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PREPARADO PARA A LUTA

Protecionismo global, defesa comercial, assimetrias competitivas, conteúdo local, compensação dos resíduos tributários: Sergio Leite alinha os principais tópicos do que deve ser sua gestão como novo presidente do Conselho do Aço Brasil.

Marcus Frediani

Em agosto, no primeiro dia do Congresso Aço Brasil 2018, Sergio Leite de Andrade, CEO da Usiminas, vai assumir a Presidência do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil. A expectativa, é claro, é de que ele dê continuidade ao excelente trabalho da gestão anterior, que foi capitaneada pelo vice-presidente sênior do Grupo Vallourec para a América do Sul, Alexandre de Campos Lyra, que continua a integrar o Conselho como um de seus 16 membros. Administrador brilhante, Sergio, contudo, deverá imprimir sua forte marca pessoal no novo cargo.

SB129 futuro sergio leite usiminas

Nesta entrevista, Sergio Leite fala com exclusividade para a revista Siderurgia Brasil a respeito de como irá conduzir esses trabalhos, dentro de uma dinâmica de planos e metas voltada ao fortalecimento da indústria e de toda a cadeia siderúrgica nacional, o que, naturalmente, deve contemplar o enfrentamento de grandes desafios, principalmente em função dos atuais desdobramentos e empecilhos que o setor atravessa não só no Brasil, como no mundo inteiro. Confira!

Siderurgia Brasil: Sergio, qual a dinâmica que se deve observar no mercado siderúrgico brasileiro em 2018?

Sergio Leite: Este ano, nós já vivenciamos quatro momentos. No primeiro trimestre, havia uma perspectiva concreta de um crescimento do PIB na ordem de 3% e do crescimento da demanda do consumo aparente de aço em torno de 10%. O segundo momento foi em abril, no qual começamos a perceber uma desaceleração do ritmo de crescimento do país e do consumo de aço. Aí, veio o terceiro momento, em maio e junho, com a crise dos caminhoneiros e seus impactos, no qual o caos e um pessimismo se instalou no Brasil. Agora, no momento que começamos a vivenciar em julho, registramos uma melhora do humor no campo econômico, embora já saibamos que o nosso PIB deve crescer apenas algo de 1%, e que a perspectiva do consumo aparente do aço foi revista e deve ficar apenas em torno de 5%. Então, vamos ter, sim, crescimento da economia e do consumo de aço, mas muito aquém daquilo que nós esperávamos e do que o Brasil precisa.

Uma trajetória perversa, aliás, que vem de muito tempo, não é mesmo?

Pois é. Na verdade, o país completa o quinto ano de uma situação bastante delicada, para não dizer catastrófica. Nós enfrentamos no período 2014-2016 uma recessão das maiores que o Brasil já atravessou, e, em 2017 e 2018, um crescimento pífio. Quando você olha o movimento de queda do consumo aparente de aço de 2013 a 2018, ela já está na ordem de quase 30%. O melhor ano de vendas de aço no país foi em 2013, 20 anos após do outro pico semelhante, que aconteceu em 1993. Então, precisamos que o Brasil volte a crescer, e dentro desse crescimento, a indústria tem que voltar a ter prioridade.

Como será a sua gestão na Presidência do Conselho do Instituto Aço Brasil? Qual será a sua “pegada” pessoal no que tange à condução dos temas que hoje fazem parte da pauta da indústria siderúrgica nacional?

No Instituto Aço Brasil temos um colegiado, que trabalha sempre de forma sintonizada, com um CEO, que é o Marco Polo de Mello Lopes, e um Conselho, que passarei a presidir, formado por 16 membros. Então, na minha gestão, procurarei dar continuidade ao trabalho que vem sendo realizado. No momento atual, com um cenário de excesso de capacidade instalada no mundo, de mais de meio bilhão de toneladas, convivendo com uma situação de protecionismo mundial, temos que ficar atentos a algumas questões primordiais. Veja bem, o mercado brasileiro do aço tem viés liberal, e nós somos a favor do liberalismo. Contudo, somos a favor, também, das relações de comércio equilibradas, isonômicas, portanto somos contra o protecionismo. Ou seja, não podemos ser liberais num mundo protecionista. Precisamos agir em consonância com essa realidade.

