Ainda Correndo atrás da retomada

Setor do aço no Brasil tem poucos motivos para comemorar os resultados do primeiro semestre de 2019. Mas, ainda assim, procura manter o otimismo na retomada da economia nacional e anuncia investimentos de US$ 9 bi no país nos próximos cinco anos.

Marcus Frediani

“A paralisia dos mercados e da economia resultou em um semestre muito ruim, frustrando todas as expectativas do setor produtivo. O índice de confiança dos empresários reduziu desde o início do ano e, consequentemente, as perspectivas de crescimento também. Ainda assim, estamos com um otimismo maior em relação ao segundo semestre, apoiados na retomada do setor econômico nacional.” Assim, curto e grosso, com essas três frases lacônicas e nada animadoras, Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil, resumiu o cenário atual do mercado de aço no Brasil, durante coletiva de Imprensa convocada pela entidade no último dia 25 de julho, em São Paulo para anunciar os resultados do setor no primeiro semestre de 2019.

As más notícias, entretanto, não chegam a ser nenhuma novidade. Afinal, em evento semelhante para os jornalistas realizado no dia 21 de janeiro para divulgar os dados relativamente positivos da indústria siderúrgica brasileira em 2018. Só para relembrar, à época foram computados +1,1% na produção de aço bruto; 3,3% a mais do que no ano anterior na produção de laminados; vendas no mercado interno 8,2% superiores a 2017; e 7,3% de aumento no consumo aparente nacional de produtos siderúrgicos no mesmo comparativo. E já naquele encontro de janeiro, o mesmo Marco Polo alinhava uma série de elementos condicionantes para o crescimento do setor no ano de 2019 que se iniciava, tais como a retomada dos investimentos na construção civil e em infraestrutura, o fomento às exportações e, ainda, as correções das assimetrias competitivas face à perspectiva de maior abertura comercial do país que já se insinuava em Brasília.

Contudo, à época, o cenário parecia animador com a chegada do novo governo e a perspectiva das reformas para melhorar o ambiente de negócios para os grupos nacionais. “Com as expectativas otimistas em relação às medidas que estão sendo anunciadas pelo futuro governo, as previsões do Instituto Aço Brasil para 2019 são de aumento das vendas internas de aço em 5,8%, totalizando volume de 20 milhões de toneladas. O consumo aparente de aço deverá subir 6,2% em 2019, indo para 22,4 milhões de toneladas”, projetava, na ocasião, o presidente executivo do Aço Brasil. Só que o tempo passou, muito pouca coisa boa aconteceu na economia brasileira, e o otimismo “miou”. “Consumo de aço e desenvolvimento econômico são indissociáveis, e a paralisia do mercado afeta diretamente o setor”, destacou o presidente executivo do Aço Brasil.

RESULTADOS E REVISÕES

Como resultado direto disso, a produção brasileira de aço atingiu 17,2 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2019, o que representou uma queda de 1,4% em relação ao mesmo período de 2018. Já as exportações somaram 6,7 milhões de toneladas, performando uma queda de 2,4% no quadro das estatísticas da indústria brasileira do aço.

O lado positivo da coisa (se é que existe alguma coisa para comemorar nessa história) foi o pífio crescimento de 1,3% nas vendas internas, que bateram nas 9,2 milhões de toneladas nos seis primeiros meses do ano, além do recuo nas importações – fato esse também previsível face à atual pasmaceira que rondou a retomada do crescimento da economia e o desempenho da indústria brasileira do aço no primeiro semestre do ano – que ficaram praticamente estáveis, totalizando 1,3 milhões de toneladas, recuo de 0,6%.

Ato contínuo, o Instituto Aço Brasil revisou suas expectativas para o ano de 2019. Ao final do mês de dezembro, a entidade espera um aumento das vendas internas em 2,5%, para 19,4 milhões de toneladas. Já a produção de aço deve se manter estável, com leve alta de 0,4%, totalizando 35,6 milhões de toneladas. Enquanto isso, o consumo aparente de aço deve subir 2,1% este ano. “Para as exportações, a expectativa é que as vendas caiam 7,3% este ano na comparação com 2018, face às condições adversas do mercado internacional e à perda de competitividade das empresas devido, principalmente, à cumulatividade dos impostos na exportação", afirmou Marco Polo.

ASPECTOS “INSPIRADORES”

Embora a frustração com os resultados do primeiro semestre de 2019 seja evidente, praticamente zerando a perspectiva de crescimento para a produção de aço bruto no país no ano, o Instituto Aço Brasil deixa transparecer alguma nuance de otimismo em relação aos resultados da indústria siderúrgica daqui até o final de dezembro. E o motor que move essa premissa é, novamente, a aceleração da economia brasileira e, notadamente, com a retomada dos investimentos na construção civil e em infraestrutura, assim como nos projetos do setor de óleo e gás, nos quais a participação brasileira precisa ser estimulada, a fim de que se possa, pelo menos virtualmente, incentivar o consumo de aço no país.

