Guia_2019

SB_Mkt_Geral




Questão de ordem

Reformas estruturais e investimentos em infraestrutura são essenciais para a revitalização da indústria siderúrgica e da economia brasileira.

Marcus Frediani

abertura congressodoaco

Com o objetivo de promover a análise e o debate de temas de grande relevância para a indústria do aço no Brasil e no mundo, em sua 29ª edição, o Congresso Aço Brasil – o maior evento nacional da cadeia produtiva do aço –, reuniu perto de 500 participantes, entre representantes da indústria do aço e da cadeia metal-mecânica, órgãos públicos, parlamentares, consultorias, bancos, academia, organismos internacionais e Imprensa.

Realizado pelo Instituto Aço Brasil entre os dias 21 e 22 de agosto, no Hotel Transamérica, em São Paulo/SP, o encontro também congregou renomados palestrantes nacionais e internacionais. Uma conferência sobre o cenário político, com foco nos possíveis cenários que virão como desdobramento das eleições 2018 foi um dos grandes destaques da programação, assim como também foram as participações das personalidades convidadas, que se revezaram em painéis para tratar das questões relacionadas à indústria brasileira e mundial do aço.

Na ocasião, diante da proximidade das eleições que seriam realizadas em outubro, bem como das expectativas sobre as políticas a serem adotadas pelo novo governo, a indústria do aço considerou importante debater os problemas que levaram ao encolhimento da economia brasileira nos últimos anos e à queda da participação da indústria no PIB, buscando soluções para melhorar o ambiente de negócios no país.

Por esse motivo, o novo presidente do Conselho do Instituto Aço Brasil, Sergio Leite de Andrade – empossado na sessão de abertura do Congresso, juntamente com seu novo vice, Marcos Faraco Wahrhaftig –, afirmou que a entidade está bastante confiante no crescimento e desenvolvimento no Brasil nos próximos anos. Mas, alertou que, para que isso possa se transformar em realidade, algumas providências essenciais precisam ser tomadas. Nessa toada, fez um apelo muito especial ao presidente da República, Michel Temer, que marcou presença no primeiro dia do encontro, para que não haja abertura unilateral do mercado brasileiro em um mundo cada vez mais protecionista.

“Sei das preocupações do setor e reafirmo que temos que proteger nossa indústria”, respondeu Temer em seu pronunciamento, no qual ressaltou também a importância da indústria do aço na economia brasileira e ressaltou a retomada do setor, que passou por momentos difíceis nos últimos anos. “No ano passado, estive presente neste mesmo evento, quando víamos que o setor siderúrgico passava por um momento crítico. Hoje, constato com alegria um crescimento de produção e vendas do aço para os mercados nacional e internacional”, destacou.

congressodoaco temer

Em linha com Temer, o ministro da pasta da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), Marcos Jorge de Lima, que também prestigiou a abertura do Congresso Aço Brasil, sublinhou que uma série de medidas que estão sendo tomadas pelo governo em parceria com as entidades ligadas à indústria do aço, entre elas o Instituto Aço Brasil, para garantir isonomia no mercado nacional. “Destaque nesse sentido foi o esforço conjunto das empresas, entidades e embaixada brasileiras em Washington para evitar que os Estados Unidos sobretaxassem os produtos brasileiros, assim como fez com os chineses e de vários outros países”, pontuou, enfatizando o ponto de vista de que não existe país forte sem uma indústria forte.

Para tanto, José Ricardo Roriz, na condição de presidente em exercício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), fez questão de observar, na sequência do pronunciamento do ministro do MDIC, que o Brasil precisa oferecer isonomia no ambiente de negócios às empresas brasileiras, para que possam competir com as de outros países. Segundo ele, essa falta de isonomia se reflete nos componentes do “Custo Brasil”, que juntamente com a valorização cambial encarecem o produto nacional em relação ao importado em 30,4%. “Durante esse período em que procuramos ter competitividade, nossas indústrias devem ter algum tipo de proteção, para se desenvolver e crescer, gerar emprego e renda e resolver o principal problema, que é a falta de investimento”, afirmou Roriz.

Dados do setor

Com efeito, no Congresso Aço Brasil 2018 foi feita uma avaliação geral do atual setor siderúrgico no Brasil. Segundo Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil, os indicadores de atividade da indústria do aço referente aos primeiros sete meses de 2018 apontaram a continuação da trajetória de recuperação moderada do setor. “A fraca base de comparação de 2017 continua ampliando o crescimento em 2018. A greve dos caminhoneiros, que afetou fortemente a atividade da indústria do aço em maio deste ano, continua influenciando negativamente os dados do acumulado do ano”, ressaltou o executivo.

