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Um novo jeito de dar as cartas nos mercados emergentes

A nova edição do “Barômetro Coface” indica que o último trimestre foi marcado por um contínuo aumento dos preços do petróleo e pelas saídas de capital dos mercados emergentes, alimentando a depreciação de suas moedas. Essa tendência começou num contexto de dinâmica muito positiva na economia dos Estados Unidos, mas também aportaram riscos para diversos setores das economias emergentes, como é o caso do Brasil.

Marcus Frediani

abertura economia

No começo do mês de outubro, saiu a mais nova edição do Country and Sectors Risks Barometer da seguradora de créditos francesa Coface – o “Barômetro Coface Q3 2018” –, trazendo dados preocupantes, como o que dá conta de que o terceiro trimestre de 2018 foi marcado por um contínuo aumento dos preços do petróleo e pelas fugas de capital dos mercados emergentes, alimentando a depreciação de suas moedas.

O agravamento das crises cambiais na Argentina e na Turquia nos últimos meses – que levaram a Coface a rebaixar as avaliações de seus países no segundo trimestre do ano – são casos emblemáticos. Essa tendência começou em um contexto de dinâmica muito positiva na economia dos Estados Unidos (crescimento de mais de 4% no segundo trimestre, com confiança empresarial em seu nível mais alto em 14 anos), o que surpreendeu tanto os participantes do mercado quanto o Federal Reserve dos Estados Unidos, levando o último a apertar sua política monetária mais rapidamente do que o esperado.

Como o “Barômetro Coface” do segundo trimestre de 2018 já havia assinalado, vulnerabilidades específicas para países emergentes também explicam essa tendência. As economias argentina e turca são conhecidas por seus grandes desequilíbrios externos e, portanto, sua dependência de financiamento externo. Grande parte da dívida pública e privada desses países é, efetivamente, em moeda estrangeira. Tanto na Argentina quanto na Turquia, a aceleração na depreciação de suas moedas nos últimos meses foi agravada por vários fatores.

Coface pesquisa

Para a Argentina, a decisão do presidente Mauricio Macri, em 29 de agosto, de solicitar ao FMI a liberação antecipada de recursos do empréstimo de US$ 50 bilhões concedido pela organização financeira internacional por meio de acordo assinado no início do mês de junho de 2018, preocupou os operadores do peso argentino. Isso teve o efeito contraproducente, criando pânico na economia argentina, que já estava em crise, com uma taxa de inflação média anual esperada de 30% para este ano. Após esse anúncio, o peso argentino subiu cerca de 13% em um dia e o banco central daquele país foi forçado a aumentar sua taxa básica em 1.500 pontos-base, para chegar a 60% ao ano. Esse rápido aperto das condições de crédito deverá empurrar a economia argentina para a recessão em 2018 (-2,4%, após + 2,9% em 2017). A deterioração contínua da economia do país é refletida nas avaliações setoriais da COFACE, com o rebaixamento de seis dos 13 setores. Nesta fase, a maioria das avaliações setoriais do país são classificadas como “Alto Risco” ou “Muito Alto Risco”.

O case turco

Um elemento catalisador relativo à Turquia foi o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de sanções contra o país, materializadas pela duplicação das tarifas alfandegárias sobre as importações de metais turcos para 50%, e para 20% para o aço e o alumínio, em um cenário de agravamento de tensões entre os dois países. Além das dificuldades para o setor metalúrgico turco, as tensas relações do país com os Estados Unidos, sem qualquer perspectiva de conciliação no horizonte, provavelmente aumentaram a desconfiança dos investidores em relação à lira turca, cujo valor caiu de 3,77 por dólar americano, no final de 2017, para 7,21 por dólar americano, em 13 de agosto de 2018.

A intervenção do Banco Central turco para aumentar sua taxa de juros básica em 625 pontos base no início de setembro confirmou o aumento desta em 11,25% desde o último mês de abril, no mesmo cenário em que foi feito o anúncio de um programa de médio prazo pelas autoridades turcas para reduzir a fragilidade de sua economia, incorporando um grande plano de redução de gastos de quase 2% do PIB para seu orçamento de 2019, o poderia ajudar a reduzir o intensidade da crise.

Problemas emergentes

Em relação aos outros grandes países emergentes – África do Sul, Brasil e Índia, rebaixados de A4 para B em termos de grau de risco no segundo trimestre de 2018 – e a Indonésia parecem ser os mais vulneráveis ao risco de saída de capitais. Eles compartilham algumas características semelhantes com as economias turca e argentina, como mercados de capital domésticos desenvolvidos e líquidos, déficits em conta corrente, e um contexto político que pode alimentar a desconfiança dos investidores com as eleições até o final do ano ou em 2019.

No entanto, os riscos de contágio nesses países são limitados por dois fatores. Primeiro, as economias da Índia, da Indonésia, da África do Sul e do Brasil são muito menos dolarizadas do que as economias turca e argentina. Em outras palavras, um declínio acentuado nas moedas locais teria um menor efeito de transmissão nas economias locais. Por exemplo, a parcela da dívida pública em moedas estrangeiras é inferior a 10% na África do Sul, no Brasil e na Índia, enquanto é próxima de 70% na Argentina. Em segundo lugar, esses países se beneficiam de altos níveis de reservas cambiais em geral. Por exemplo, a proporção de reservas cambiais do Brasil para a necessidade de financiamento externo em 2019 foi de 200%, em comparação com 50% na Argentina.

