios funcionários possam desenvolver ideias ousadas para promover inovação.

E qual o papel da interação com as startups nesse processo?

As startups são a segunda forma eficiente de introduzir inovação nas grandes empresas. As startups, em geral, têm muita flexibilidade e vêm com uma agressividade muito maior quando comparada à a elas. E, embora, não tenham o nome, o prestígio e os recursos das primeiras, têm, em contrapartida, velocidade, ousadia, a faca nos dentes e o brilho nos olhos para fazer o negócio das grandes corporações andar. Assim, o que se vê hoje não é a inovação acontecendo só “a partir” das startups. Isso já aconteceu muito no passado. O que a gente vê hoje é, sim, e cada vez mais, a inovação acontecendo por meio da união de forças entre as startups e as grandes corporações. Ou seja, a GM está buscando criar toda esta estrutura de carros autônomos junto de startups. A Ford da mesma forma. A Ford veio aqui para o Vale do Silício e está aqui justamente se aproximando das startups aqui da região para construir a evolução do que vai ser o transporte no mundo. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos não está em Washington: está aqui no Vale do Silício se aproximando das startups daqui para promover inovações que melhorem a segurança nacional, a fim de combater terrorismo e tudo mais. Então, o que se desenha no mundo atual é um processo de criar inovações aproximando a ousadia e a rebeldia das startups à credibilidade, aos recursos e à base de clientes que as grandes corporações têm. Ambas são complementares, uma tem o que falta na outra. E a união desses dois mundos é ideal para fazer a inovação acontecer.

Bem, voltando ao início dessa nossa conversa, além de perseguir sempre a conquista daquela versão melhorada de si mesmo, o que o empreendedor tem que fazer para se dar o direito de ter a chance de recomeçar sempre que você menciona em suas palestras?

Alvin Tofler foi um grande futurista que nos deixou alguns anos atrás, e que, para mim, falou a frase que resume o mundo que a gente vive hoje. Segundo ele, os analfabetos desse século não são as pessoas que não sabem ler e escrever, mas sim os incapazes de aprender, desaprender e aprender de novo. E acho que está aí uma das principais virtudes de qualquer empreendedor, eu diria de qualquer profissional dos dias de hoje. É você ter a ciência de que, naturalmente, precisa aprender e virar um autodidata implacável. A aprender por conta própria é a única forma de eu combater os efeitos das transformações. Só que, depois de certo tempo, você tem que ter a humildade para entender que tudo o que aprendeu não serve mais, e se dar a chance de recomeçar. Em síntese, temos que desaprender e abrir espaço em nossas vidas para aprender de novo se quisermos nos manter como profissionais relevante na vanguarda de tudo aquilo que fazemos.