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Não se iluda, caro leitor, colocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento, embora possível, ainda vai demorar um bom tempo. E o ritmo da recuperação, vai, basicamente, depender da velocidade das reformas, quanto mais rápido. Mas, como dizem os sábios, toda trajetória, por mais longa que seja, começa com um primeiro passo.
Marcus Frediani
No cenário da indústria, produtividade e competitividade são duas irmãs gêmeas, siamesas e que, ainda, andam sempre de mãos dadas. O problema é que com o desenho atual da economia brasileira – e, em especial, com o atual perfil da indústria nacional – a tendência é que a produção industrial permaneça estagnada, com sinais cada vez mais claros da falência do atual sistema baseado no baixo índice de inovação e produtividade.
“A atual estrutura está praticamente esgotada. Essa já era uma realidade anterior à crise: a ausência de estrutura produtiva adequada estava tornando a indústria nacional obsoleta e completamente improdutiva”, acentua Juliana Inhasz, professora de Economia da FECAP – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, nesta entrevista exclusiva concedida à revista Siderurgia Brasil. E, entre as soluções plausíveis para dar rumo positivo a esse impasse e reverter tal tendência, Juliana destaca como fundamental a existência de uma mudança no sistema de gestão que vem sendo utilizado na indústria brasileira, tão baseado no trabalho e pouco amparado pela tecnologia e pelo capital. E uma mudança, como se diz no popular, “pra ontem”.
Confira nesta e nas próximas páginas, mais detalhes da ampla visão que, com muita perspicácia, a Profa. Juliana Inhasz lança sobre o atual e intrincado panorama político e econômico brasileiro, bem como (e o que é mais importante), apontando caminhos de saída, que, sem dúvida, não serão fáceis, mas, mais do que nunca, precisam ser trilhados para tirar o país do atoleiro do hiato improdutivo que marca, infelizmente, nossa realidade nos dias de hoje.
Siderurgia Brasil: O desenlace da crise política ainda parece distante. E, independentemente do final do processo envolvendo Michel Temer é muito preocupante no que diz respeito aos rumos do país. Na sua opinião, qual o melhor cenário em termos de solução para o país?
Juliana Inhasz: A crise política tem mudado em sua forma nas últimas semanas, tomando novas configurações. A cada semana vemos novas informações que alteram o cenário político e mudam também os rumos econômicos. Não podemos desprezar a mudança na formação das expectativas, cada vez mais difíceis de se projetar. O afastamento do presidente Michel Temer apresenta, aparentemente, perspectivas positivas frente às possíveis reações do mercado, que deve entender sua saída como uma maneira de concretizar reformas que, sob sua condução, não estão acontecendo, e são entendidas como fundamentais para a recuperação da economia brasileira. No entanto, um novo processo de sucessão presidencial em tão curto espaço de tempo carrega consigo seus traumas, tanto políticos quanto econômicos, que talvez não fossem desejáveis neste momento.
E uma eleição direta?
Uma eleição direta neste momento será custosa, tanto em termos monetários quanto em relação ao tempo em que as reformas ficarão paradas. Além disso, o processo democrático sofrerá danos, na medida em que a sociedade pode não se sentir representada por Rodrigo Maia. E, na realidade, boa parte dos brasileiros mal sabe quem ele realmente é, qual seu cargo atualmente, quais suas orientações políticas etc. Porém, a alternativa de Michel Temer permanecer no poder até o final de 2018 também não garante prosperidade até lá. A legitimidade do presidente tem sido questionada, e já se questiona sua capacidade de conseguir aprovar outras reformas, como a previdenciária (ainda que com texto bem mais brando que o originalmente apresentado). A ausência da base aliada pode tornar a governabilidade cada vez mais cara e, na atual situação fiscal, cada vez mais impraticável, tornando o governo Temer uma agonia que só se encerrará no final de 2018. Economicamente, a sucessão para Rodrigo Maia ou a possibilidade de eleição direta daria ao mercado uma maior solidez nas expectativas de recuperação econômica, com a possibilidade de aprovação de reformas.
Face aos acontecimentos, o brasileiro aparentemente está sem opção de voto. Na sua análise, quais os candidatos possíveis e os viáveis?
