Positivo e operante

Usiminas apresenta avanços nos resultados do segundo trimestre de 2019 em todas as suas unidades de negócios e se diz preparada para o futuro.

Marcus Frediani

Na última sexta-feira de julho, dia 26, a Usiminas, gigante do setor siderúrgico nacional, divulgou os resultados de seus negócios realizados no segundo trimestre de 2019. Em síntese, os números da companhia apresentaram avanços em todas as unidades de negócios, encerrando o período com uma elevação de 125% no lucro líquido. Foram R$ 171 milhões entre os meses de abril a junho, ante um lucro líquido de R$ 76 milhões no trimestre anterior.

No mesmo período, o Ebitda Ajustado consolidado (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) da companhia atingiu R$ 576 milhões, com uma alta de 18% se comparado com o primeiro trimestre do ano, quando o Ebitda Ajustado ficou em R$ 488 milhões. A elevação é associada, principalmente, aos maiores volumes de venda de aço e aos maiores preços de minério de ferro e aço.

No segundo trimestre, as vendas totais de aço da Usiminas somaram 1,1 milhão de toneladas, com alta de 5% em relação aos primeiros três meses do ano. Foram 949 mil toneladas comercializadas no mercado interno, registrando uma alta de 7,2% ante o 1T19. Já para o mercado externo, foram 110 mil toneladas, cravando redução de 7,5% no comparativo com o trimestre anterior.

A empresa vem concentrando todos os seus esforços para continuar apresentando resultados sólidos, uma vez que os indicadores recentes da atividade econômica no país seguem em ritmo abaixo das expectativas. A recuperação da economia continua lenta, mas, mesmo nesse cenário, a Usiminas registrou uma produção de laminados nas usinas de Ipatinga e Cubatão de 1,1 milhão de toneladas, com alta de 5% em relação ao primeiro trimestre. “A nossa busca é pela superação dos resultados, independentemente das dificuldades e da complexidade do cenário econômico”, destacou o presidente da Usiminas, Sergio Leite, no comunicado à Imprensa e ao mercado, na ocasião do anúncio.

Sergio Leite gentilmente atendeu à reportagem da revista Siderurgia Brasil numa brecha de sua atribulada agenda, para falar um pouco mais sobre esses resultados mais do que animadores da empresa e responder a algumas perguntas endereçadas a ele pelos leitores da publicação. Confira o que ele disse e inspire-se, porque, segundo o presidente da Usiminas, o Brasil está no caminho da retomada de sua economia.

Siderurgia Brasil: Sergio, como você avalia a repercussão do anúncio dos resultados da Usiminas no segundo trimestre de 2019?

A repercussão foi muito positiva. Os números foram muito bem recebidos tanto pelos acionistas, quanto pelo mercado financeiro, pelas comunidades, pelos clientes e pela mídia. E a grande característica desses resultados foi que as nossas cinco empresas – Usiminas, Usiminas Mecânica, Soluções Usiminas, Mineração Usiminas e Unigal Usiminas – tiveram, todas, no segundo trimestre de 2019, um resultado melhor do que o trimestre anterior.

Seguramente isso não se deu em função de algum fenômeno benfazejo do mercado, que ainda continua arisco para o aço. Como foi, então, que vocês conseguiram esse desempenho?

Bem, no caso específico da mineração, houve um impacto no preço do minério. Mas, de forma geral, isso se deve ao esforço da equipe Usiminas em todas as empresas, sintetizado na busca da eficientização de todos os nossos processos. A siderurgia, que é nossa principal empresa, a controladora do grupo, foi uma das principais alavancas desses resultados, com um desempenho excelente. Aumentamos o volume de produção e o volume de vendas e reduzimos o custo em cerca de 1%. Além disso, aumentamos o preço médio em cerca de 30%. Então, com essa conjunção de fatores, o resultado só podia ser positivo.

Em entrevista concedida em abril, você afirmou que a tragédia de Brumadinho, embora tivesse repercussões negativas para o setor de mineração, não havia afetado a operação da Usiminas e que o abastecimento estaria garantido para 2019. Mas, de que forma isso gerou impacto para a empresa e nesse aumento de preços?

A tragédia de Brumadinho teve um impacto humano, social, ambiental e econômico muito grande no Brasil inteiro, principalmente em Minas Gerais. E foi um impacto negativo muito forte. O aspecto de preço a que referi se deve ao mercado internacional, com a influência na produção de aço na China, que subiu 10%, de problemas enfrentados na Austrália, em função da operação nas minas de lá, e, claro, também do problema de interrupção de produção de diversas unidades da Vale durante o primeiro semestre do ano.

Em paralelo a tudo isso, a Usiminas concluiu recentemente o processo de precificação de títulos representativos de sua dívida emitidos no exterior, no valor de US$ 750 milhões. Quais foram os termos dele?

Por meio dessa operação, colocamos bonds no mercado internacional, especificamente em Nova York, mas envolvendo investidores no mundo inteiro. A operação é mais um avanço importante para a empresa, que está adequando seu perfil de endividamento às perspectivas de curto, médio e longo prazos, preservando as capacidades financeira e operacional da Usiminas. Estamos readequando nosso endividamento, optando por um formato mais vantajoso, garantindo, principalmente, o alongamento do perfil da nossa dívida e elevando a flexibilidade financeira da companhia. Esse é mais um passo na busca pela perenidade da Usiminas. Emitimos esses US$ 750 milhões, com prazo de sete anos, com uma situação de juros de 5,875% ao ano. Foi uma taxa excelente. E a procura pelos nossos títulos foi muito grande.

