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Instituto Aço Brasil divulga os resultados da indústria brasileira do aço no primeiro semestre e deixa claro para quem quiser ouvir: não haverá mesmo retomada do mercado interno em 2017.
Marcus Frediani
Praticamente às vésperas da realização do CONGRESSO AÇOBRASIL 2017, que acontece em Brasília, na segunda quinzena de agosto (Confira a programação do evento no final dessa matéria), o Instituto Aço Brasil (IABr) reuniu a Imprensa no final de julho para dar notícias sobre a atual situação da indústria siderúrgica no Brasil. Mas notícias. Ou melhor, pior impossível. Aliás, mesmo essa última afirmação soa leviana, uma vez que o fundo do poço em que o setor se meteu nos últimos 12 anos parece não ter fundo. Um verdadeiro “tonel das danaides”.
Na prática, o encontro com os jornalistas foi dividido em três partes, cada uma, digamos, contemplando um aspecto diferenciado e sinistro plasmado nessa dinâmica. Durante a primeira, o trio de interlocutores Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Aço Brasil, Alexandre de Campos Lyra, presidente do Conselho Diretor do IABr, e Sergio Leite de Andrade, vice-presidente do mesmo Conselho, consolidou os dados e evolução (?) do setor em 2016, apresentados originalmente à Imprensa e ao mercado em meados de abril deste ano. Aí, já ficou tristemente claro que apelido dado pelo Instituto ao pior período vivenciado pela indústria brasileira do aço – “uma década perdida” – precisa de uma inglória e urgente atualização. Senão vejamos: o primeiro slide da apresentação mostrou que a produção nacional da liga metálica regrediu ao patamar de 2006, igual ao do nosso consumo interno; já as vendas e as exportações entraram no túnel do tempo, e regrediram um pouco mais, ao patamar de 2005. (Veja na tabela “Situação atual da Indústria do Aço no Brasil”).
 
“Alguns segmentos industriais – e não vou citar quais –, por uma razão ou outra convivem ainda com algum nível de atraso tecnológico ou algum grau de obsolescência. Em contrapartida, o setor de aço, que investiu basicamente US$ 25 bilhões de 2008 a 2016, está, hoje, no ‘estado da arte’ no que diz respeito à sua capacidade e modernidade. Só que, apesar disso, vive o que classificamos de sua pior crise da história. Por quê? Bem, pela convergência dos chamados fatores estruturais e conjunturais adversos”, fez questão de enfatizar Marco Polo.
Preocupações na pauta
Com o novo governo Temer, a esperança era de que essa situação fosse revertida. Contudo, ao lado de medidas consideradas na direção certa – entre as quais o estabelecimento de um teto para os gastos públicos, a redução da taxa de juros, a aprovação da Terceirização e da reforma Trabalhista e o encaminhamento das reformas Previdenciária e Tributária –, alguns pontos cruciais permanecem obscuros e/ou intocados no discurso sobre a retomada da economia, em conflito com a realidade, o que causa imensa preocupação ao setor do aço no Brasil. É o caso, por exemplo, da revisão de baixa do PIB, a queda da arrecadação e o aumento de impostos. “Com isso, julgamos que o mercado interno não retomou, não está retomando e não retomará ainda no ano de 2017”, frisou o presidente do IABr.
Além disso, há outros movimentos do governo que despriorizam as metas e o papel da indústria, deixando-a num desconfortável segundo plano. Entre os fatores que ratificam essa tese está a substituição da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) pela Taxa de Longo Prazo (TLP) nos contratos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que, na prática, retira do banco o único instrumento que poderia trazer o grau de apoio ao desenvolvimento industrial do país. Outro é o discurso, cada vez mais ouvido, sobre a liberalização da defesa comercial, que vai na contramão da tendência mundial. E outro, ainda, são as mudanças das regras do Conteúdo Local, sendo a mais grave delas o recente anúncio da Agência Nacional do Petróleo (ANP) de rever tudo aquilo que já havia sido pactuado nas licitações passadas.
Outro ponto controverso é o lançamento do Programa de Parceria de Investimentos (PPI). Criado pelo governo para ampliar e fortalecer a relação entre o Estado e a iniciativa privada, a fim de gerar empregos e crescimento para o país por meio de novos investimentos em projetos de infraestrutura e de desestatização, ele pode vir a ser, no entendimento de Alexandre de Campos Lyra, um tiro de misericórdia na indústria nacional, principalmente a siderúrgica. “O governo vai depender de capital externo para projetos de infraestrutura do PPI. Os chineses vão participar, mas o grande risco é que venham também máquinas, equipamentos e estruturas metálicas. Assim, alguns percentuais mínimo de Conteúdo Local precisam ser mantidos”, asseverou o presidente do Conselho Diretor do IABr, lembrando que, no ano passado, 1,88 milhão de toneladas de aço entraram no Brasil por importação direta, mas 3,4 milhões de toneladas ingressaram por importação indireta, por exemplo, em carros e geladeiras.
Ato contínuo, não é demais relembrar que os setores responsáveis por 80% do consumo de aço no Brasil registraram queda de 10,7% em 2016 frente a 2015. E, quando comparada com o mesmo período de 2013, a queda se acentua para 31,6%. Nesse intervalo, o de Construção Civil despencou 27,2%, o de Bens de Capital 28,9 e o Automotivo 45,3%. o único setor demandante de aço que tem apresentado desempenho positivo é o Automotivo. Por outro lado, Construção Civil, Bens de Capital e Eletrodomésticos continuam reportando quedas. E, quando a gente conversa com cada um desses setores sobre o que eles preveem para 2017, posso antecipar que eles trabalham com perspectivas de tombos ainda maiores”, pontuou Marco Polo.
