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A inovação necessária para a indústria crescer

Os pilares necessários para a indústria voltar a crescer são: capacitação da mão de obra, desenvolvimento de novas tecnologias e revisão da carga tributária incidente.

Moises Bagagi

A indústria nacional tem sofrido muito nas últimas duas décadas, tendo um resultado muito claro de desaceleração. Pode-se dizer que a evolução vista entre os anos de 1950 a 1980 não se repetiu a partir dos anos 1990. Muitos analistas econômicos atribuem isso a abertura comercial, uma vez que a indústria nacional estava defasada em relação às industriais europeias, japonesas e norte americana. Contudo, já estamos caminhando para completar 30 anos que isso ocorreu, e até o momento, lê-se através dos dados que a indústria nacional pouco evoluiu.

Fato é que o Brasil tem vários problemas a serem resolvidos, como a baixa produtividade, falta de investimentos, alta carga tributária e a defasagem tecnológica quando comparado com os Estados Unidos, Europa, Japão, China e Coréia do Sul. Os caminhos para que a indústria brasileira volte a crescer e seja relevante são vários, mas a questão primordial que se deve responder é se a industrial tem chances reais de se recuperar.

Com retrações mensais, ano a ano a indústria brasileira se destaca negativamente na composição das riquezas do país, medido pelo PIB. Isso demonstra que o cenário de desindustrialização está de fato se consolidando. Por isso, é necessário priorizar algumas ações para que seja possível reverter essa situação. Os pilares são: capacitação da mão de obra, desenvolvimento de novas tecnologias e revisão da carga tributária incidente. O resultado esperado destas ações é a retomada do crescimento industrial e a relevância que o setor voltara a ter na composição das riquezas nacionais.

Ao tomar estes três pilares (capacitação, tecnologia e tributação) como bases para a retomada do crescimento, é preciso estabelecer objetivos claros. A capacitação deve estar focada na melhoria da produtividade, uma vez que trabalhadores com maior preparo têm condições de tornar as linhas de produção mais eficazes. A tecnologia necessita de atuação forte em duas frentes, como o investimento em pesquisa e desenvolvimento (onde o produto se destaca) e na renovação do parque industrial (onde a complexidade produtiva se destaca), uma vez que com isso, os produtos oferecidos terão maior valor agregado. E por fim, a revisão tributária deve ter foco na competitividade, sendo um canal para garantir custos menores e incentivos ao desenvolvimento, tanto do mercado interno quanto do mercado externo.

Como faremos isso? Sim, porque é necessário fazer. Fazer com rapidez, foco e consciência da importância dos resultados esperados.

O primeiro passo é a busca por investimentos. O risco de investir na indústria é alto, tanto quanto o de se investir no mercado financeiro. Por isso, a indústria – através dos seus atores – precisa demonstrar que o retorno do investimento produtivo compensa os riscos, e a médio e longo prazo contribuem para uma sociedade mais evoluída, geradora de riquezas e de alta competitividade. Tanto o capital nacional quanto o capital internacional precisam ter garantias de retorno, segurança jurídica e mercadológica, além de expectativa real de retorno. E isso, é trabalho para os gestores industriais e suas representações.

O segundo passo é a melhoria das políticas de financiamentos. Deve-se começar por ações governamentais de incentivo a produção. Se medidas focadas na flexibilização da legislação tributária, trabalhista e regulatório setorial forem adotadas, os atores industriais passam a ter condições de abrirem novas fontes de financiamentos. Subsídios podem ser considerados, mas apenas para alavancar algumas ações no curto prazo. Além disso, o setor financeiro deve ser acionado para que reavalie suas politicas de juros, prazos e garantias. Associar-se à indústria é uma forma de diversificar seus investimentos e mitigar os riscos das suas operações. Por fim, os investidores institucionais (como fundos de pensões e previdência) podem participar ajudando a fomentar o crescimento com aportes de financiamentos, como sócios dos negócios industriais com retornos com baixo risco a médio e longo prazo.

O terceiro passo é o fortalecimento da indústria diante dos seus mercados. No mercado interno, o governo tem atuação fundamental, buscando criar mecanismos de emprego e renda (não apenas de distribuições de favores para aplacar a miséria) e assim, fomentar o consumo. Com maior consumo, aumenta-se o faturamento da indústria, sua relevância, a contratação de mão de obra e tem-se a criação de um ciclo virtuoso de crescimento. Já os players industriais tem sua participação também, com aplicação de investimentos em melhoria do parque industrial, busca por desenvolvimento de tecnologia, melhoria de produtos (foco na produção de bens de alto valor agregado), aumento da produtividade e expansão além das fronteiras nacionais.

É necessário, portanto, que todas as partes direcionem seus esforços para o mesmo objetivo: contribuir para a retomada do crescimento industrial e da relevância econômica que o setor merece, tanto internamente quanto para os mercados externos. Uma indústria forte, que atrai investimentos e com baixo custo de financiamento pode gerar muita riqueza, trazendo desenvolvimento tecnológico, geração de emprego, distribuição de renda e arrecadação para o governo. Colaboração, foco e resultados claros são fundamentais. A indústria tem chance e sim, pode voltar a crescer.

*Moises Bagagi – Economista (Mackenzie) com MBA em Finanças (FIA/USP) e mestrando em Economia e Mercados (Mackenzie). Professor de economia, finanças e controladoria (FIA/USP e UNIESP) e consultor com atuação em grandes empresas nacionais e internacionais.