Melhorias no risco

Além desses grandes países emergentes, alguns menores devem ser monitorados no contexto de alta volatilidade dos fluxos globais de capital. Assim, depois de ter diminuído a avaliação do país no Sri Lanka em junho, no terceiro trimestre de 2018 a COFACE está fazendo o mesmo com o Paquistão (de C a D), bem como com a Nicarágua (de C para D), devido à crise política. No entanto, nem todos os países emergentes estão assistindo um aumento nos riscos: as avaliações de risco país estão melhorando na Europa Central e nos países da Comunidade de Estados Independentes, como ilustrado pelas reclassificações da Eslováquia (de A3 para A2), da Croácia (de B para A4) e da Armênia (de D a C). A melhoria no risco emergente dos negócios também é visível por meio de mudanças nas avaliações setoriais da COFACE, como os transportes no México, em parte devido a negociações comerciais bem-sucedidas com os Estados Unidos. Finalmente, no contexto do aumento dos preços do petróleo, há uma evolução em muitos países exportadores, particularmente os do Conselho de Cooperação do Golfo.

Além das economias emergentes, as incertezas sobre os termos do Brexit estão se tornando cada vez mais pronunciadas, e continuam pesando sobre a economia britânica. Além disso, a condução das negociações orçamentárias do governo italiano com as instituições europeias até o final do ano e a implementação ou não dos programas econômicos apresentados pela Liga e pelo Movimento “Five-Star” durante a campanha eleitoral, também deverão criar desconfiança nos mercados de capitais. Ao mesmo tempo, as medidas protecionistas dos Estados Unidos, cujos efeitos diretos são limitados nesse estágio, continuam preocupando empresas cuja confiança está se desgastando na Europa Ocidental e na Ásia.

Box: Protecionismo nos EUA: ainda um problema sério

O número de medidas protecionistas em vigor em todo o mundo é 2,5 vezes maior do que em 2010. Na maioria das economias avançadas – como os Estados Unidos, a Europa Ocidental, o Japão, o Canadá e a Austrália – e em muitos dos principais países emergentes (Brasil, Argentina e Índia), a proporção de importações afetadas por medidas protecionistas é maior do que a das importações que se beneficiam de medidas favoráveis. No entanto, vários países do Sudeste Asiático (como Vietnã, Filipinas e Camboja), bem como a Rússia e vários países da América Latina (incluindo México, Colômbia e Peru) não seguem essa tendência.

Entre as medidas protecionistas destaca-se o aumento dos direitos aduaneiros sobre as importações. Embora ainda sejam um pouco menos utilizados do que outros instrumentos, seu uso dobrou no período de noves anos (16% do total de medidas utilizadas até setembro de 2018, comparados a 8% em 2009). Como esperado, a aceleração das tarifas de importação nos Estados Unidos tem sido particularmente notável entre 2016 e 2018, período durante o qual elas cresceram de 5,4% para 12,5%. Esse período reflete o ponto de inflexão nas políticas comerciais do país, após a eleição de Donald Trump. Ao mesmo tempo, com o aumento contínuo do número de acordos comerciais regionais, a redução das barreiras comerciais é atualmente o instrumento mais utilizado para promover as redes de livre comércio e as cadeias produtivas multinacionais.

Exportações dificultadas

O incremento do protecionismo global, desencadeado pelo recente aumento das tarifas alfandegárias nos Estados Unidos, é motivo de preocupação porque muitos dos países que participam das cadeias produtivas são afetados pelos efeitos em cascata. Além dos efeitos diretos, a COFACE identificou impactos negativos indiretos dos aumentos tarifários nas exportações de valor agregado de 12 setores comerciais em 63 países. Um aumento de um ponto percentual nas barreiras tarifárias dos Estados Unidos em um país específico leva a um decréscimo de 0,46% do valor acrescentado das exportações de um país parceiro para o país para o qual as taxas alfandegárias são atribuídas, em igualdade de condições. Quando esta estimativa é limitada aos setores manufatureiros, a queda salta para 0,6%.

“Os efeitos indiretos sobre as exportações de valor agregado dos parceiros que mantêm operações com países que são alvo das tarifas dos Estados Unidos são significativos, embora, como esperado, são menores do que os impactos diretos”, afirma Julien Marcilly, economista-chefe da COFACE. “Isso pode ser explicado pelo fato de que os países parceiros podem redirecionar algumas de suas exportações para outros países fornecedores dos Estados Unidos não são afetados por barreiras tarifárias. Isso permite aos países parceiros mitigar o efeito de contágio de bens intermediários exportados por eles”, complementa o executivo.

Os impactos indiretos são particularmente frequentes no setor de transporte – incluindo a indústria automotiva –, uma vez que é uma cadeia de produção multinacional complexa. Se as tarifas dos Estados Unidos no setor de transporte forem aumentadas em um ponto percentual para um determinado país, pode haver uma redução média de 4,4% nas exportações de valor agregado de um país parceiro para o país em questão. Por exemplo, a Alemanha, o Japão os Estados Unidos são os três países mais afetados pelos efeitos indiretos das barreiras tarifárias estado-unidenses nas exportações de automóveis chineses.

Os setores de máquinas, mineração e papel-madeira também são afetados, com elasticidades de 3,1%, -3,1% e -2,4%, respectivamente. Em relação ao setor de eletrônicos (-1,4%), Vietnã, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Tailândia serão as principais vítimas dos efeitos indiretos das tarifas dos Estados Unidos sobre as exportações de telefones chineses. Por outro lado, os impactos indiretos são menores para produtos alimentícios e relativamente insignificantes para metais, produtos químicos e produtos agrícolas.