Cores, iluminação, mobiliários, presença ou não de vegetação... Estes são alguns dos muitos fatores que contribuem para o colaborador se sentir bem e render mais no ambiente de trabalho. Quem explica é a Neuroarquitetura.

Marcus Frediani

O ser humano é, realmente, um “bicho” bastante complexo. Ou até parafraseando Shakespeare, bem mais complexo do que pode imaginar nossa vã filosofia. De alguma forma, a psique humana – definida latu sensu por Carl Jung como o conjunto de processos psíquicos conscientes ou inconscientes que influenciam nossas vidas – se faz, como não poderia deixar de ser, presente em cada ato que vivenciamos ou realizamos diariamente, gerando estímulos, promovendo emoções e, por extensão, determinando nossas formas de comportamento.

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E um dos campos em que vem florescendo de maneira bastante acelerada a observação dessas conexões é o estudo da Neurociência aplicada à Arquitetura, no jargão mais popular conhecida como Neuroarquitetura. Por conta disso, reformular ambientes corporativos está sendo cada vez mais comum e necessário nos dias de hoje. O objetivo é claro: adequá-los e, sobretudo, aperfeiçoá-los face às mudanças no mercado de trabalho, aos novos comportamentos, ao novo mindset das empresas e às novas formas de trabalhar. O mundo nos exige pensar diferente para acompanhar os tantos avanços tecnológicos e sociais presentes em nosso meio de convívio. Para isso precisamos repensar o funcionamento dos escritórios, e parar para analisar se a sua forma de trabalho está compatível com a cultura da sua empresa.

Dessa forma, vem crescendo também o número de consultorias especializadas no desenvolvimento de projetos que, quando adequadamente calibrados, podem influenciar na satisfação dos profissionais, com o objetivo de proporcionar melhores condições aos ambientes de trabalho. E isso por meio da definição de estratégias do espaço físico, como, por exemplo, análise dos mobiliários e fluxos, adequação da iluminação, escolha das cores de forma estratégia, avaliação da acústica, análise ergonômica e definição da climatização apropriada, entre outras propostas, trabalhadas conforme as necessidades de cada usuário e atividade.  

Nesta entrevista exclusiva, Priscilla Bencke, da Qualidade Corporativa (www.qualidadecorporativa.com.br), consultoria do Rio Grande do Sul e uma das mais atuantes nessas áreas, fala sobre o tema. Arquiteta, pós-graduada em Arquitetura de Interiores, Priscilla se especializou em Projetos para Ambientes de Trabalho na escola alemã Mensch&Büro Akademie. Única profissional no Brasil com a certificação “Quality Office Consultant”. Palestrante em empresas e instituições de ensino e colunista em revistas e portais da internet, atua também no comando da Bencke Arquitetura, aplica os conceitos da Neuroarquitetura desde o projeto até a execução, tendo como clientes empresas que buscam a produtividade por meio da oferta ampliada do bem-estar e da qualidade de vida aos seus funcionários. Confira!

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Siderurgia Brasil: Priscilla, para começo de conversa, explica pra gente o que Neuroarquitetura?

Priscilla Bencke: Neuroarquitetura é um termo popular para o estudo da aplicação da Neurociência à Arquitetura, algo muito novo no Brasil, mas que em outros países, como nos Estados Unidos, exemplo, vem sendo desenvolvido há mais de 15 anos. Assim, podemos dizer que é um estudo que une duas ciências: a Neurociência com a Arquitetura. A primeira é, basicamente, o estudo do comportamento humano, e a segunda é o estudo dos ambientes, do meio físico em que vivemos. Assim, quando juntamos as duas, chegamos às justificativas de como o meio ambiente impacta o cérebro das pessoas e o comportamento delas. Então, é uma análise bem racional, bem biológica, cujas conclusões vêm, basicamente, de pesquisas científicas para comprovar esse impacto.

Como, exatamente, acontece esse impacto?

Principalmente, a partir dos nossos cinco sentidos, embora, hoje, já existam pesquisas que mostram que temos muito mais do que cinco. Todos eles nos permitem captar informações do meio externo, que passam para o nosso cérebro e geram determinadas emoções e, a partir daí, um comportamento. Assim, por exemplo, tudo aquilo que a gente enxerga – como cores e a luz – vai nos impactar. O mesmo acontece com os cheiros no ambiente de trabalho, que estimulam o nosso olfato, as texturas, como as de uma mesa ou dos elementos de decoração, que geram reações em nosso tato, e por aí vai. Então, tudo que afeta o nosso corpo físico é capaz de gerar esse tipo de reações.

Porém, as pessoas não são iguais. Assim, uma cor que impacta e gera reações positivas no seu cérebro, pode não ter o mesmo efeito no meu, não é mesmo?

