O mercado de ações e a Siderurgia

Para o setor siderúrgico, 2019 já “acabou” no mercado de capitais. Temos que olhar para 2020, pois, este ano, a atividade econômica ainda se manterá fraca. E espera-se que o “pulo” venha no próximo ano.

Marcus Frediani

A Bolsa de Valores é para os fortes e para quem consegue manter o sangue frio, mesmo em cenários de grande adversidade econômica. Além de correr riscos, estar nela significa, sobretudo, ter paciência, e esperar por dias melhores. Basicamente, esse é o recado que Pedro Galdi, especialista no mercado de capitais e atual Investment Analyst da Mirae Asset Wealth Management (Brazil) C.C.T.V.M, dá aos players da Bolsa e leitores da revista Siderurgia Brasil nesta entrevista exclusiva. Confira!

Siderurgia Brasil: Com o lamentável episódio de Brumadinho, o ano de 2019 começou, literalmente, de maneira trágica para os setores de mineração e siderurgia no Brasil. Quais foram os impactos do ocorrido para eles na Bolsa de Valores?

Pedro Galdi: O acidente na Vale trouxe forte impacto nas empresas que formam a cadeia do aço no mundo. A redução esperada de 50 milhões de toneladas em 2019 na produção/vendas de minério de ferro da Vale criou uma distorção na relação oferta/demanda desse produto no mercado transoceânico global e, com isso, observamos forte alta no preço do minério desde o acidente. Para ter uma ideia o preço pulou de US$ 65/tonelada em 24 de janeiro para os atuais US$ 122/tonelada. Claro que essa alta também teve influência de problemas climáticos ocorridos na Austrália, que também gerou redução global na oferta de minério de ferro.

E daqui para frente, o que podemos esperar?

Para a Vale a queda no volume vendido será compensado com o maior preço praticado e será determinante para a apresentação de forte geração operacional de caixa nos próximos trimestres. No entanto, a tendência na linha final do DRE (relatório contábil) não se mostrará tão empolgante, visto à necessidade de baixa de valores associados ao acidente, sejam de multas, indenizações, como eventuais processos relacionados a investidores estrangeiros que abrirem processo na SEC (U.S. Securities and Exchange Commission).

No caso das siderúrgicas, tanto as globais quanto as locais, então, o impacto continuará sendo grande.

Sim. Para as siderúrgicas no exterior, a alta do preço do minério de ferro vai continuar impactando seus custos de produção e vai testar as empresas buscando aumentar preços em um ambiente de excesso de oferta, o que minimiza a probabilidade de apresentação de maior lucratividade no setor para as empresas globais. Vale ainda destacar que a guerra comercial entre EUA x China também será fator negativo para o setor. Já para as siderúrgicas locais, o cenário para a alta do preço do minério de ferro é de pressão de custos, que em parte são minimizados pelo fato da Usiminas, Gerdau e CSN produzirem minério em nível suficiente para suprir suas necessidades. No caso da CSN a situação é diferente, pois além de sua produção atender suas necessidades do minério, ainda se mostra com exportadora de excedentes, o que está fazendo uma grande diferença nos resultados trimestrais deste ano. Sem problemas com redução de produção a CSN se mostra a grande vitoriosa com o momento atual. Essa condição de forte aumento de geração operacional de caixa será importante para a empresa buscar solucionar o seu elevado endividamento e é o fator que justifica a forte alta do preço da ação neste ano. Vale lembrar que a atividade siderúrgica no mercado doméstico está severamente sendo influenciada pelo engessamento em que a economia atravessa com a demora na aprovação das reformas.

Em outras palavras, 2019 praticamente já “acabou” em termos de expectativas. 

Infelizmente, é verdade. Em relação às expectativas, temos que olhar para 2020, pois, em 2019, a atividade econômica ainda se manterá fraca. E espera-se que o “pulo” venha no próximo ano.

Qual o cenário atual no mercado de capitais?

Na medição do último dia 16 de julho, a evolução do preço das ações no acumulado do ano era a seguinte: CSN – CSNA3 = +107,34%; Usiminas – USIM5 = +3,79%; Met. Gerdau – GOAU4 = 10,35%; Gerdau – GGBR4 = +2,28%; Vale – VALE3 = +4,45%; e Ibovespa – Ibov = 18,42%.

Em face disso, como o mercado de capitais responde a estas duas perguntas: 1) “Investir em mineração e siderurgia é, atualmente, um bom negócio? E 2) Por quê?

A resposta é “sim” para ambas. Entendemos que deter ações da Vale, Usiminas e Gerdau seria estrategicamente interessante, considerando a retomada da economia para o próximo ano. No caso da CSN entendemos que a alta já confirmada para o preço da ação retira potencial de continuidade de valorização, considerando a comparação com o preço justo encontrado atualmente por analistas pelo método de FCD (Fluxo de Caixa Descontado).

