ALGUNS PASSOS DE CADA VEZ

A economia brasileira tem que vencer os “voos de galinha” e realizar saltos quânticos mais aplicados. E isso depende da vontade de todo mundo, inclusive de quem trabalha em segmentos bastante específicos da siderurgia, como o de aços especiais.

Assim como outros setores da economia, o mercado de aço vem sofrendo com os impactos da crise político-econômica brasileira. E para quem trabalha com aços especiais importados – como é o caso da empresa do setor siderúrgico de origem russa NLMK, que chegou ao Brasil em 2015, com metas arrojadas de conquista de market share, isso não é diferente.

SB133 Paulo Seabra NLMKPara Paulo Seabra, diretor-geral da siderúrgica NLMK South América, o mercado continua muito desafiador, impactado por diversos fatores, como a demanda ainda muito baixa para o tipo específico de produto que a empresa comercializa, mesclado a uma queda no otimismo, talvez exagerado, que acompanhou, os momentos iniciais do novo governo Bolsonaro, e que acabaram gerando até certo nível de frustração no mercado, porque decisões cruciais, como a Reforma da Previdência, estão demorando muito, e as coisas simplesmente não estão acontecendo como era esperado na economia.

Mas, para o executivo-chefe da NLMK no Brasil, mesmo esse irritante compasso de espera que marca o atual momento no país, ao ser vencido, pode, efetivamente, configurar o preâmbulo de um período mais produtivo e de abertura de uma era de grandes oportunidades, não só para sua empresa, como também para toda a indústria brasileira.

Confira a entrevista exclusiva que Paulo Seabra concedeu à Revista Siderurgia Brasil, tire suas próprias conclusões e, quem sabe, inspire-se positivamente. Afinal, viver no Brasil não é para os fracos, não é mesmo?!

 

Siderurgia Brasil: Paulo, como foi o resultado das operações da NLMK no Brasil no ano passado?

Paulo Seabra: Dois mil e dezoito, realmente, foi um ano bom para nós: crescemos 52% em relação a 2017. Mas o que aconteceu, basicamente, foi que ganhamos cerca de 25% de market share em relação aos nossos concorrentes, em função de homologações e da qualidade dos produtos da NLMK. Em outras palavras, ganhamos negócios de algum concorrente que perdeu, mas não houve crescimento orgânico do mercado.

E como foram os primeiros meses de 2019 para vocês? Qual foi o impacto do otimístico “Efeito Bolsonaro” nos negócios na empresa?

O ano começou muito bem. No primeiro trimestre de 2019, os negócios da NLMK registraram um aumento de 16% em relação ao igual período de 2018, embora a base de comparação tenha sido fraca, porque o primeiro trimestre do ano passado não foi muito bom. Mas, ainda assim, não deixou de ser crescimento. A partir de abril, contudo, os resultados não espelharam uma boa performance. Sentimos um movimento de grande retração nos negócios. O ano começou muito bom, em função de todo otimismo com o novo governo Bolsonaro, mas depois houve uma queda bem grande nas demandas de produtos. Estamos vendo que os clientes estão produzindo menos, muito em função da não materialização de alguns projetos do governo, bem como da demora em se fazer coisas cruciais para a retomada do otimismo, como é o caso da Reforma da Previdência, que todo mundo está esperando.

Além disso, o mercado foi seriamente impactado com o problema com o desastre da Vale, em Brumadinho, não é mesmo?

Sem dúvida. Esse foi outro ponto negativo, que comprometeu bastante nossos resultados no setor de mineração no corredor Sul-Sudeste. Muitas operações foram interrompidas ou, efetivamente paradas. Neste momento, a Vale e seus funcionários estão muito voltados para operações internas da empresa, resolvendo problemas de ordem ambiental e manutenção de equipamentos, vivendo um compasso de espera. Com isso, a demanda por nossos aços especiais caíram muito.

Isso também tem se refletido nas operações da Vale no Norte do país?