E isso pode significar o quê? O levantamento de salvaguardas, como tem acontecido em vários países e regiões do planeta?

O Brasil deveria seguir o exemplo do mundo inteiro e implantar salvaguardas, principalmente no sentido de reduzir ou até mesmo eliminar as assimetrias de competitividade que atrapalham a evolução do nosso mercado, que, como eu já disse, convive com uma situação delicada há cinco anos. Então, nosso posicionamento é bem claro no sentido de trabalhar para que a indústria volte a ser tratada como prioridade de governo. A indústria de transformação que, no final dos anos 1990, representava mais de 25% de participação no PIB brasileiro, hoje está apenas num patamar próximo a 10%. Então, é extremamente importante trazermos de volta essa prioridade, porque, além de fornecedora de bens de grande relevância para a sociedade, ela é forte geradora de empregos de qualidade. Nesse contexto, nós vamos trabalhar em ações de incremento das exportações e de preservação do mercado interno. Atualmente, a utilização de nossa capacidade instalada de produção está abaixo de 70%, quando o ideal seria estarmos num patamar de acima de 85%. Então, esse é um ponto em que vamos trabalhar com intensidade.

E a questão da compensação dos resíduos tributários, via Reintegra?

Seguramente, esse será outro foco importante que vai merecer a nossa atenção. Embora os técnicos do Ministério da Fazenda considerem o Reintegra um subsídio, ele é, na verdade, uma compensação dos resíduos tributários que precisa ser feita ao longo de toda a cadeia produtiva. O valor ideal seria o valor do Reintegra ser de 5% a 7% do valor das exportações, ou até mais 2% acima disso. Só que com a crise dos caminhoneiros, após a desastrada negociação, o Reintegra veio para 0,1%, ou seja, praticamente nada. Infelizmente, para 2018, isso está perdido. Essa, então, é outra bandeira que nós vamos trabalhar para que, no ano que vem, para a gente trazer de volta o Reintegra para um patamar mais favorável à indústria. Independentemente de quem for o vitorioso nas eleições de outubro, vamos realizar um esforço de articulação, de aproximação e de negociação com o governo brasileiro.

E, pelo que vem sendo manifestado nas campanhas, como você sente o grau de sensibilidade dos principais candidatos e o clima político para a aceitação dessas propostas?

No governo atual, temos um apoio muito forte do Ministério da Indústria e do Comércio Exterior e Serviços, que sempre se posicionou ao lado da indústria e, muito particularmente, ao lado da indústria do aço, o que infelizmente não se observa no Ministério da Fazenda e em outros ministérios. O MDIC nos apoiou em episódios que foram marcantes, como a questão do antidumping que nós abrimos contra a Rússia e a China. O relatório foi aprovado e foi um trabalho muito bem feito, só que a aplicação das sobretaxas foi suspensa. Então, não temos muito mais a esperar do atual governo. Claro, convivemos com uma incerteza de como tudo isso será conduzido a partir de 1º de janeiro de 2019, mas a nossa expectativa no Instituto Aço Brasil é de que o próximo governo priorize a indústria, priorize o crescimento econômico, e seja sensível ao posicionar nosso país dentro do viés que hoje impera no mundo.

Ou seja, vocês procurarão dar ainda mais atenção a questão das já citadas assimetrias competitivas.

Esse será, também, um foco importante do nosso trabalho, no qual vamos nos concentrar fortemente. Hoje, o Brasil é um país que exporta imposto e, ao competir com outros países, como, por exemplo, a China – que não é uma economia de mercado e não remunera adequadamente a sua mão de obra e nem o capital –, enfrenta, de maneira acachapante, essas assimetrias na concorrência pelo mercado internacional. Já vimos trabalhando nisso ao longo dos últimos anos, mas esse é um ponto que precisa ser enfatizado com muito mais força.

