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Aperfeiçoamento logístico: a porta de entrada e a maior garantia para o sucesso
 
Leonardo Zenóbio, diretor da Usiminas, fala da evolução do modelo de logística como ferramenta para o engrandecimento do setor siderúrgico.
Marcus Frediani
A competição é inerente ao mundo dos negócios. Por conta disso, as organizações estão sempre buscando se diferenciar de seus concorrentes, investindo cada vez mais na atualização tecnológica de seus parques industriais, notadamente por meio da aquisição de ferramentas, máquinas e matérias-primas de alta qualidade, capazes de garantir a alta qualidade e a durabilidade de seus produtos.
Nessa corrida, sem dúvida alguma, as empresas estão investindo cada vez mais também no aperfeiçoamento de seus modelos de operação, com a introdução de ferramentas e sistemas de logística cada vez mais eficientes e sofisticados. Com isso, logística deixou de ser apenas a movimentação interna ou externa dos materiais produzidos, para ganhar um upgrade de status. Dentro da proposta do Supply Chain Management, ela passou a ser a entrega dos produtos no tempo certo, na quantidade certa, no lugar certo e da maneira correta, trazendo consigo a fidelização dos clientes e, ainda, outro aspecto importantíssimo: a redução de custos.
Por tudo isso, no setor siderúrgico, a manutenção da logística num papel de protagonismo, perfeitamente alinhado ao planejamento de negócios da empresa, é absolutamente fundamental. Entre outros aspectos relevantes – tais como as tendências do setor e os novos desafios que virão a reboque do tão esperado reaquecimento da economia brasileira –, é o que revela Leonardo Zenóbio, diretor executivo de Logística da Usiminas, nesta entrevista exclusiva concedida à revista Siderurgia Brasil. Acompanhe!
 
Siderurgia Brasil: Segundo especialistas, os custos logísticos, hoje, no Brasil, são, no mínimo, o dobro da média dos países desenvolvidos, o que, seguramente, reduz a competitividade de nossas empresas. De que forma isso afeta as atividades da Usiminas, notadamente no que diz respeito à precificação dos produtos?
Leonardo Zenóbio: Os custos logísticos têm se tornado cada vez mais relevantes dentro dos custos e despesas da cadeia do aço no Brasil justamente pela carência de uma infraestrutura logística adequada e integrada entre modais. Isso, é claro, afeta a competitividade dos preços dos produtos brasileiros frente a produtos de países desenvolvidos, que em sua maioria tem o desenvolvimento da infraestrutura logística como política de Estado e não política de governo, o que garante a continuidade dos planos estratégicos ao longo do tempo. Existe também uma consciência que investir em infraestrutura alavanca a economia do país em um primeiro momento e, num segundo momento, alavanca os usuários desse sistema com uma logística mais “limpa e racional”, com uma matriz de custo adequada e competitiva, que reflete na precificação dos produtos.
Face a esses problemas, como vocês operam e conseguem eficientizar os custos do sistema de controle de estoques da companhia, a fim de otimizar a competitividade?
A Usiminas tem como prioridade máxima honrar seus compromissos com os clientes, e nossos estoques de acabados são posicionados de tal forma que garantam o nível de serviço esperado. Tendo isso como premissa, trabalhamos a nossa matriz logística com menor custo possível frente aos desafios logísticos, criando as possibilidades de atendimento logístico, por meio de várias rotas possíveis, definindo as ideais e as alternativas para eventuais necessidades.
E como se dá a movimentação interna dos produtos?
Dentro da usina, a maior parte da nossa movimentação é feita através de recursos ferroviários. Temos uma malha ferroviária extensa em nossas usinas, o que torna os nossos custos competitivos. E o nosso maior desafio internamente é reduzir e otimizar os movimentos dentro das solicitações.
Nas entregas, a Usiminas atua exclusivamente pelo modal rodoviário? Têm frota própria, terceirizada ou mista?
Não. Utilizamos os três modais possíveis e as possíveis integrações entre eles: rodoviário, ferroviário e marítimo. Não temos frotas próprias para o modal rodoviário. Contratamos empresas transportadoras especializadas no transporte de produtos siderúrgicos.
Quais sãos as vantagens e desvantagens da terceirização para vocês?
No Brasil, existem várias empresas transportadoras de produtos siderúrgicos extremamente competentes, focadas em dar competitividade em suas operações, seja por meio de redução de custo operacional, seja pelo desenvolvimento de cargas entre vários clientes, de tal forma que estejam sempre ou em grande parte do tempo carregados quando em movimento nas estradas. Carretas vazias e ou paradas implicam perda de eficiência.
Assumir essa operação, entretanto, não seria mais positivo para a Usiminas?
Não. Não faria sentido para nós assumirmos essa operação. Em primeiro lugar, porque esse não é o nosso core bussiness e, em segundo, porque somos somente uma “perna” dessa viagem. Além disso, dependemos de outros modais também que não estariam sob nossa gestão. A nossa função é trabalhar com parceiros dos três modais, que garantam o nível de atendimento e competitividade adequado com a segurança e a qualidade exigidas.