É verdade, tudo depende das nossas referências com relação a esses estímulos. Então, a gente tem que tomar muito cuidado em personalizar as coisas. Por isso, em qualquer definição de projeto arquitetônico a gente procura identificar como são aquelas pessoas que vão ocupar o ambiente sob o viés da Neuroarquitetura, quais são as percepções delas com relação a cores ou a cheiros. Então, é preciso muito cuidado ao fazer essa personalização. Para isso, eu posso utilizar como base algumas pesquisas neurocientíficas já realizadas, que usam referências conseguidas por meio de ressonância magnética, por exemplo, nas quais são mostradas cores para os indivíduos e se detectam as áreas do cérebro que são ativadas. A partir desses estudos, podemos entender de que forma a maioria das pessoas responde a esses impulsos. Por exemplo, essas pesquisas apontam que a cor azul consegue imprimir mais foco e maior concentração na média das pessoas, enquanto que a cor amarela e laranja estimulam a comunicação. Só que isso é meio um padrão, que serve apenas como uma espécie de guia, mas que não descarta um estudo mais detalhados do universo de pessoas específico com as quais a gente está trabalhando num determinado projeto.

Em outras palavras, apesar do vasto material de referência científica que têm à disposição, os neuroarquitetos precisam fazer um estudo, digamos, customizado para cada projeto que executam.

Exatamente. A gente vai lá, conversa com as pessoas e faz uma imersão, um diagnóstico específico nessa empresa em particular. Tudo depende muito da cultura da empresa, do tipo de pessoas que nela trabalham, do departamento em que uma determinada equipe trabalha e assim por diante. Assim, entendendo qual o tipo de ambiente o objetivo dele, a gente pode criar todo um cenário capaz de favorecer a conquista desse objetivo específico com a Neuroarquitetura, bem como o comportamento que a gente quer as pessoas tenham nesse ambiente.

Num ambiente de atendimento a clientes, como uma loja ou até mesmo um estande de uma feira, por exemplo, qual seria uma boa fórmula?

Bem, em primeiro lugar, você teria que observar qual é o perfil dos clientes que visitam essa instalação, e, a partir daí, escolher os elementos de Neuroarquitetura que você precisa privilegiar. Há algum tempo, fizemos um projeto de uma loja para uma empresa que vende tratores, como se sabe, bens com valores muito altos. Então, a ideia era que as pessoas que entrassem ficassem ali por muito tempo, se sentido bastante confortáveis para negociar. Para isso, criamos um ambiente sensorial favorável, com elementos que lembrassem e remetesse o meio natural deles. Ou seja, o campo. Então, trabalhamos tanto com fragrâncias que lembravam o meio rural, como o cheiro de mato, quanto com elementos visuais, como imagens de uma fazenda… Assim, quanto mais os clientes se sentissem “em casa”, mais favoráveis seriam suas emoções para fechar a compra. E tem muitas outras coisas legais nessa história, com os quais você pode trabalhar. Num ambiente desses – ou mesmo num departamento de uma empresa –, se você quer que a pessoa permaneça focada ou por mais tempo, é melhor utilizar um pé direito baixo, porque o pé direito alto tende a torná-la mais dispersa, uma vez que ela vai ter muito mais informações visuais. Então, se você quer que o cliente ou funcionário fique mais focado e perceba mais os detalhes de um produto ou se concentre no trabalho, o melhor é baixar o pé direito.

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E quanto às cores? Além do azul, que você já mencionou para gerar concentração, quais são as mais indicadas num escritório de uma usina siderúrgica, por exemplo?

Quando a gente fala em bem-estar, em se sentir bem dentro de um ambiente, a experiencia mostra que os tons que remetem à natureza – como os terrosos, os amadeirados e os esverdeados, por exemplo – tendem a nos deixar mais confortáveis e até mais produtivos, porque o ser humano vem da natureza. E, além das cores, a própria presença de elementos naturais, como plantas, paredes revestidas com madeira, imagens de água e por aí vai estimulam o nosso sentido da visão, proporcionando até sensações de satisfação semelhantes àquelas que são quimicamente produzidas nos nossos cérebros, quando praticamos atividades físicas, por exemplo. Tudo isso nos deixa mais confortáveis, tranquilos e relaxados para realizarmos o nosso trabalho.

Isso em termos genéricos, não é mesmo? Ou seja, algo que acontece com todo e qualquer ser humano.

Isso mesmo. E o mais legal é que isso vale para todo mundo, independentemente de cultura. Mas é interessante observar que numa pesquisa realizada pela Human Spaces, uma instituição inglesa que estuda os impactos do design de um espaço no comportamento das pessoas, colocou o Brasil no topo da lista dos países que mais valorizam o contato com a natureza.