Não. As operações da Vale por lá continuam indo bem. Inclusive, acreditamos que elas são o futuro da mineração no Brasil, uma vez que, por lá, o custo de extração de minérios é muito menor do que nas outras regiões do país. Esse é o cenário de 2019: começamos com otimismo, mas não aconteceu ainda a Reforma da Previdência e ainda também não foram resolvidas outras questões importantes relacionadas à economia, e mais o desastre da Vale, que impactou fortemente o mercado de mineração, que é o maior mercado para a NLMK, não só no que diz respeito ao fornecimento direto para as mineradoras, como também para quem fornece peças e equipamentos para mineração. Então, o cenário atual não é dos melhores. Mas sabemos que ele possa se reverter a qualquer momento com a materialização de algumas reformas que tanto esperamos.

Paralelamente, a valorização cambial também continua exercendo forte pressão e impedindo práticas como aumento de preços. Isso preocupa muito vocês?

Na verdade, trabalhando em euros, a NLMK opera numa situação mais confortável do que se estivesse operando com o dólar. O dólar subiu muito e proporcionalmente mais do que o euro no Brasil. Assim, quem tem sua produção e suas negociações pautadas no dólar, realmente, vive um momento de pressão muito grande. No nosso caso, com toda a produção pautada no euro, a pressão por preços não é tão grande. Mas, sim, isso é preocupante, uma vez que as flutuações foram grandes, o governo até interveio, mas não melhorou muito, não. Assim, para quem depende hoje de importação, a questão continua sendo um problema, seja euro, ou seja dólar. Pior para o dólar.

A produção nacional de aços especiais chega a gerar algum impacto sensível nos negócios de vocês, em função dos preços mais baixos que os produtores locais oferecem?

Veja bem, a NLMK trabalha exclusivamente, com produtos importados. Nossos aços especiais mais vendidos no Brasil são produzidos na usina NLMK Clabecq, na Bélgica, e, naturalmente, partem de uma base mais alta de preço do que os concorrentes nacionais, o que é um custo relativamente importante. Mas, como a qualidade dos produtos também é grande, na questão de itens de alto valor agregado, eles acabam se pagando. Nós sofremos com a impossibilidade de competir em condições iguais, porque, por exemplo, pagamos no Brasil 14% de imposto de importação. Temos que trazer isso da Bélgica para o Brasil com o câmbio alto em euros, que é um câmbio totalmente artificial, não é um câmbio técnico que a gente calcula. Além disso, temos que tirar o material do porto com caminhões, e não com trens, o que faz com que ele se torne mais caro no Brasil.

Como vocês reagem às constantes críticas e reclamações, com foco na falta de isonomia, feitas pelos produtores locais de aço, que quase sempre acusam de canibalização as empresas que trazem a liga de fora para o Brasil?

A resposta a isso é uma continuação do que eu disse aí em cima. No nosso caso, na prática, enfrentamos a mesma dificuldade – só que ao contrário – que os produtores brasileiros enfrentam no mercado internacional, de competir no mesmo patamar com o aço da China, por exemplo. Com relação aos concorrentes nacionais, vale lembrar que a NLMK mais complementa a oferta de aços especiais no Brasil, porque não temos aqui uma única usina que fabrica o material que a gente produz – no caso, apenas a Usiminas, que oferece algo semelhante –, mas nós fabricamos aços com durezas e resistências mecânicas superiores. Então, a Usiminas para num determinado patamar, e a gente continua, oferecendo produtos com resistências maiores. Assim, como existe uma demanda por esses produtos o mercado nacional não consegue suprir, somos concorrentes, sim, mas, na prática, acabamos complementando a linha de aços especiais oferecidos ao mercado, com itens não produzidos no Brasil. Entendemos isso como um processo agregador, até porque se o mercado brasileiro não comprasse da gente, iria ter que adquiri-los com preço muito mais caro lá fora, ou por meio de distribuidores ou subsidiárias aqui dentro, diferentemente da gente, que faz uma venda direta tradicional ao mercado, o que traz os preços para um patamar bem mais competitivo. Fizemos um investimento grande para garantir um estoque para pronta entrega, com nota fiscal do Brasil e frete incluso. Então, não existe nem canibalização de mercado.

