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Aços laminados planos, suas formas e principais características – Pedro Antonio de Souza Teixeira

Siderurgia Brasil — Edição 68

Como adquirir o produto certo para aplicação desejada. Os cuidados em usar aços específicos para cada necessidade.

Pedro Antonio de Souza Teixeira*

O  aço plano é fornecido ao mercado através dos produtores, distribuidores, revendedores e Tradings (quando se trata de aço importado). Seu estágio inicial é a usina produtora que através da capilaridade oferecida pelos distribuidores e revendedores disponibiliza seus produtos ao mercado. Além da questão de custos o consumidor deve levar em consideração no ato da compra às características físicas das instalações de cada fornecedor, ou seja, o seu fornecedor está capacitado a lhe fornecer o produto que irá adequar-se a sua necessidade? Seus equipamentos e sua tecnologia permitem o atendimento diferenciado que você precisa?
Portanto, se a necessidade do consumidor for diferenciada da normalidade, o fornecimento deste seu produto específico deverá ser obtido através de um produtor/beneficiador também diferenciado com consequente interferência no custo final. É essa a preocupação que o consumidor terá que observar quando solicitar ao seu fornecedor, sob pena de adquirir aço fora da especificação necessária para o uso a que se destina.
Os grandes grupos de aços planos oferecidos são:
• LQ - laminados a quente
• LF - laminados a frio
• Chapas Grossas
• Revestidos

Laminados a Quente
São os materiais processados a uma temperatura tal que as deformações (laminação) efetuadas não acarretam endurecimento ao material, como por exemplo, quando deformamos o chumbo (lembre-se dos revestimentos dos gargalos de alguns vinhos) que, à temperatura ambiente, conserva a sua plasticidade sem endurecer. Por ser trabalhado a altas temperaturas a sua superfície e tolerâncias dimensionais são menos exigentes.
Conforme a espessura é definida como chapas grossas (>5 mm) ou tiras a quente, podendo ser fornecidos em bobinas (com limitações) ou em chapas.
Sendo intrinsecamente o mesmo produto, a diferença entre estes dois formatos será determinada somente pela manipulação do material. O volume individual de cada unidade depende do tamanho do produto inicial que foi deformado, podendo chegar até 30 t, permitindo combinações de espessura/largura/comprimento da chapa/bobina resultante.
Já existe no mercado uma empresa que pode processar BQ com até 19 mm de espessura, para corte transversal. No entanto, a grande maioria das instalações disponíveis oferece disponibilidades para até 13 mm de espessura, para cortes transversais ou longitudinais.
A grande vantagem do fornecimento em bobinas está na versatilidade de escolha da largura e/ou comprimento que permitam minimizar a sua perda com conseqüente redução de custo.
Como já mencionado, os LQs tem tolerâncias dimensionais mais amplas e sua aplicação é feita em produtos mais robustos tais como equipamentos de base, construções navais, peças a serem retrabalhadas/usinadas, etc.
As chapas grossas, face as suas amplas dimensões, são normalmente cortadas através de processos de oxicorte ou plasma que permitem a obtenção de formas variadas de contorno, permitindo ampliação de utilizações.
Todo LQ tem em sua superfície uma camada dura e abrasiva de óxido de ferro que, por algum tempo, o protege de oxidação e caso haja necessidade de trabalho na superfície, a remoção deste revestimento poderá ser obtida através de processos, químico (decapagem) ou físico (escovamento ou jateamento) que poderá ser efetuado de forma continua ou estacionaria.