Após um período de euforia relacionado à entrada do novo governo Bolsonaro, a economia brasileira vive um momento de relativa frustração e um compasso de espera de mudanças, como é o caso da conclusão da Reforma da Previdência. Enquanto isso, o Ministério da Economia revisou para a metade a projeção de crescimento do PIB para 2019. Como isso vem repercutindo no mercado de ações? Confiança “bye bye” ou cenário de oportunidades, com “luz no fim do túnel”? 

Normalmente, quando finda um período de crise econômica em um país, na sequência acontece um período de forte recuperação. Aqui no final do ano passado, confirmado o novo governo, a expectativa que se formou foi da retomada. No entanto, o governo não conseguiu ter apoio para acelerar a Reforma da Previdência, primeira etapa fundamental para uma sequência de medidas. Em julho, o que tínhamos era um quadro de economia engessada e ciente de que a Reforma Previdência só seria aprovada para valer lá para setembro. Ou seja, o ano praticamente já foi. Contudo, não é “bye bye” e “luz no fim do túnel”, porque precisamos olhar para 2020. Apesar desse cenário, o que move a nossa Bolsa de Valores é expectativa e neste ano já temos 18% de valorização, um dos melhores retornos entre Bolsas de Valores no mundo, justamente pela visão de que vamos retomar.

Em abril, quando o governo Bolsonaro completou 100 dias, muito se falou na Imprensa acerca do fato de que as altas na Bolsa de Valores se deviam muito mais aos méritos e à condução da política econômica da equipe chefiada pelo ministro Paulo Guedes do que a fatores externos. Como você analisa essa afirmação? E como avalia esses “reflexos” e a posição do ministro Guedes hoje? Há cerca de um mês, por exemplo, as críticas que ele fez ao relatório da Previdência geraram instabilidade de mercado e derrubaram a Bolsa. 

Veja, o governo busca aprovar o mais rápido possível as medidas emergenciais para a retomada. Independentemente dos ruídos em Brasília, o processo segue. Vejo este novo governo com uma equipe forte, competente e técnica, o que vai ajudar na transição. Sobre instabilidade na B3 – a Bolsa de Valores oficial do Brasil –, não é isso que estamos vivenciando, pois o Ibovespa é o que mostra uma das melhores valorizações entre os pares globais.

Por falar nisso, como você avalia o cenário do mercado de capitais após a iminente aprovação do texto da Reforma da Previdência? Com essa definição, os negócios de ações sairão fortalecidos?

O cenário que está se materializando será muito positivo para o mercado de capitais, pois uma Selic na faixa de 5%, o IPCA em 4%, e dólar para baixo de R$ 3,80 irá mudar o retorno das diferentes modalidades de investimento. O que se espera é que com a queda do juro real (conforme premissas apontadas), o investidor pessoa física de fundos de RF (Renda Fixa) irá buscar risco e tende a migrar parcela dessa modalidade de fundo para o de RV (Renda Variável), injetando dinheiro novo na B3. Fundos de Pensão, visando a atingir meta atuarial, irão buscar mais exposição em RV em detrimento de RF. E os estrangeiros, que saíram com o aprofundamento da crise 2015/16, tendem a aumentar exposição no país em breve. Ou seja, em todos os casos é dinheiro novo na B3 e ai considerando a lei da oferta x procura. O sinal está dado.

Bolsonaro foi eleito com a defesa de uma agenda liberal para a economia, com promessa de reduzir os gastos do governo federal e diminuir a interferência do Estado no mercado. Na prática, entretanto, o governo deu alguns sinais de que “a coisa não é bem assim”, como foi o caso, por exemplo, do “vai-e-volta”, em abril, na intervenção do presidente no preço do diesel, definido pela Petrobras, que, no dia seguinte ao anúncio, fez com que as ações da companhia despencassem 8%, segundo consta, gerando um prejuízo de R$ 32,4 por ação em termos de valor do mercado. Em sua opinião, o governo “aprendeu” com esse episódio, ou os players da Bolsa correm o risco de se deparar com outros capítulos dessa história mais para frente?

Não considero que houve ingerência nesse caso da Petrobras. O que aconteceu foi, simplesmente, uma falta de bom senso que partiu de “dentro” da Petrobras. Existem mecanismos de hedge (proteção contra oscilações inesperadas nos preços) que permitiriam realizar o ajuste de preços do diesel em um período maior/gradual, e não de uma vez, justamente em um momento em que estava se formando uma pressão de greve de caminhoneiros. Então o mecanismo deveria ter sido usado! A interferência foi correta, e isso levou o novo CEO da Petrobras a rever este modelo, que, por sinal, estava gerando muita discussão. Não é necessário aumento diário: a Ambev não muda o preço da cerveja todo dia, mas, sim, quando e sempre que for necessário para manter um escopo de margem. Neste novo governo, não aguardamos ingerência em estatais, como ocorria no passado. E, com o forte programa de privatização em andamento, esse temor desaparecerá.