Até porque, se supõe, estamos falando de categorias diferentes de aços. A Usiminas produz ligas mais leves, com aplicações diferentes daquelas dos produtos de vocês. Como é essa concorrência?

Dentro da nossa linha QUARD, a NLMK produz e oferece ao mercado brasileiro aços especiais com resistências iguais. A Usiminas produz aço com resistência de até 500 brinell a, no máximo, 700mPa, enquanto nós oferecemos produtos com dureza daí para cima, chegando até 1.300 brinell. Nossas chapas QUEND, por exemplo, são feitas em aço estrutural com extra-alta resistência, produzidas, temperadas e revenidas, com limite de escoamento mínimo de 700mPa. A QUEND 700 é recomendada para chassi de caminhão, equipamento de elevação e içamento, equipamento de movimentação e carretas. Já a QUEND 960 tem um escoamento mínimo de 960mPa e pode ser utilizada em lança de guindaste, equipamento de elevação, suportes estabilizadores, chassis, entre outros.

Atualmente, qual é a representatividade do Brasil nos negócios globais da NLMK?

Isso é difícil falar, porque os números aqui no Brasil ainda são muito pequenos. Produzimos 17 milhões de toneladas de aço por ano, e isso é praticamente o consumo de aço do Brasil inteiro, talvez até um pouco menos em termos de consumo aparente. Além disso, nós não atuamos no setor de aço comercial, de aço de baixa resistência, que dá muito volume. Então, para se ter uma ideia da nossa participação no mercado nacional, precisamos dar uma “limpada” nisso. Para definir melhor a razão aproximada de nossa participação no mercado, temos que pegar a América do Sul, região em que, sem dúvida, o Brasil é o maior mercado. Então, hoje, o mercado da América do Sul representa algo em torno de 10% a 12% da produção total de aços especiais da produção da Bélgica da NLMK.

Quais são os principais clientes globais da empresa?

América do Norte – com os Estados Unidos e o Canadá –, Alemanha e Austrália são nossos grandes mercados, e, pelo que acabei de dizer, a América do Sul também, em termos de volume de aços especiais para a usina de Clabecq, na Bélgica. O que a gente percebe – e não há aí nenhuma novidade – é que países mais desenvolvidos e maduros no âmbito industrial, com desenvolvimento de equipamentos de maior tecnologia, mais produtivos, que resistem mais, com vida útil mais longa, utilizam muito mais os produtos que a NLMK comercializa. Por exemplo, na Alemanha, o consumo de aço de alta resistência representa 7% do consumo total de aço. Já no Brasil, esse consumo representa menos do que 2%, algo em torno da casa de 1,8%. Então, falando de consumo per capita, chegamos à conclusão de que ainda há muito a se fazer no Brasil.

Na prática, como os clientes brasileiros entendem a questão do valor agregado dos aços especiais produzidos pela NLMK? É fácil convencê-los com a argumentação de dureza superior, embora custem mais caro?

Quando a gente faz esse comparativo, as empresas ficam realmente impressionadas com a superioridade e a durabilidade dos produtos desenvolvidos com nossos aços especiais. Recentemente, eu estive numa usina de cana-de-açúcar no norte de Goiás, na qual eles usavam uma ponteira de arado, fabricada com aço de baixa resistência, que durava só 24 horas – todos os dias eles tinham que trocar. Quando eles substituíram pelo nosso QUARD, a peça passou a durar 92 horas, ou seja, quase quatro vezes mais. E isso é um ganho muito grande para uma empresa dessas em termos de produtividade. Eu nunca tinha visto uma peça daquelas na minha vida, mas deu para sentir que tudo que usa aço barato, de baixa resistência pode ser substituído pelos nossos aços especiais, o que representa uma grande oportunidade não só para nós, como também, e principalmente, para os clientes.

Aliás, produtos que não duram são um dos pontos que fazem a produtividade da indústria brasileira  ser tão baixa, não é verdade?

