Com o motor ligado, o Brasil aguarda a “largada” para acelerar sua economia e voltar a crescer.

Marcus Frediani

A Deloitte Brasil divulgou recentemente um levantamento chamado de Agenda 2019 – a primeira pesquisa pós-ciclo eleitoral realizada com o empresariado brasileiro –, trazendo as expectativas e tendências das companhias para 2019. Em síntese, o estudo trouxe a visão atual dos empresários sobre o papel do Estado, as prioridades do governo para favorecer o ambiente de negócios e, ainda, o grau de credibilidade na capacidade dele no sentido de endereçar tais prioridades, bem como a intenção de contratações e investimentos das organizações ao longo do ano.

De forma geral, entre outras questões, a pesquisa da Deloitte identificou que as empresas preferem menos interferência do governo em setores estratégicos, como siderurgia e metalurgia, energia elétrica, exploração de minerais, petróleo e gás. “A conclusão que tiramos é que determinadas ações do ciclo produtivo, que exigem grande capacidade de investimentos em capital intensivo, devem ter à frente o setor privado. O governo deve cuidar da formulação de políticas públicas mais contundentes, para que o Estado realmente defina as regras do jogo”, destaca Othon Almeida, sócio e líder de Desenvolvimento de Mercado da Deloitte no Brasil nesta entrevista exclusiva concedida à revista Siderurgia Brasil. Confira e tire suas próprias conclusões.

Siderurgia Brasil: Qual a avaliação que você faz da contribuição do governo Temer, encerrado em dezembro último, para a evolução da economia brasileira?

Othon Almeida: Bem, não posso falar em política, o que é muito difícil, porque política e economia estão intimamente atreladas. Mas, em minha opinião, o saldo foi positivo, e não se pode falar que ele foi um “governo ruim”. A equipe econômica de Temer buscou trabalhar com a questão financeira, com a introdução da limitação do endividamento do Estado e com o controle de gastos e na alocação de recursos nos lugares certos. Conseguiu um controle razoável da inflação, trabalhou forte na parte de ações para desburocratização, e, além disso, tentou fazer as reformas sociais, que, infelizmente, por diversos fatores, não avançaram no Congresso. Em suma, buscou se adaptar ao momento vivido pelo país, caminhando dentro daquilo que se esperava, e preparou o Brasil para as muitas mudanças profundas e reformas que podem – pelo menos é o que se espera – ser implementadas pelo governo Bolsonaro, com o apoio do Congresso.

A Deloitte Brasil acaba de divulgar os resultados da pesquisa “Agenda Brasil”, na qual grande parte dos empresários manifestou o desejo de que, para o Brasil crescer, será de suma importância o governo brasileiro reduzir sua interferência em alguns setores estratégicos da indústria. Mas como isso será possível no universo real de nossa economia, sem as benesses e “facilitações” governamentais com as quais a indústria está acostumada? Em outras palavras, ela conseguirá seguir em frente com suas próprias pernas?

Um ponto positivo na argumentação da equipe econômica do governo Bolsonaro é que, quando ela fala de mudanças e de reformas, ela não se refere a uma única mudança ou a uma única reforma. Fala, sim, de aumento da capacidade de investimentos e da necessidade do Estado em recolocá-los para as mais diversas vertentes. Para isso, precisamos de um excelente ambiente de infraestrutura, com redução de carga tributária, que irão surgir quando o Congresso conseguir fazer reformas estruturais muito mais consistentes, desonerando a participação do Estado em determinados setores da economia – incluindo a siderurgia –, para a criação de um ambiente mais competitivo. Então, o custo não está em financiar a siderurgia entre outros segmentos, e, sim, em financiar o Estado. Este precisa, de fato, se desonerar, para que a iniciativa privada possa seguir em frente por meio de uma Reforma Tributária extremamente adequada. Ou seja, temos que desonerar o Estado: isso é fundamental. Um segundo ponto é que, de maneira geral, ao longo dos últimos tempos, observamos que esse público das “benesses”, mencionado em sua pergunta, tem sido um mau gestor. E quem é o dono do dinheiro do Estado? Somos nós, os contribuintes, que pagamos por isso. Então, reduzindo sua interferência nesses setores, o Estado poderá fazer uma gestão financeira mais adequada, alocando melhor os recursos.

Em outras palavras, o Estado precisa se tornar autossustentável para poder eliminar esse problema, a fim de que haja desenvolvimento.

É isso. Como mostra a pesquisa “Agenda 2019”, o que os empresários querem é que se faça uma Reforma Tributária e uma Reforma da Previdência de forma correta, que permita uma gestão ética, tendo o combate à corrupção como um dos pontos cruciais. E isso revela o nível de consciência dos empresários. Não é aquela coisa do tipo uma empresa dizer que vai embora do país e ficar esperando a contrapartida do Estado em forma de mais um benefício. Não, a coisa toda precisa ser vista com um olhar mais prospectivo. E nada disso será possível se o Estado não tirar de seus ombros o peso da dívida pública que o pressiona, para que possamos manter a capacidade de retenção das empresas e dos investimentos, que não seja por meio da simples concessão de incentivos. Recapitulando: a conclusão que se tira é que determinadas ações do ciclo produtivo, que exigem grande capacidade de investimentos em capital intensivo, deve ter à frente o setor privado. Enquanto isso, o governo deve cuidar da formulação de políticas públicas mais contundentes, para que o Estado realmente defina as regras do jogo.

Enquanto as nações mais desenvolvidas no planeta já nadam de braçada na Indústria 4.0, o Brasil ainda não fez avanços efetivos e substanciais no âmbito dessa transformação. E, ao que parece, a nova realidade do emprego que vem a reboque dela está anos luz de poder vir a ser aplicada aqui, uma vez que a perda maciça dos empregos convencionais que a Indústria 4.0 fatalmente trará não só gera preocupação, como também coloca o governo e as empresas numa sinuca de bico, a ser resolvido sem causar um verdadeiro caos social. Quais são os caminhos para administrar esse imbróglio?

