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“TRUMPADAS” EM SÉRIE
 
Decisão temporária que isenta o aço brasileiro de sobretaxa para entrar em território norte-americano anima o setor siderúrgico brasileiro. Mas o pensamento geral é um só: “Como seria bom se ela se desse em definitivo, principalmente quando o Brasil ensaia uma retomada em sua economia, não é mesmo?”.
 
Marcus Frediani
 
Para a maciça maioria, uma decisão de muito bom senso. Para alguns outros poucos, mais pirracentos, uma “afinada histórica”, embora reconhecida como uma solução estratégica de alto nível. Sem dúvida, a decisão do governo norte-americano de excluir Brasil da cobrança de nova taxa sobre o aço estrangeiro que entra naquele país dá suporte a ambas as interpretações. E cabe ao leitor, tomar – ou não – partido em um dos dois lados.
Vamos aos fatos. Depois de diversos vai-e-vens, ameaças veladas e outras nem tanto, pronunciamentos inflamados sobre soberania do tipo “América para os americanos” e coisas do gênero, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, anunciou oficialmente no dia 8 de março, a resolução de estabelecer alíquota de importação de 25% para produtos siderúrgicos.
Além de mexer no bolso de velhos parceiros e fornecedores das usinas do Tio Sam, a decisão, tomada no âmbito da Seção 232 – medida de segurança nacional que impõe limitações à exportação de aço para os EUA – e respaldada na ameaça à segurança dos EUA, foi considerada pela comunidade internacional uma medida extrema no sentido de proteger a indústria siderúrgica americana e seus trabalhadores.
No Brasil, um desses vetustos partners, o espanto e a apreensão foi geral. “Dada à complementaridade das exportações de suas associadas para os EUA, o Instituto Aço Brasil tinha a expectativa de o Brasil ser excluído da medida, o que não ocorreu”, tornou público em nota a Imprensa a entidade, na sequência do anúncio, informando ainda que, a partir do fato, estudaria com o governo brasileiro a entrada imediata de recurso junto ao governo americano.
No entendimento do Aço Brasil, o bloqueio das exportações brasileiras para o mercado americano – em sua quase totalidade composta de semiacabados, que são reprocessados pelas indústrias siderúrgicas americanas – traria consequências nefastas, ocasionando “dano significativo não só para as nossas empresas, mas também para as americanas que não tem autossuficiência no seu abastecimento”, pontuou o documento distribuído aos jornalistas.
 
NA CASA DOS “FRIENDS”
Ato contínuo, rapidamente uma verdadeira força-tarefa tomou forma no Brasil para discutir o tema com o governo dos Estados Unidos, a fim de convencê-lo a reverter a situação. O enforcement tomou a forma de uma segunda missão da indústria brasileira do aço que seguiu imediatamente a Washington, para dar continuidade às negociações com as autoridades norte-americanas, com o objetivo claro de demovê-las da decisão e excluir o Brasil da abrangência da Seção 232. No contexto, participaram de uma série de reuniões com o Congresso americano e entidades de classe de produtores e consumidores de aço dos EUA diversos representantes pesos-pesados do governo brasileiro, da embaixada brasileira na capital dos Estados Unidos e do board do Instituto Aço Brasil.
O posicionamento oficial brasileiro – legítimo e bastante consistente, como não poderia deixar de ser, diga-se – se baseava no fato de as exportações brasileiras para aquele país serem de semiacabados (80% do total), atendendo a necessidade americana de complementariedade numa longa e sólida relação comercial. Entre os argumentos, alinhavam-se ainda constatações importantes, como o fato de que os EUA são maior destino das exportações brasileiras de aço (foram 32,7% em 2017) e de que o Brasil exportou 15,4 milhões de toneladas em 2017, sendo 5 milhões de toneladas só para aquele país.
Mesmo assim, nessa segunda missão, encerrada no dia 28 de fevereiro – um dia depois de o titular da pasta do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) Marcos Jorge de Lima se encontrar em Washington com Wilbur Ross, secretário de Comércio americano para tratar do assunto –, o Brasil foi surpreendido pela possibilidade de ser enquadrado no grupo de 12 países que teriam as maiores restrições a serem impostas pelos EUA, com tarifas de importação de até 53%. Nem mesmo o anúncio feito naquela data de que o Brasil seria enquadrado na tarifa de importação de aço de 25% corrigia essa distorção, não atendendo o que o Aço Brasil e o governo brasileiro entendiam ser uma relação comercial justa. E, aí, conforme pontuou outro comunicado assinado pelo Instituto, no dia 7 de março – portanto, um dia antes do anúncio oficial de Trump –, o Brasil iria recorrer.
 