Exatamente. Eu como engenheiro mecânico e como brasileiro tenho uma satisfação muito grande de trabalhar com esse tipo de produto, porque sinto que estamos contribuindo diretamente para a melhoria da economia e para aumentar a produtividade da nossa indústria. É um importado que agrega valor e, ao contrário, não destrói a cadeia nacional.  ¿

Um dos últimos lançamentos de vocês, no ano passado, foi o QUARD 550 brinell, que tem uma resistência superior e confere mais vida útil aos equipamentos. E agora, o que o mercado pode esperar de novidades no portfólio da NLMK?

Desde abril, nosso novo projeto visando à introdução de novos produtos no Brasil, e na América do Sul também, são os aços para blindagem, as chapas balísticas. Então, nós participamos pela primeira vez no Brasil da LAAD Defence & Security 2019, no Rio de Janeiro, a maior feira de blindagem da América Latina, na qual tivemos oportunidade de contatar vários fornecedores para o setor, nem tanto do segmento de blindagem civil, que também podem utilizar nossos produtos, mas mais de veículos táticos militares, como caminhonetes e carros de patrulha, como o famoso “caveirão”, que procuram blindagens de alta capacidade para resistir a tiros de fuzil.

E qual o nome desse produto?

É o QUARDIAN, High Protection Steel, que estamos colocando no Brasil a partir de 400 brinell de dureza, até o QUARDIAN 600 brinell. Para você ter uma ideia, um grande sucesso nosso na feira foi a apresentação de uma chapa de QUARDIAN 600, que com cinco milímetros apenas, uma espessura muito fina, consegue parar uma munição de fuzil AR-15. Além de ser bem leve para conferir mobilidade para o veículo, proporciona menor gasto de combustível e permite carregar mais tropa no seu interior também , com a economia de 300 quilos no peso em um carro desses, você consegue transportar três ou quatro soldados a mais, ou mesmo mais armamento. Esse é um grande avanço de tecnologia, que até então não estava disponível no Brasil e é um mercado potencial para os próximos anos.

E quais são as perspectivas de vocês em termos de evolução de negócios em 2019?

Para este ano, neste momento atual, a perspectiva não é muito boa, porque desde meados de abril, como mencionei aí atrás, a demanda por aços especiais vem caindo significativamente, com as empresas produzindo menos. Isso gera apreensão, até porque a gente vê o governo preocupado com questões que não são tão relevantes. E isso para a economia não é bom. Contudo, temos a previsão do mercado de que até agosto a Reforma da Previdência esteja provavelmente aprovada. Com isso acontecendo, deveremos ter um segundo semestre de 2019 melhor do que o primeiro, e esperamos chegar ao final de 2019 registrando crescimento, que, entretanto, obviamente não vai ser tão grande.

Ou seja, se conseguirem empatar o desempenho de 2018, vocês consideram que já vai estar mais do que bom. É isso?

Dois mil e dezoito foi muito bom para nós. Ficamos muito impressionados com nossos resultados no ano passado, porque, mesmo num cenário tão adverso, muitos projetos saíram do papel, e tivemos muitas aprovações. Por exemplo, ganhamos contratos com a Vale até 2020, além de outros contratos grandes com outras empresas também. Recentemente, ganhamos um contrato grande com uma empresa, que não posso divulgar o nome, mas que opera no setor de cimento, o que nos faz crer que se conseguirmos repetir em 2019 os números do ano passado, já vai estar muito bom. Isso, embora a gente sinta que o otimismo está diminuindo, com muitos segmentos, como o de automobilismo e o de veículos pesados – como o de tratores, caminhões fora de estrada e de máquinas agrícolas – fazendo “voos de galinha”. Mas, o importante é que a galinha está viva. (Risos) O cenário já foi muito mais desafiador, até em função das mudanças de direção – inclusive ideológica – do Brasil, o que, talvez, tenha alimentado um excesso de otimismo com a entrada do governo Bolsonaro. Só que, na prática, os focos desse otimismo todo, infelizmente, ainda não se materializaram sob a forma de avanços concretos na economia, porque as coisas, efetivamente, não aconteceram. Mas acreditamos que vai melhorar!