Entre os prováveis candidatos para as eleições de 2018, temos com grande probabilidade Lula, Marina Silva, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro figurando entre os principais. Geraldo Alckmin e João Dória devem concorrer com José Serra para representar o PSDB na campanha presidencial, com grande chance para o atual prefeito de São Paulo. Álvaro Dias também parece um candidato em potencial. Antes da condenação de Lula na Lava Jato, um segundo turno entre ele e Bolsonaro era um cenário não muito estranho, e nesse contexto existia um grande favorecimento para a volta de Lula à presidência, com seu discurso populista. A condenação, no entanto, pode mudar bastante o cenário para a eleição. Caso Lula realmente fique inelegível, Ciro Gomes pode ganhar bastante espaço nessa disputa, muito embora ainda acredito que João Dória pode ganhar muita projeção na disputa presidencial nesse cenário de eleição em 2018 sem Lula.
Fala-se muito em descolamento da recessão, associado, entretanto, a um longo e tortuoso caminho de recuperação econômica, cujo principal e nefasto desdobramento é a demora na volta da empregabilidade. O que há de verdade nisso?
O que há de verdade nisso é que, infelizmente, o desemprego é uma variável que demora para reagir em um processo de recuperação econômica. É aquela variável que chega por último na recessão – pois demora para sentir seus efeitos, já que empregadores mantém trabalhadores até que a crise se acentue suficientemente, dados os custos de demissão – e também sai por último, uma vez que, para contratar, os empregadores precisam alocar os recursos que possuem e estão ociosos, e ter certeza de que os trabalhadores a serem contratados terão participação ativa na criação de valor do processo produtivo.
Porém, o que acontece se conseguirmos reverter esse quadro?
Realmente, mesmo que consigamos reverter a recessão em um futuro não muito distante, a economia ainda deve demorar para voltar ao seu nível desejado, pois o emprego não voltará aos padrões esperados de forma imediata. Esse caminho, longo e tortuoso, depende basicamente da velocidade das reformas – quanto mais rápido elas acontecerem, melhor –, da capacidade dos empregadores em perceberem seus efeitos sobre a economia, e das expectativas que eles criam sobre esses efeitos ao longo do tempo. Esse ponto é importantíssimo: não adianta o governo dar sinais quaisquer de que a economia vai se recuperar para estimular o emprego. Os sinais não podem ser vazios, sem fundamento. Eles precisam ser sólidos, e nesse aspecto precisam ser factíveis, fazer a sociedade perceber que as medidas tomadas realmente se reverterão em melhorias de médio e longo prazo na sociedade. Justamente por isso, medidas puramente expansionistas (focadas exclusivamente em ajustes de gastos e impostos) não são suficientes para garantir tais impactos. É essencial que aconteçam mudanças que afetem a produtividade da economia, através da redução da taxa de juros, por exemplo.
Apesar de muitos economistas afirmarem que o Brasil ainda é um país viável para os investimentos estrangeiros, a teoria na prática vem mostrando outra coisa. Esse “pé atrás” vai se “diluir” no longo prazo?
O Brasil de fato tem atraído muito investimento externo. O Banco Central, inclusive, tem mostrado que os investimentos americanos subiram bastante do início do ano até agora. Isso acontece basicamente porque o Brasil paga uma taxa de juros real bem elevada, uma vez que a taxa de inflação está em queda, e o país está barato, já que a taxa de câmbio apresentou alta significativa, mostrando desvalorização do Real frente ao Dólar. A questão primordial é que boa parte desse investimento é feita de forma especulativa, sem grande intenção de permanência no país, e com intuito de reversão de lucros. Isso acontece justamente porque existe uma desconfiança quanto à capacidade do país em reverter sua crise política e econômica, e crescer de forma sustentável num futuro não muito distante. As reformas econômicas, junto com o controle da crise política, são essenciais para que esse “pé atrás” se dilua, mostrando que existe sim capacidade de reversão da crise e um controle das incertezas na economia brasileira. Nessa tarefa de incentivar a volta de investimentos mais permanentes e produtivos no país, podem ser interessantes os setores de infraestrutura, construção civil no geral e nos setores subjacentes, bem como em energia.
Face à evolução da dinâmica internacional e aos desenvolvimentos tecnológicos gestados pelas nações mais ricas do planeta, quais os caminhos e/ou áreas de respiro, se é que existem, que ainda sobram para a indústria nacional?