Como funciona o processo de expedição da Usiminas até chegar ao destino, em termos de fornecimento aos clientes no Brasil?
A Usiminas produz para maioria de seus clientes através de MTO (NE: Manual Técnico Orçamentário, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, que contém instruções técnicas e orçamentárias, principalmente as referentes ao processo de elaboração da Proposta Orçamentária da União das Esferas Fiscal e da Seguridade Social) e faz o transporte de seus produtos até a porta do cliente. A empresa possui a estratégia de atendimento para cada um dos seus clientes. Basicamente, com essa estratégia – após a liberação do material –, confirmamos ou alteramos a rota logística prevista, criando as programações das cargas otimizadas para carregamento dos modais previstos e solicitamos os recursos. Claro que já existe um compromisso de recursos previstos ao longo do tempo em função dos planejamentos definidos previamente. Sem este planejamento praticamente seria impossível buscar a otimização da malha para atendimento.
E nos de exportação, como funciona essa logística?
Da mesma forma. Exceto pelo fato de que o destino final serão os nossos terminais portuários, ou de terceiros, considerando, naturalmente, a nossa necessidade de garantir que o lote integral de produtos a serem carregados no navio esteja no terminal no ato da chegada, pois as multas de espera são altas e relevantes em termos de custo.
Como pode ser considerada, em termos de níveis de ocorrências, a incidência de roubo de carga no negócio de vocês? Como a empresa se previne contra ele?
São relativamente baixas, principalmente em função do trabalho de predição que realizamos. A chave do sucesso é a “Gerenciadora de Riscos”, que em conjunto conosco cria ações mitigadoras para minimizar as possibilidades de roubo de carga, seja por meio do monitoramento, seja por meio do plano de viagem proposto, entre outras ações.
E como funcionam os sistemas de rastreamento dos produtos que vocês utilizam?
A Usiminas consegue identificar em nossos sistemas internos o status do produto, estando ele nos armazéns das usinas, nos centros de distribuição ou em depósitos fechados. O sistema indica também se os produtos estão em trânsito. O rastreamento dos produtos em trânsito é realizado por meio de aplicações específicas disponibilizados para os modais ferroviários e marítimos. Para o modal rodoviário existe uma especificidade: para nós são considerados “rastreados” somente os conjuntos (cavalos e carretas) que possuírem localizador, interface de comunicação com o motorista e sensor de desengate do cavalo/carreta. Já os conjuntos que possuem somente o localizador ou celular são denominados por nós de tele monitorados. Atualmente 50% dos conjuntos que trabalham conosco são rastreados e 50% tele monitorados.
Quais são as principais novidades e tendências em termos de logística e transporte de aço que você enxerga no horizonte e, eventualmente, já se encontram implantadas na Usiminas?
São várias. Entre elas, podemos relacionar as tecnologias que transformam os armazéns convencionais em armazéns autônomos, com baixa interferência humana; o uso de sistemas de rastreamento mais seguros, com custos mais acessíveis, seja nos produtos, seja no ativo em circulação; e o surgimento, no Brasil, de empresas especializadas em logísticas integradoras, com soluções otimizadas de entregas e consolidação de cargas.
Nesse campo, o que deveremos ver em breve especificamente para o setor rodoviário?
Muita coisa também, como o uso de tecnologias de forma massiva para o controle e garantia de cumprimento da legislação de trânsito nas estradas (excesso de velocidade, excesso de peso, entre outras). E a boa notícia é que já existem iniciativas claras do governo nesse sentido. Outra novidade/tendência é a Logística Compartilhada – que sempre foi uma busca, mas limitada pelo alcance entre as empresas/transportadoras –, que, a partir de agora, deixa de ser um limitador por meio do desenvolvimento de aplicativos de consolidação de cargas e recursos para diversos destinos, permitindo, assim, compartilhar efetivamente as viagens ou aproveitar as origens e destinos, evitando que as carretas viajem vazias. Hoje, já existem aplicativos no mercado, mas reconhecemos que eles necessitam ainda ser aprimorados como modelo de negócio. A Usiminas tem avaliado todas estas tendências.
E quais os principais desafios que vêm por aí, em função de um possível reaquecimento da economia nacional? Como vocês estão preparados para vencê-los?
O aquecimento da atividade econômica é sempre uma grande notícia. Mas, claro, com essa retomada, chegam também novos desafios. Especificamente na logística – mas não tão diferentemente do que ocorreu em outros setores –, quando houve a retração econômica, muitos investimentos deixaram de ser realizados e equipamentos foram deixados parados, gerando inclusive perdas tecnológicas. O principal desafio para todos nós agora é saber o quão ágeis todos seremos para que, num pequeno espaço de tempo, possamos adequar o sistema logístico. Isso porque funcionamos como uma engrenagem, e se um setor for a um ritmo diferente dos demais, pode travar toda a máquina. Em função dos níveis de crescimento do nosso mercado, a Usiminas tem se planejado e replanejado periodicamente, de tal forma que possamos antever o que virá, compartilhando tais informações com nossos parceiros, a fim de garantir que todos estejam no mesmo ritmo de retomada e a “máquina não trave”.