E a questão da ergonomia, como entra nessa história toda?

O importante é criar um ambiente que promova o equilíbrio, ou seja, que facilite às pessoas a possibilidade de não ficar todo tempo sentado – por exemplo, diante da tela de um computador –, como também não todo o tempo de pé. A proporção ideal seria a gente permanecer 60% do tempo sentado, 30% de pé e 10% em movimento. Para isso, você pode criar diversas estratégias no ambiente de trabalho, como colocar uma mesa mais alta, na qual as pessoas possam trabalhar confortavelmente de pé, além de associar a ele algumas soluções arquitetônicas como um espaço para o café, bem como criar programas e até espaços para a prática de ginástica laboral, a fim de que elas não fiquem todo o tempo na mesma posição. Proporcionar esse dinamismo nos escritórios é também um dos pontos que a gente mais se atém na criação de projetos de Neuroarquitetura.

OK! Mas como é que podem ser mensurados os resultados de um bom projeto de Neuroarquitetura?

Medir o aumento de produtividade é algo que exige o estudo de diversos fatores. O que fazemos normalmente depois do projeto instalado são as chamadas “Avaliações de Pós-ocupação”, para constatar a eficácia daquele diagnóstico inicial, medindo, por exemplo, a evolução e possível diminuição dos níveis de estresse das pessoas, bem como dos casos de afastamento do trabalho por problemas de saúde. Tudo isso, digamos, entra nesse cálculo. Assim, logo depois da implantação, o neuroarquiteto vai até a empresa para ver quais são as respostas das pessoas a esse novo ambiente, e repete essa avaliação também depois de alguns meses, que é quando conseguimos perceber o impacto mais fiel, fazendo uma nova pesquisa de diagnóstico. Nessa etapa, trabalhamos ainda com uma psicóloga, que faz uma análise de biofeedback, por meio da qual é possível medir as respostas fisiológicas do tipo “antes e depois”.

Hoje em dia, o aço e o vidro estão sendo cada vez mais utilizados nas construções. Qual a relação desses materiais com a Neuroarquitetura?

Embora não me lembre de nenhuma pesquisa específica sobre isso, na minha percepção a partir dos nossos projetos, vejo que temos sempre que visar ao equilíbrio no uso de qualquer matéria-prima. O uso do aço traz muito dessa modernidade, dessa dinâmica contemporânea, o que é muito bacana, pois desperta um sentimento positivo nas pessoas, principalmente em empresas que valorizam o aspecto da tecnologia, criando, digamos, referências que têm a ver com o trabalho que as pessoas desenvolvem ali. Mas, do ponto de vista da Neuroarquitetura, e dentro da proposta de equilíbrio, é sempre importante combinar o uso dessas matérias-primas com o uso daquelas soluções mais naturais que mencionei aí atrás. Nesse aspecto, o acesso, ou melhor, a luz natural tem um papel muito importante, porque o ser humano tem que ter o contato visual com a luz do sol, sempre que possível. Nosso cérebro produz uma série de substâncias químicas que regulam a nossa disposição, o nosso nível de foco e de concentração e até o nosso sono. Então, se no ambiente de trabalho você coloca as pessoas numa sala sem janelas, sem iluminação natural, isso pode ser prejudicial à saúde delas. Isso afeta o relógio biológico dessas pessoas, o que pode provocar consequências fisiológicas não muito boas, uma vez que ao não enxergarem a luz do sol, elas deixarão de produzir certas substâncias químicas que precisam para desempenhar suas funções. Nesse sentido, existem muitas pesquisas hoje em dia que avaliam a utilização de iluminação artificial para suprir a carência da luz do sol nos ambientes de trabalho, criando uma espécie de simulação da luz natural, a fim de ajudar as pessoas a manter o ritmo circadiano.

E todo escritório de empresa pode, virtualmente, se adequar ao padrão “Google”, tão famoso atualmente? Poucas empresas na atualidade geram tanto encantamento quanto o Google quando o assunto é gestão de pessoas e ambientes de escritório.

Pois é. Gosto muito da palavra “coerência”. Não adianta a gente ter um projeto e sair aplicando esse mesmo modelo para todos os escritórios. Voltando ao que eu disse no começo desta entrevista, a gente tem que investigar naquelas entrevistas iniciais de diagnóstico se esse modelo é coerente com as pessoas que vão ocupar esse ambiente, com o tipo de atividade que elas vão executar e, ainda, se é coerente com a própria cultura da empresa, para a gente tomar essas decisões de projeto. Então, não existe uma regra geral: você tem que considerar todas as variáveis do diagnóstico, porque você está tratando com empresas donas de culturas diferentes e, sobretudo, de pessoas, que têm percepções diferentes também.