 “MÃOZINHA” CAÍDA DO CEO
Continuando a história, no dia 10 de março, três dias depois da manifestação da “Nota à Imprensa” do Instituto Aço Brasil e dois na sequência do anúncio da decisão do governo norte-americano sobre o caso, uma reportagem pelo jornal O Estado de S. Paulo, feita a partir de uma entrevista com o CEO da California Steel, o brasileiro Marcelo Botelho Rodrigues, colocou ainda mais lenha na fogueira, contudo, dando uma “mãozinha” e mais força às argumentações e aspirações verde e amarelas na luta contra a sobretaxa.
Logo no primeiro parágrafo abaixo do bombástico título da matéria – “Sem aço brasileiro, siderúrgica nos Estados Unidos fica inviável” –, Botelho deixou claro e colocou a nu a questão embasbacante de que as siderúrgicas integradas americanas não fabricavam aço semiacabado em volume suficiente para atender à demanda da própria California Steel. Para justificar e dar força à afirmação, ele, de saída, explicou que as tais usinas, localizadas em estados da região leste dos EUA, usam quase toda a produção em sua própria fabricação de aços laminados. E mais: registrou que ainda que existisse oferta, o custo de transporte das placas de aço até a sede da California Steel seria cinco vezes superior ao de trazê-las do Brasil pelo mar.
Em outras palavras, segundo Rodrigues, a imposição da tarifa de 25% sobre a importação de produtos semiacabados iria fatalmente tirar a capacidade de sua companhia de competir com siderúrgicas que adotam outros modelos de negócio, já que nenhuma delas teria de pagar mais pela matéria-prima que utiliza.
Nesse ponto, dando continuidade à argumentação, a reportagem do Estadão abriu espaço para explicar que as grandes siderúrgicas integradas da região leste dos Estados Unidos fazem o aço a partir de minério de ferro e carvão, que não seriam afetados pela barreira. Além disso, revelou que um número crescente de outras usinas usa sucata processada em fornos elétricos. “Intensas usuárias de energia, essas indústrias respondem por dois terços do aço fabricado nos EUA”, pontuou o CEO da California Steel.
Para reforçar seu posicionamento, Marcelo Rodrigues informou ao jornal que, em razão de regulações ambientais, a Califórnia e a costa oeste dos EUA não têm siderúrgicas integradas (que usam altos-fornos) nem as baseadas em fornos elétricos. Assim, deixou claro que transportar por terra o aço que está a cerca de 2.000 km de distância seria economicamente inviável. Complementarmente, isso significaria que a tarifa teria um efeito dominó em setores como construção e infraestrutura daquela região do país, que usam as bobinas de aço da California Steel para fabricar seus produtos finais. Somados à questão da inevitável perda de empregos locais desencadeada indiretamente pela decisão de Trump, esses seriam alguns dos argumentos que Rodrigues iria apresentar mais tarde ao governo americano para pedir a não aplicação da tarifa sobre as importações de aço brasileiro.
 
PAUSA TEMPORÁRIA
E, ao que parece, felizmente, todas essas reações surtiram efeito positivo para que a cobrança da taxa adicional fosse, no mínimo, repensada. No dia 22 de março, o representante de Comércio dos Estados Unidos Robert Lighthizer afirmou, em audiência no Comitê de Finanças do Senado norte-americano, que o Brasil, junto com a Argentina, Austrália, Coreia do Sul, México, Canadá e a Europa, estariam isentos da sobretaxa de 25% no aço, que entraria em vigor no dia seguinte, 23 de março, até que fosse estabelecido um acordo comercial com cada um dos países.
Ou seja, a rigor trata-se, ainda, de uma medida temporária. Lighthizer explicou que o presidente americano Donald Trump entende que alguns países mereciam ser excluídos da cobrança e que a taxa seria “pausada” durante as negociações bilaterais. “A ideia que o presidente tem é baseada no critério, de que alguns países devem ser excluídos. Há países com os quais estamos negociando. O que ele decidiu é pausar a imposição das tarifas com relação a estes países”, declarou ele na ocasião. Vale lembrar que na véspera do anúncio benfazejo, Lighthizer já havia afirmado que os EUA deveriam iniciar conversas com o Brasil em breve sobre a possível isenção das sobretaxas.
Face à ausência de uma decisão oficial sobre o tema, a reação imediata do MDIC foi divulgar uma nota informando que as autoridades norte-americanas estavam “avaliando” a não aplicação das sobretaxas ao Brasil, contrariando a afirmação de Michel Temer na véspera, dando como certa a suspensão da sobretaxa. Mas o documento fez uma ressalva, dizendo que gesto podia ser interpretado como “um sinal positivo por parte governo norte-americano no sentido de evitar a imposição de sobretaxas.”
Por sua vez, ainda no dia 22 de março, mesma data do anúncio de Robert Lighthizer no Senado norte-americano, o Instituto Aço Brasil também se manifestou, considerando a notícia de certa forma auspiciosa, reforçando, entretanto, o fato de ser essa uma exclusão temporária. Ou seja, o país ganhou um mês de isenção, enquanto negocia sua exclusão permanente. “Neste momento, conseguimos um waiver de 30 dias, mas o país continua as negociações com os EUA para exclusão permanente. O presidente Michel Temer, em conjunto com os ministros Marcos Jorge de Lima (MDIC) e Aloysio Nunes Ferreira (MRE), tem nos apoiado intensamente nas conversas com o governo norte americano”, pontuou no comunicado Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil. Agora, é esperar (e torcer) para ver o que acontece até o dia 23 de abril.