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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Apesar dos números positivos registrados na atividade do primeiro semestre de 2018, a situação do mercado siderúrgico brasileiro permanece delicada e inspirando cuidados.

Marcus Frediani

Melhorou, mas continua ruim. Assim, no jargão popular e de forma não muito técnica, podem ser definidos os resultados da indústria brasileira do aço no primeiro semestre de 2018. Os percentuais de crescimento do período até foram positivos, mas apenas porque a base de comparação em termos de desempenho com o mesmo intervalo do ano passado era fraca. “A base dos seis primeiros meses de 2017 é tremendamente deprimida, de modo que devemos relativizar este crescimento”, pontuou o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, durante a Coletiva de Imprensa promovida pela entidade no dia 25 de julho, em São Paulo.

Em resumo, as vendas internas foram de 8,8 milhões de toneladas de aço nos primeiros seis meses de 2018, o que representou um crescimento comparado de 9,9%. O consumo aparente atingiu 10,1 milhões de toneladas (+9,3%), sustentado pelo crescimento das vendas internas. A produção brasileira do aço foi de 17,2 milhões de toneladas (+2,9%). Já as exportações somaram 6,9 milhões de toneladas, cravando um recuo de 5,7% em relação ao resultado obtido no primeiro semestre de 2017. E as importações aumentaram 5,6% na mesma época, totalizando 1,3 milhões de toneladas.

Como não poderia deixar de ser, apesar dos números positivos, a greve dos caminhoneiros, em maio passado, contaminou parte do crescimento da indústria do aço em 2018 tanto no que diz respeito às vendas domésticas, quanto às exportações, via preferencial na qual as usinas apostam para tentar elevar a utilização de sua capacidade instalada, ainda longe da meta almejada pela indústria. “O setor opera atualmente em 68,3% da capacidade, sendo que o ideal seria 80%”, registrou Marco Polo. “Contudo, não vemos perspectiva de crescimento da economia e do consumo aparente de aço que nos faça retomarmos a ocupação da indústria para esse patamar nos próximos quatro ou cinco anos”, destacou, por sua vez, o outro componente da mesa da Coletiva de Imprensa, Sergio Leite de Andrade, Sergio Leite de Andrade, CEO da Usiminas e futuro presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil, a partir do final de agosto.

De acordo com ambos os executivos, essa dinâmica faz parte de uma equação perversa que tem em um de seus lados o recorrente excesso de capacidade de 550 milhões de toneladas de aço no mundo, dos quais 280 milhões vêm da China. E, ainda pode não ser surpresa que esse potencial venha a ser desaguado no Brasil, caso o país mantenha seu mercado mais aberto.

Já sobre os preços praticados no mercado interno, segundo o Instituto Aço Brasil, os ajustes recentes ocorreram pela grande diferença da inflação geral do país nos últimos anos e os valores praticados pela indústria. "Pela crise recente, criou-se uma barriga entre os preços do aço e a inflação. O que há agora é uma retomada", afirmou Marco Polo.

PROFUSÃO DE SALVAGUARDAS

Naturalmente, esse quadro ficou ainda mais nebuloso a partir do início do mês de março, com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump de estabelecer tarifa de 25% para o aço importado e, posteriormente, negociar cotas de exportação para o aço de alguns países, entre os quais o Brasil, no âmbito da Seção 232, sob o argumento de que as importações de aço constituem “ameaça à segurança” dos Estados Unidos. Tal medida impactou as projeções do Aço Brasil para o ano, considerando o fechamento de outros mercados na esteira da decisão americana.

E tal quadro está se agravando ainda mais, porque o que os Estados Unidos fizeram acabou “puxando” uma fila. “É importante registrar que não são só norte-americanos adotaram políticas de salvaguarda para seus mercados. Estas estão ‘pipocando’ ao redor do planeta, como estão sendo os casos das barreiras e taxações à importação de aço que passaram a ser levantadas pela União Europeia, Marrocos, Turquia, Índia, Vietnã, Tailândia, Malásia, Indonésia, Filipinas, África do Sul e Costa Rica. Entre os continentes, só o Cone Sul ainda não as adotou”, ressaltou Sergio Leite.