No cômputo parcial, a produção brasileira de aço bruto alcançou 20,2 milhões de toneladas no acumulado de janeiro a julho de 2018, o que representa um incremento de 3,4% frente ao mesmo período do ano anterior. A produção de laminados no mesmo período foi de 13,6 milhões de toneladas, aumento de 6,2% em relação a 2017. A produção de semiacabados para vendas foi de 5,6 milhões de toneladas no acumulado de 2018, um aumento de 5,1% na mesma base de comparação. “Devido a uma perda que ocorre durante o processo produtivo do aço, a soma da produção de laminados e semiacabados para vendas não equivale ao total da produção de aço bruto”, observou Marco Polo.

No mesmo período, os dados do Aço Brasil deram conta de que as vendas internas foram de 10,5 milhões de toneladas, o que representou uma benfazeja elevação de 10,3% quando comparada com igual período do ano anterior. Já o consumo aparente nacional de produtos siderúrgicos foi de 11,9 milhões de toneladas de janeiro a julho de 2018, o que representa uma alta de 9,7% frente aos primeiros sete meses de 2017.

Enquanto isso, de acordo com os dados do Instituto, as importações alcançaram 1,5 milhão de toneladas no acumulado de janeiro a julho de 2018, aumentando 4,3% frente ao mesmo período do ano anterior. Em valor, as importações atingiram US$ 1,6 bilhão, uma alta de 23,7% no mesmo período de comparação. “Já as exportações foram de 7,9 milhões de toneladas e US$ 4,9 bilhões nos sete primeiros meses do presente ano. Esses valores representam, respectivamente, queda de 6,0% e aumento de 15,7% na comparação com o mesmo período de 2017”, complementou o presidente executivo do Aço Brasil.

congressodoaco sergioleiteemarcopolo

Assimetrias competitivas

Nos dois dias de trabalho do Congresso Aço Brasil, alguns pontos ficaram mais do que evidentes para que a indústria brasileira do aço volte a ter o vigor que apresentou num passado não muito distante. Entre eles, mereceu especial destaque, por exemplo, a reativação dos investimentos em infraestrutura e na construção civil requer segurança jurídica e linhas de crédito próximas ao padrão internacional, além de menor volatilidade cambial para o planejamento de longo prazo.

Nesse sentido, ficou claro para os congressistas que fatores estruturais e sistêmicos não resolvidos ao longo de muitos anos – alguns, inclusive, exibindo quadro de agravamento – afetam sobremaneira os custos de produção no país, reduzindo a competitividade das empresas brasileiras. Entre eles, nada de muito novo, como a carga tributária elevada e cumulativa que incide sobre o setor, além de spreads bancários entre os maiores do mundo e gargalos de infraestrutura. Isso, sem falar na recente greve dos caminhoneiros que paralisou o país e onerou ainda mais a indústria devido ao aumento do preço dos fretes e à redução substancial e intempestiva do Reintegra.

Foi consenso também entre os representantes de setores da indústria presentes ao evento que, dado o cenário atual de guerra no mercado internacional, fica ainda mais incongruente proposta de abertura comercial unilateral do Brasil, defendida por um grupo de economistas. Esse quadro, aliás, só tende a se agravar face ao aumento significativo do protecionismo no mundo em 2018, sendo o aço o produto mais afetado, seja por elevação de tarifas de importação, salvaguardas ou subsídios dados por governos para sustentar empresas que não sobreviveriam em uma economia de mercado.

Em relação a este último ponto, foi objeto de grande atenção no Congresso a divulgação de um estudo comprovando que a China não pratica economia de mercado no que se refere à indústria do aço. Naquele país, a maior parte das empresas é controlada pelo governo (central ou provincial) e recebem subsídios públicos. Ainda assim, possuem elevado nível de endividamento. Em outras palavras, a conclusão reafirmada durante o evento é que sem que sejam realizadas as devidas correções nas assimetrias competitivas existentes no país (e não nas empresas), haverá aumento substancial das importações, causadas pelo desvio de comércio e aceleração ainda maior do processo de desindustrialização do Brasil, com perda de renda e de empregos.

“A indústria é a mola propulsora do desenvolvimento de um país. Todos os países com maior nível de renda fortaleceram a sua indústria para que ela pudesse sustentar a geração de renda e a consequente expansão de serviços e bem-estar social. O Brasil não pode prescindir de sua indústria e tampouco os brasileiros de seus empregos”, deixou o recado o novo presidente do Conselho do Instituto Aço Brasil, Sergio Leite.

Investir é preciso

congressodoaco painel

Ao longo dos dois dias do Congresso Aço Brasil 2018, ficou bastante claro que o crescimento do Brasil depende da retomada dos investimentos em infraestrutura e das reformas que o país tanto precisa. O assunto foi tratado com especial destaque no painel “Infraestrutura – Destravando o Crescimento Econômico”, coordenado por Benjamin M. Baptista Filho, conselheiro do Aço Brasil e presidente da ArcelorMittal Brasil, que contou com a participação de José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC); Paul Procee, líder do Programa de Infraestrutura e Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial e co-autor do estudo “Back to Planning: How to Close Brazil’s Infrastructure Gap in Times of Austerity”; e Eliana Taniguti, diretora da E8 Inteligência.