Com relação a isso, o tema da defesa comercial continuará a ser prioritário, principalmente no sentido de enfatizar uma distinção clara entre questões técnicas e políticas?

Sem dúvida. Defesa comercial engloba temas essencialmente técnicos, regidos pela Organização Mundial do Comércio, e não temas políticos. E, ao contrário disso, no Brasil as questões de defesa comercial foram politizadas nas decisões da CAMEX. Além disso, vamos trabalhar também fortemente pela retomada dos investimentos na economia, e aí eu destaco a construção civil, a infraestrutura – que vive, atualmente, um momento de caos – e o setor automotivo, que, felizmente, está se recuperando e deve apresentar crescimento de 12% em 2018.

Num mundo cada vez mais globalizado, como vocês pretendem dar continuidade às tratativas relacionadas ao protecionismo crescente? A questão dos Estados Unidos parece ter sido equacionada a contento, mas podem vir outras “pauladas” por aí, como, já vem sendo o caso dos outros países que já levantaram salvaguardas contra as exportações, não é?

Vamos procurar manter abertos os canais de diálogo e de negociação com todos os países, como fizemos há pouco com os Estados Unidos. Sim, com a ajuda do nosso Ministério das Relações Exteriores, conseguimos evitar a taxação do aço brasileiro que vai para lá, mas ficamos limitados a cotas, o que não é o ideal e reduziu a nossa exportação. Foi o melhor que nós conseguimos, mas vamos continuar nessa discussão, tentando trazer o mundo para o liberalismo econômico. Contudo, temos que convir que o momento hoje é de protecionismo.

E como vocês pretendem estimular o “by Brasil”?

Bem, se o “by America” é um sucesso, temos que estimular e focar também o “by Brasil”. Nesse sentido, já temos um movimento que é o “Produz Brasil”, que integra uma coalizão de diversas entidades, como as federações da indústria de São Paulo, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, além de entidades como a ABITAM, ABIMAQ e ABINE, que vem trabalhando conosco, no sentido de priorizar a produção no Brasil e evidentemente o consumo, por meio da valorização do produto nacional. Vamos intensificar esse trabalho também, incluindo nele a defesa do conteúdo local.

Nesse âmbito, como vocês pretendem tratar os reveses que a siderurgia nacional vem sofrendo, por exemplo, com o setor de Óleo & Gás?

No Brasil, o setor de Óleo & Gás tinha um posicionamento bem claro e favorável com relação a conteúdo local. O problema é que ele foi reduzido, e mais do que isso, querem estender essa redução a contratos antigos, o que não tem sentido, até porque isso gera uma instabilidade jurídica. Então, estamos trabalhando e continuaremos trabalhando fortemente nesse campo. Precisamos ter um patamar mais sustentável nesse sentido, porque se olharmos a história das grandes economias, os países produtores de petróleo, vamos observar que os países com política de conteúdo local – e aí eu destaco Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Noruega –, têm um posicionamento de IDH, de PIB per capita excelente, ao passo que os países produtores de petróleo que não tem uma política de conteúdo local, como a Venezuela, sofrem com esses índices e vivenciam problemas bastante graves.

Tudo isso, com certeza, fará parte das discussões e debates do Congresso Aço Brasil 2018, que vocês vão realizar agora, no final do mês de agosto. Quais são as suas expectativas em relação a esse evento?

São as melhores possíveis. Teremos um dia e meio de trabalhos intensos, com a realização de diversos painéis nos quais vamos abordar temas de interesse do Brasil e, particularmente, temas de interesse da indústria do aço. Nossa expectativa é de ter, como sempre tivemos, uma presença marcante em termos de público. Trata-se de mais uma oportunidade que teremos para discutir os rumos da indústria nacional. Então, nossa expectativa em relação à realização do Congresso é muito positiva.