“Aliás, face à ausência de barreiras comerciais à entrada do aço estrangeiro em nossa parte do globo, a grande pergunta é: O Brasil pode continuar a ser liberal em um mundo protecionista?”, instigou Sergio Leite. Como base para reflexão ele destacou o fato de que de janeiro a junho deste ano as exportações de aço brasileiro caíram 5,7% na comparação com o mesmo período do ano anterior, chegando a 6,9 milhões de toneladas. Por outro lado, houve um aumento de 16% no valor total desses embarques em dólar, atingindo US$ 4,29 bilhões. “Por agora, as importações estão baixas em função do real depreciado, mas pode haver um surto se o câmbio mudar. O cenário está muito indefinido”, deixou o alerta.

PERSPECTIVAS TÍMIDAS

Embora os resultados do primeiro semestre de 2018 divulgados pelo Instituto Aço Brasil tenham sido positivos, todos foram revisados para baixo em relação às expectativas no início do ano, diante da não retomada do crescimento econômico como esperado. As previsões da entidade para indústria brasileira do aço em 2018 são de aumento das vendas internas de aço em 5% em 2018, totalizando volume de 17,7 milhões de toneladas, enquanto o consumo aparente de aço deve subir 4,9% este ano. Para a produção de aço, a projeção de crescimento foi cortada pela metade: se antes era de 8,6%, atualmente é de 4,3%, para 35,8 milhões de toneladas. Contudo, o efeito deletério deverá ser mais sentido nas exportações. A expectativa anterior, divulgada em abril, era de crescimento de 10,7%. Agora, a estimativa da entidade é de queda de 0,6%, para 15,3 milhões de toneladas.

Complementarmente, os dados do Instituto Aço Brasil demonstram que os principais mercados consumidores do aço no país ainda registram queda em relação a 2013, ano considerado recorde da indústria nacional. A construção civil, responsável por 38,1% do consumo aparente no País, está com retração de 29,7% na sua produção de janeiro a maio de 2018 na comparação com 2013. Mesmo o setor automotivo, que apresentou números fortes de crescimento até a greve dos caminhoneiros, ainda está 32,5% atrás de 2013 nos volumes do período. “A crise afetou todos os segmentos, com queda do PIB e aumento do custo Brasil. Construção civil, automotivo e máquinas e equipamentos já reduziram as suas projeções para este ano, então não vamos ter uma retomada como a esperada”, lamentou Marco Polo de Mello Lopes.

CENÁRIO PÓS-ELEIÇÕES

Cabe destacar que todos os países que alcançaram bom nível de desenvolvimento econômico e social, tiveram a indústria como mola propulsora do seu crescimento. No Brasil, vem ocorrendo exatamente o oposto: a indústria de transformação vem perdendo, de forma significativa, ao longo dos anos, participação no PIB. “A indústria brasileira do aço espera que, estando a três meses das eleições para a Presidência da República, este seja um tema prioritário na agenda de todos os candidatos”, registrou o presidente do Aço Brasil.

Na verdade, de uma forma geral, os executivos do setor siderúrgico deixam claramente transparecer um acentuado nível de decepção quanto às políticas liberais adotadas pelo governo atual, muitas delas marcadas muito mais pelo viés ideológico do que pelo eminentemente técnico. Com isso, crescem naturalmente as expectativas dos empresários em torno do cenário eleitoral, assim como as esperanças de que o ambiente de negócios se torne mais propício para a atividade da indústria. Objetivamente, na leitura de Marco Polo e Sergio Leite, os candidatos à Presidência que apresentam plataformas mais alvissareiras nesse sentido são Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Álvaro Dias (Pode), na contramão das resistências já postuladas nos programas de governo de Ciro Gomes (PDT) e de Marina Silva (Rede).

Com relação às políticas para proteger a indústria nacional, Marco Polo citou nominalmente Alckmin e Bolsonaro como aqueles em que o setor mais deposita expectativas. “O Alckmin tem preparo pelas gestões no governo de São Paulo. E, apesar do apoio de economistas que defendem uma abertura como a atual, ele tem uma equipe preocupada com a correção das assimetrias. Já o Bolsonaro tem uma postura mais nacionalista, buscando a preservação do mercado interno”, finalizou.