Ociosidade ainda grande
Durante a entrevista coletiva aos jornalistas realizada no final de julho, o Instituto Aço Brasil também apresentou os dados fechados do setor siderúrgico no primeiro semestre de 2017. Em síntese, de janeiro a junho deste ano, o consumo aparente de aço no período apresentou crescimento de 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado, somando 9,21 milhões de toneladas. Considerando que as vendas internas tiveram nesse mesmo intervalo uma queda de 2% na comparação anual, para 8,052 milhões de toneladas. A alta verificada no consumo aparente foi suprida pelo aumento das importações, que foi de 64,1%. Já a produção no primeiro semestre de 2017 apresentou um crescimento de 12,4%, canalizado basicamente para as exportações, que subiram 9,2%, para 7,3 milhões de toneladas.
Entretanto, é importante destacar que o significativo crescimento das exportações se deve à entrada em operação, no segundo semestre de 2016, da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), focada nas exportações, e ao enorme esforço das demais usinas brasileiras que, por operarem, atualmente, com 40% de ociosidade, aumentaram suas exportações para evitar novos fechamentos de equipamentos e demissões de colaboradores. Malgrado esse esforço e do aumento do faturamento, segundo o IABr, os resultados das exportações não remuneraram minimamente as empresas, devido à não competitividade provocada pelos resíduos tributários, custos financeiros e aumento dos custos de matérias primas para produção de aço. “E se o Brasil não corrigir algumas assimetrias, a situação da indústria siderúrgica deve piorar ainda mais”, ressaltou o presidente da entidade.
O Aço Brasil também destacou o excesso de capacidade global de aço em quase 800 milhões de toneladas, que pressiona ainda mais a situação das siderúrgicas. Marco Polo explicou que o aumento médio dos preços da cesta de insumos do aço, composta por minério de ferro e carvão, foi de cerca de 70% no primeiro semestre. “Enquanto isso, o crescimento médio dos preços do aço ficou em aproximadamente 39%”, referenciou.
Previsões nada animadoras
E os resultados da indústria brasileira do aço no primeiro semestre deste ano reforçam o que já vem sendo alertado pelo Instituto Aço Brasil: não haverá mesmo retomada do mercado interno em 2017. A previsão da entidade é de que a produção brasileira de aço bruto encerre o ano com um crescimento de 3,8% em relação a 2016, totalizando 32,5 milhões de toneladas. Já as vendas internas de produtos siderúrgicos devem ter queda de 1,3%, chegando a 16,3 milhões de toneladas, patamar similar ao de 2005.
Em abril, a entidade já havia reduzido a estimativa de aumento do consumo aparente de aço de 3,6% para elevação de 1,3%. Porém, o fraco desempenho da indústria brasileira, que tem comprometido os resultados das siderúrgicas no país, jogou ainda mais para baixo essa projeção, que, em 2017, que não deverá passar de um acréscimo de pífios 1,1% no comparativo com o ano passado, cifra que elevará o volume do consumo aparente para apenas 18,4 milhões de toneladas.
“O fraco desempenho do mercado interno leva à conclusão de que o aumento das exportações é a única saída no curto prazo para evitar o agravamento da situação da indústria de aço no país. No entanto, para alavancar o nível das exportações é preciso equalizar minimamente a competitividade das empresas brasileiras com seus concorrentes de outros países”, acentuou Marco Polo.
Protecionismo, não. Competitividade, sim
Na avaliação do IABr, o Brasil não é protecionista. “Mas precisamos manter a defesa comercial até que as assimetrias competitivas atuais do aço brasileiro sejam resolvidas. Se elas forem eliminadas no comércio exterior, será possível ter tarifas de importação menores. Nesse âmbito, o Conselho Diretor do Aço Brasil está discutindo a ida de delegação brasileira aos Estados Unidos para tratar com congressistas americanos questões relativas ao protecionismo do país. "Nosso maior mercado de exportação sempre foram os Estados Unidos e, agora, estamos fora. Por isso, a entidade vem buscando um alinhamento com o governo para programar a ida a Washington”, destacou Sergio Leite de Andrade, para quem, também, as exportações representam o único caminho para a manutenção do setor siderúrgico brasileiro na atualidade.
Acerca do tema, Alexandre Lyra corroborou com essa visão: “Nossas exportações representam apenas 3% do consumo aparente dos Estados Unidos, entretanto, para nós, o mercado norte-americano é de extrema importância, uma vez que 36% das exportações de aço do Brasil são destinadas àquele mercado”, pontuou. Segundo ele, o discurso do presidente Donald Trump de que, de uma maneira geral, as importações têm tirado empregos dos trabalhadores estadunidenses não se aplica às exportações feitas pela indústria brasileira, uma vez que o que segue para lá são basicamente produtos semiacabados, como placas e tarugos, que serão laminados ou receberão tratamento em plantas nos EUA.
Nesse âmbito, os dirigentes do Instituto Aço Brasil voltaram a destacar a urgente necessidade de aperfeiçoamento do Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra), que restitui, parcial ou integralmente, o resíduo tributário na cadeia de bens exportados. Atualmente, a alíquota está em 2%, mas a lei permite devolução de até 5% da receita com exportações. "O Reintegra é essencial para a sobrevivência da indústria siderúrgica no curto prazo", complementa Lyra. "Reintegra não é renúncia fiscal. Pelos nossos cálculos, a alíquota de 5% do Reintegra pode resultar em alta de 10% das exportações e no aumento da competitividade da indústria de transformação”, pontuou por sua vez Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Aço Brasil, reforçando o posicionamento do presidente do Conselho Diretor do IABr.