O que isso significa no plano de amortização da dívida bruta consolidada da empresa, que, segundo divulgado na Imprensa, era de R$ 5,5 bilhões no final de março deste ano?

Essa operação se insere no seguinte contexto: nós, em 2016, em função daquele momento que vivenciamos, renegociamos a nossa dívida para um prazo de dez anos, com três anos de carência. Nós assinamos esse acordo em setembro de 2016, e o nosso compromisso era de começar a amortizar em setembro de 2019, portanto, o mês que vem. Mas, nesses três anos, em dezembro de 2017 já fizemos uma amortização da nossa dívida, em janeiro de 2018 fizemos uma segunda, em março de 2018 fizemos uma terceira, e, em março de 2019, fizemos uma quarta amortização. Todas elas, juntas, somaram cerca de R$ 1,5 bilhão, antes do compromisso de começar a amortizar. E com essa operação de bonds de US$ 750 milhões, nós amortizamos toda a nossa dívida com bancos estrangeiros, basicamente com os bancos japoneses. Além disso, amortizamos a nossa dívida com o BNDES, e amortizamos parte das debêntures que nós havíamos emitido em 2011, e parte da nossa dívida com os bancos brasileiros. Com isso, tínhamos um volume de vencimento de dívidas em 2020, 2021, 2022, 2023 e 2024 que está sendo reduzido. E, com esses bonds de sete anos, nosso compromisso de pagamento final vai vencer no dia 18 de julho de 2026. Então, nós alongamos o perfil da nossa dívida e reduzimos o custo dela, o que foi muito bom.

É evidente que a atividade econômica está aquém do que o setor siderúrgico brasileiro esperava. Nesse contexto, como andam os planos para reativação da unidade da Usiminas de Cubatão/SP?

Bem, esse é um projeto que nós estamos estudando, mas nada acontecerá antes de 2022. Não existe nenhuma decisão tomada. É um projeto que, hoje, não tem nenhuma perspectiva de data para ser implementado.

O advento da chamada Quarta Revolução Industrial (Indústria 4.0) lentamente começa a se desenhar no cenário brasileiro. De que forma isso impactará – ou, eventualmente, já está impactando – as atividades da Usiminas?

A Indústria 4.0 e a transformação digital são uma realidade no mundo e, como não poderia deixar de ser, no Brasil também. Portanto, também são uma realidade para nós aqui na empresa. Nós já estamos trabalhando nessa direção. Desde 2017, quando implantamos nosso Comitê Digital, a Usiminas vem concentrando esforços em torno do tema que agora começa a ser desdobrado de forma diferente por todos os níveis da companhia. Atualmente, estamos dando um enfoque muito grande na construção da perenidade da Usiminas. Este é um trabalho sem fim, que, daqui para frente, estará intrinsecamente associado ao nosso dia a dia. E um dos focos desse trabalho é a inovação. Tanto que, em 2019, criamos o Comitê de Inovação da Usiminas, e, agora, teremos uma Diretoria de Inovação na companhia. E como dentro da inovação entra toda a transformação digital e toda a Indústria 4.0, já temos vários projetos que em curso, num processo que tem como componente fundamental o envolvimento de todos os nossos colaboradores. Neste último mês de julho, recebemos uma premiação como uma das 50 empresas com maior envolvimento em startups, numa análise que avaliou o trabalho de 856 empresas. Assim, estamos trabalhando fortemente nesse campo, porque queremos deixar a Usiminas permanentemente preparada para o futuro. Um futuro que já é realidade no mundo e no Brasil.

Falando em futuro, para finalizar esta entrevista, como você analisa o cenário da economia brasileira? E quais são as expectativas de fechamento de negócios da Usiminas daqui para o final do ano?

Na minha visão, o cenário é positivo. O ano de 2019 está sendo um ano de preparação da decolagem do Brasil para o crescimento econômico. Na nossa visão, o Brasil decola para o crescimento econômico nos próximos 12 meses, o que significa que, nesse período, vamos atingir o ritmo de crescimento que, anualizado, nos colocaria no patamar de crescimento de 2,5% do PIB. O Instituto Aço Brasil acaba de divulgar perspectivas para este ano no negócio de aço, com perspectiva do crescimento do consumo aparente de 2%, embora no início do ano a nossa perspectiva era 6%, fizemos, em abril, uma revisão para 5%, e outra agora para 2%, porque, no primeiro semestre o crescimento do consumo de aço no Brasil foi zero. Então, a expectativa da Usiminas é de que teremos um segundo semestre melhor do que o primeiro em termos de crescimento econômico e, principalmente, em termos de consumo de aço. Tenho ido muito a Brasília e percebo nos Ministérios e no próprio Planalto um trabalho com muito foco na construção do crescimento econômico do Brasil. O país precisa voltar a crescer economicamente. Os últimos dez anos foram praticamente perdidos. Agora, a gente tem que correr atrás.