Nele, os participantes ressaltaram a necessidade dos projetos no setor para destravar o crescimento, reforçando o consenso entre os representantes da indústria de que o investimento em infraestrutura fará o país voltar a crescer. “Para que isso aconteça, é preciso que um país invista pelo menos 5% do seu Produto Interno Bruto nesse tipo de obras. E o Brasil tem injetado atualmente menos de 2% do PIB no segmento, enquanto a Colômbia mantém um mínimo de 4% e a China, pelo menos 7% anuais”, ressaltou Procee. “Para crescer, um país precisa investir pelo menos 5% do seu PIB em obras de infraestrutura. E o mais grave é que ainda não foram criadas as condições para que o investimento voltasse ao Brasil. Projetos há, mas eles precisam sair do papel”, pontuou, a seu turno, José Carlos Martins, da CBIC.

Na ocasião, a E8 Inteligência, também apresentou um estudo inédito feito pela consultoria a pedido do Instituto Aço Brasil, no qual foram analisadas 54 obras do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do governo federal. “Os sistemas previstos no PPI de óleo e gás, ferrovias, aeroportos, portos e rodovias têm potencial de consumo de 8,4 milhões de toneladas de aço, gerando impactos relevantes para a indústria do aço e a cadeia subsequente”, revelou a coordenadora do estudo, Eliana Taniguti.

De grande relevância na programação do encontro, foi, ainda, a realização do painel sobre “Sustentabilidade”, que trouxe nova visão sobre o aço como nutriente tecnológico e prestador de serviços, além dos desafios da indústria para uma economia de menor uso de carbono. Ainda acerca do tema, o Instituto Aço Brasil aproveitou o Congresso para fazer o lançamento do seu Relatório de Sustentabilidade 2018, o mais versátil e totalmente responsivo do setor, realizado pelo conselheiro do Instituto e diretor presidente da Aperam South America, Frederico Ayres Lima, trazendo os dados dos três principais pilares da sustentabilidade: o econômico, o social e o ambiental. “Fomos pioneiros em produzir uma publicação como esta no Brasil, que é realizada a cada dois anos. Hoje, diversas outras indústrias já seguem o nosso exemplo”, lembrou Ayres Lima, em painel que debateu o tema da sustentabilidade na siderurgia com Peter Levi, analista de tecnologia de energia da Agência Internacional de Energia, e com o professor Michael Braungart, CEO da Environmental Protection and Encouragement Agency (EPEA).

O que vem por aí

Realizado no último dia do Congresso Aço Brasil, em São Paulo, uma discussão sobre os principais desafios que a indústria do aço encontra hoje. Participaram do debate os CEO’s da Gerdau, Gustavo Werneck; da Ternium, Marcelo Chara; e Jefferson de Paula, da ArcelorMittal Aços Longos para as Américas Central, do Sul e Caribe, todos também conselheiros do Instituto Aço Brasil.

Todos eles concordaram que a inovação é, ao mesmo tempo, um grande desafio e uma enorme oportunidade para as empresas continuarem a ganhar competitividade. “A partir de 2020, viveremos a era pós-digital, o que implica no fortalecimento de pilares que já empregamos hoje, como a difusão de tecnologia e o uso de inteligência artificial, dados e analytics. Utilizamos novas maneiras de trabalhar e novos comportamentos, como o uso de uma metodologia ágil, foco no cliente e interação com o ecossistema tecnológico”, pontuou Werneck, da Gerdau, em sua participação. “Temos certeza de que o Brasil tem um potencial enorme e que a recuperação é possível se trabalharmos em conjunto”, destacou, por sua vez, Chara, da Ternium. “Acreditamos no aço, na empresa e no Brasil. Mesmo com a crise que houve no mercado nos últimos anos, continuamos investindo mais de R$ 1 bilhão por ano no país”, enfatizou, a seu turno, Jefferson de Paula, da ArcelorMittal.

Na oportunidade, o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, lembrou que o setor está saindo de uma das piores crises da sua história, que levou o setor a uma queda de 30% em vendas internas e no consumo entre 2013 e 2017. “O ano de 2018 começou bem, mas foi impactado pela greve dos caminhoneiros em maio. Mesmo assim, a expectativa é de crescimento”, sublinhou Lopes, deixando para discussão a questão: o que o setor precisa fazer para voltar a operar acima de 80% de sua capacidade instalada? “Atualmente, sua utilização está em 68%”, finalizou Lopes.