Contextualizando um pouco, ao longo da história da indústria, todos os processos automatizados e repetitivos foram sendo terceirizados. Por exemplo: antes alguém tinha que buscar lenha na floresta para nossos antepassados cozinharem, e, hoje, praticamente todas as casas têm gás de botijão ou mesmo gás encanado, e nem precisamos mais de palitos de fósforo para acender os fogões. O que propiciou esse processo foi a aceleração, o impulso dado pela tecnologia. E, atualmente, a mudança se dá basicamente em torno das atividades repetitivas praticadas na indústria, com as empresas buscando cada vez mais praticidade e informação no ambiente eletrônico. Então, temos que ter consciência de que a Transformação Digital na indústria é inevitável. Esse é o primeiro passo da mudança da Indústria 4.0.

E como vamos conseguir resolver o problema do emprego?

Elevando o grau de conhecimento e a capacidade de aprendizado das pessoas no nosso ambiente hoje, explicando que elas precisam ampliar seu patamar e mais bem conhecer as questões que envolvem tecnologia e a melhoria de performance. Quanto mais elas estiverem atualizadas nesse sentido, maiores serão as chances de se incluírem no mercado de trabalho no ambiente da Indústria 4.0. Mas, veja bem: a visão de futuro é muito mais analítica do que eminente e especificamente técnica. E isso é bom para os profissionais que estão há mais tempo no mercado, pois eles têm grande capacidade de análise de dados para tirar conclusões e para a subsequente tomada de decisões. Eles serão mais valorizados do que os burocratas.

Aliás, no final de março, a Deloitte promoveu um grande evento em São Paulo abordando temas da Indústria 4.0, no âmbito da Transformação Digital, não é mesmo?

Sim. E nele enfatizamos que essa transformação vai chegar muito rapidamente. E, se não nos atualizarmos, vamos perder competitividade. Para se ter uma ideia do que já está sendo feito lá fora, a montadora britânica McLaren Automotive, parceira da Deloitte, instalou 400 sensores em seus carros de corrida, que atuam fazendo leituras em tempo real, enquanto os veículos estão em movimento, para realização de análises preditivas do que vai acontecer com eles nas próximas voltas na pista, a fim de promover ajustes para garantir-lhes melhor desempenho. Seguindo o exemplo da McLaren, a indústria lá fora, de maneira geral, também está colocando sensores nos seus equipamentos e plataformas, entre outros lugares, para antecipar os níveis de estresse desses itens, para a tomada de decisões e de eventuais medidas corretivas, e aprender com os dados e informações. Então, não se trata de dizer que as mudanças podem acontecer: elas vão acontecer! Elas vieram para ficar, e quem não aprender com elas vai ficar para trás. Sim, é que essa é uma transformação muito grande, que, num primeiro momento, vai deixar o ambiente mais instável. Mas é fato também que os empresários que encararem esse desafio como oportunidade vão sair na frente e conquistar posições estáveis mais cedo, principalmente nas áreas de emprego que demandam mais capacidade analítica, como a Saúde e a Engenharia, nas quais a correta interpretação dos dados é muito valiosa.

Porém, aí, há um problema de ordem “cósmica”: fazer tudo isso demandará uma boa dose de investimentos. E, embora os resultados da pesquisa “Agenda 2019” da Deloitte destaquem grande disposição dos empresários em fazê-los, bem como de implementar ações para desenvolver seus negócios este ano, o dinheiro anda curto no Brasil. Além disso, os investidores e empresas internacionais, ao que parece, também estão reticentes em injetar recursos no país, em compasso de espera por sinais mais consistentes de nossa recuperação econômica. Então, mais do que discursos com palavras bonitas, o que, concretamente, pode mudar esse quadro a nosso favor?

Com raríssimas exceções, a maciça maioria das corporações multinacionais opera e tem negócios hoje no Brasil. E isso, por si só, já constrói um cenário bastante positivo, porque ninguém o faria caso não vislumbrasse oportunidades e boas oportunidades de retorno. O fato de o Brasil ainda ter questões de ordem política e econômica por resolver é apenas um dos muitos aspectos que elas levam em consideração, até porque, no geral, o crescimento do país, ao longo dos últimos tempos, foi maior do que o que se viu em outros lugares do mundo. Sim, os investidores tanto daqui quanto de fora estão em compasso de espera, como você falou, aguardando pelas definições que envolvem a “bomba-relógio” social, as reformas que precisam ser feitas e os problemas de gestão pública que precisam ser resolvidos para o Brasil ganhar credibilidade. Mas acredito firmemente que nosso país tem toda chance do mundo para retomar seu processo de desenvolvimento. Só que ele precisa fazer algumas mudanças e emitir determinados sinais para os investidores para que isso aconteça.

Em outras palavras, isso quer dizer que a bola está com o governo e com o Congresso para que essa confiança e esses investidores voltem.

Exatamente. Os resultados dos leilões dos primeiros lotes de privatização dos aeroportos já estão dando a nota e os primeiros sinais de como o futuro se dará. Mas, independentemente do que pode ou vai acontecer, minha convicção é de que temos um desafio enorme pela frente que precisamos superar, correndo em paralelo com um enorme exercício de aprendizado, também, de como serão as relações da indústria com o governo e com o mundo a partir de agora. E, nesse cenário, a conclusão das reformas que o Brasil tanto precisa é algo absolutamente fundamental. Vivemos um momento de expectativa, porque ninguém vai colocar milhões ou bilhões de dólares por aqui antes que isso aconteça, não é mesmo?!