A indústria nacional passa por um momento delicado. Perdemos competitividade frente ao mercado externo porque nossos fatores de produção, como capital e trabalho, não são suficientemente produtivos. Passamos por um movimento de perda de produtividade devido à falta de investimentos, tanto em capital físico, quanto em qualificação e tecnologia, ao mesmo tempo em que fomos deixados pra trás sem cerimônias por economias como a chinesa, que tomou a dianteira no mercado global e tornou-se uma grande exportadora de produtos industrializados. O que nossa indústria precisa fazer, sem dúvidas, é aplicar tempo e recursos em ampliação de capacidade produtiva, através do ganho de produtividade. Isto só será possível através de qualificação adequada do trabalho, disponibilização de recursos para modernização da produção, via tecnologia compatível, e aquisição de capital físico, ou seja, máquinas e equipamentos. Educação e inovação são os grandes caminhos para a indústria nacional. Algumas áreas de respiro podem ser energia e construção civil, além da própria indústria de alimentos, mas não é de se desprezar a necessidade de mudança de gestão para que seja possível aproveitar as oportunidades nessas áreas que foram citadas.
Que tendências você enxerga, hoje, no cenário da indústria nacional, e que mudanças isso vai exigir dos nossos atuais modelos de gestão?
Com o desenho atual da economia brasileira – e, em especial, com o atual perfil da indústria nacional –, a tendência é que a produção industrial permaneça estagnada, com sinais cada vez mais claros da falência deste atual sistema baseado no baixo índice de inovação e produtividade. Para reverter tal tendência, é fundamental que exista uma mudança no sistema de gestão que vem sendo utilizado na indústria brasileira, tão baseado no trabalho e pouco amparado pela tecnologia e pelo capital. É fundamental que se busque a eficiência do processo produtivo através do uso de tecnologia e capital adequados à produção. Somente assim essa tendência de estagnação poderá ser revertida e a indústria nacional poderá retomar seu espaço de destaque na economia brasileira.
Fica claro, então, que esses novos desafios serão grandes. Em função disso, quais os caminhos para aumentar nossa produtividade e nossa competitividade?
A atual estrutura está praticamente esgotada. Essa já era uma realidade anterior à crise: a ausência de estrutura produtiva adequada estava tornando a indústria nacional obsoleta e completamente improdutiva. A qualidade do produto já estava comprometida, a quantidade produzida já não era mais aquela esperada, os preços já não eram mais tão competitivos, frente à qualidade do produto que era entregue. Esse gargalo de crescimento, também explicado pela ausência de infraestrutura adequada, só não se acentuou mais ainda porque a crise inibiu muito a demanda nos últimos dois anos, reduzindo drasticamente o consumo. Esse modo de produção que convivemos desde antes da crise se esgotou, e a recuperação da economia brasileira deverá vir com uma nova forma de tratar a indústria nacional, se esse for o nosso objetivo: crescer junto ao setor industrial. Para tanto, será fundamental elevar a produtividade através da implementação de tecnologia adequada, e de maior nível de educação na produção: quanto maior o capital investido no setor, com máquinas mais modernas e produtivas, e quanto maior for o conhecimento do trabalhador para melhor operar as máquinas que estiverem à sua disposição, maior será a competitividade e a produtividade da indústria nacional, melhor será o produto nacional, quando comparado aos produtos de outras economias.
A economia brasileira tem forte vocação agrícola. Isso pode ser considerado um fato positivo ou uma garantia no sentido de que, ainda que no longo prazo, o Brasil consiga turbinar seu crescimento econômico aos olhos do planeta?
Vale ressaltar que o crescimento por meio da indústria é uma opção importante para países que querem crescer de forma consistente e sustentável, sendo possível inclusive competir com as grandes economias mundiais. Isso não significa que economias baseadas no setor agro, como é o caso da economia brasileira, não possam ter crescimento econômico elevado, mas ficam muito mais suscetível a eventos exógenos – como super safras – e o acréscimo de valor é marginalmente menor do que aquele que acontece em economias industrializadas. Então, economias industrializadas realmente tendem a crescer mais ao longo do tempo por serem mais consistentes. No entanto, não adianta ter uma economia industrial se ela não acompanha o desenvolvimento tecnológico. É fundamental acompanhar o desenvolvimento da tecnologia para que a indústria possa, assim, tornar a economia de um país próspera.