Em adição a esses tópicos, o Instituto Aço Brasil lista prioridades da indústria nacional as correções internas miradas na regularização do abastecimento de minério de ferro e pelotas, a fim de conferir mais previsibilidade na produção ao setor. Dessa pauta, constam, ainda, algumas reivindicações já bastante conhecidas endereçadas ao governo, tais como a correção das assimetrias competitivas e a necessidade de uma atenção maior às práticas predatórias de mercado, dotadas com maior eficácia no âmbito da defesa comercial.

Complementarmente, além da iminente conclusão da Reforma Previdenciária, existem aspectos “inspiradores” no radar em torno de medidas relacionadas a avanços na sistemática de ajustes fiscais, na Reforma Tributária e, ainda, na aprovação de medidas pontuais por parte do governo, que melhorem as condições de competitividade da indústria de transformação. E, claro, a ausência de um mercado interno demandante amplia extrema e substancialmente a necessidade de a indústria brasileira do aço exportar mais. “O problema é como e em que condições isso será feito, principalmente em função do cenário siderúrgico internacional, que vive um momento de condições bastante adversas (veja o quadro), somado à perda de competitividade das empresas brasileiras devida a fatores complicadores, como a cumulatividade dos impostos na exportação”, enfatizou Marco Polo.

Em linha com a proposta do otimismo e da confiança na retomada do mercado brasileiro, o Instituto Aço Brasil anunciou na coletiva de Imprensa do dia 25 de julho, que a indústria siderúrgica nacional pretende injetar investimentos da ordem US$ 9 bilhões no país nos próximos cinco anos. Mas há um “porém”: a indústria brasileira do aço opera com 67% de sua capacidade instalada. Assim, com um nível de ociosidade superior a 30%, investir em aumento da capacidade instalada não faz sentido. Calculamos que para o setor retomar o patamar ideal de utilização da capacidade produtiva, que é de 85%, será preciso aumentar a produção em cerca de 9,3 milhões de toneladas. Só para constar, a estimativa do Aço Brasil é de que esse aumento de produção elevaria a oferta de emprego no setor em quase duas vezes e meia.

“Assim, o investimento de US$ 9 bilhões será destinado, basicamente, à melhoria de produção, os produtos e da área ambiental, sem esquecer da capacitação profissional das pessoas que atuam no setor, principalmente considerando a necessidade desta tendo como pano de fundo a Indústria 4.0. E, embora a indústria de aço no Brasil se encontra no ‘estado da arte’, pronta para atender a qualquer aumento imediato de demanda, parte desses recursos, muito em função também da chamada 'Quarta Revolução Industrial', serão destinados a aperfeiçoamentos nas áreas de tecnologia e automação”, destacou o presidente executivo do Aço Brasil.

ENQUANTO ISSO, NO MUNDO...

O excesso de capacidade do aço no mundo caiu, como mostram os quadros ao lado, que resumem a comparação de seus números em 2017 e 2018. Contudo, a Bloomberg L.P., empresa de tecnologia e dados para o mercado financeiro e agência de notícias operacional em todo o mundo com sede em Nova York, publicou, no dia 1º de agosto, uma nota preocupante, por meio da qual o setor siderúrgico envia uma mensagem pessimista sobre uma economia mundial. Segundo o texto, o setor do aço, espinha dorsal dos segmentos de construção e transportes, amargou uma desaceleração da taxa de câmbio ao longo de 12 meses e teve suas perspectivas de crescimento global comprometida mais uma vez.

A perspectiva se torna ainda mais sombria com o comunicado feito na mesma data pela ArcelorMittal, dando conta de que a demanda global pode ser mais fraca do que a esperada anteriormente, em função dos baixos preços de aço e dos altos custos das matérias-primas. Dessa forma, a ArcelorMittal cortou as previsões de crescimento global da indústria do aço para possíveis 0,5%, abaixo da cifra anterior, anunciada em maio pela própria companhia, que era de 1%. “As condições de mercado no primeiro semestre de 2019 foram muito difíceis”, afirmou à Bloomberg o CEO da ArcelorMittal, Lakshmi Mittal. Ele pediu que os reguladores europeus tomem medidas e limitem as importações de aço, dizendo que a indústria precisa criar “condições equitativas”.

Ainda de acordo com a nota, um das vantagens do negócio da ArcelorMittal é que uma empresa produz parte do minério de ferro utilizado na produção do aço. Os lucros da divisão saltaram 87% no segundo trimestre, o que ajudou a companhia a compensar a demanda pela liga. E o Citigroup disse que os resultados foram obtidos em linha com as expectativas, sendo que os objetivos devem ser aprimorados. A ArcelorMittal também sinalizou que pode vender até US$ 2 bilhões em ativos nos próximos dois anos, viabilizando, inclusive, participações minoritárias, sem, contudo, gerar riscos de afetar o negócio principal.

Enfatizando o momento difícil vivido pela indústria planetária do aço, segundo a nota da Bloomberg, a Nippon Steel, outra gigante do setor, também registrou em comunicado distribuído à Imprensa que “as companhias continuam sob pressão”.