Laminados a Frio
São produtos obtidos a partir de bobinas a quente (BQ) decapadas e que sofreram processos de laminação à temperatura ambiente, ocasionando um encruamento (endurecimento) no material. Para redução desse efeito do endurecimento há necessidade de recozimento do produto resultando a bobina a frio (BF), recuperando a maleabilidade perdida pelo trabalho a frio. Por obter-se um controle muito mais preciso a baixas temperaturas, as características físicas dos laminados a frio (LF) são muito superiores às dos laminados a quente (LQ), não só na forma como também na superfície. Por essa razão sua aplicabilidade será mais nobre, permitindo conformações, como no atendimento às necessidades do setor automobilístico ou de acabamento como a linha branca - eletrodomésticos.
Por serem trabalhados a frio, os esforços de conformações são altos e há limitações nas larguras produzidas.
As bobinas laminadas a frio podem também ser revestidas por elementos que preservem algumas condições de aplicações, desde o retardamento da oxidação, até a não contaminação do produto em contato, como ocorre em envasamentos de produtos químicos/alimentares.
As bobinas laminadas a frio (BF) revestidas são classificadas pelo tipo de revestimento que podem ser zinco (Zn), alumínio (Al), ligas diversas ou pré-pintura, podendo ou não, serem revestidas nas suas duas faces. Para cada aplicação deverá haver um revestimento adequado que permita a melhor utilização do material.
Por ser mais suscetível a oxidação, as BFs são fornecidas com alguma proteção que lhes garantam um prazo de estocagem conveniente.
A oferta dos produtos LQ e LF, pelos produtores, respeita uma faixa de espessuras.
Caso o item a ser produzido permita a utilização dos materiais tais como apresentados, nas espessuras nominais, conforme padrões ofertados pelos produtores, os custos serão os menores possíveis, por consequência.

Chapas grossas
Como primeiro estágio da produção de aços laminados planos, as chapas grossas são materiais menos sofisticados e mais rústicos, com espessuras que acima de 5 mm e que portanto não tem possibilidade de serem bobinadas, com limites mais elevados de tolerância dimensional. Vale lembrar, porém, que a utilização dos aços laminados depende sempre da aplicabilidade de cada tipo de material. As chapas grossas são normalmente utilizadas em equipamentos de base, como a construção naval, indústrias de máquinas, de peças etc.

Revestimentos
Se o aço vai ser submetido a um acabamento, a alguma intempérie ou solicitação maior de resistência de superfície faz-se então um revestimento, que pode ser a base de zinco ou de alumínio – ou com uma liga de zinco e alumínio. Esse revestimento é feito para melhorar a resistência à corrosão. À beira-mar, por exemplo, é mais conveniente fazer o revestimento com alumínio do que com zinco. E dependendo de cada caso, faz-se um revestimento mais ou menos intenso, com uma dosagem maior ou menor de zinco ou alumínio por metro quadrado. No caso dos laminados a frios, também é possível produzir chapas pré-pintadas.
O material laminado a frio é mais suscetível a uma oxidação e, portanto, é necessário tratar a superfície para ter um revestimento adequado. Se o revestimento for feito sobre uma superfície contaminada, ele não adere. Nos laminados a frio, normalmente são usados óleo protetores para evitar a oxidação, que inclusive podem ser voláteis, ou seja, óleos que se volatilizam quando se abre a embalagem, o que evita o processo de desengraxe.

Beneficiamento
A atividade siderúrgica disponibiliza ao mercado produtos que normalmente necessitam serem retrabalhados, para adequação em sua utilização. Para tanto, existem os centros de serviços de beneficiamento de aços planos, que tem a função de realizarem este trabalho para o usuário final.
O consumidor poderá utilizar-se de beneficiadores externos para os serviços de corte e adequação das matérias-primas necessárias à sua atividade.
Caso a aquisição de tais produtos não seja possível diretamente dos produtores, a rede de distribuidores normalmente tem condições de suprir qualquer necessidade exigida.
A oferta de serviços de corte transversal e aplanamento, corte longitudinal, decapagem, conformação de perfis, telhas e tubos, relaminação e recozimento, revestimento, oxicorte e plasma em toda gama de espessuras e larguras ofertadas pelos centros de serviços e distribuidores estão à disposição do mercado, permitindo análise ampla, visando a obtenção das melhores opções de custos.
Tanto os produtores quanto os distribuidores, dispõe de profissionais capacitados a orientar os usuários quanto à correta especificação do produto que melhor atenderá a cada necessidade, o que redundará no melhor custo benefício de cada trabalho.
Cabe ao consumidor especificar adequadamente sua necessidade para obter a melhor escolha de material e de serviço o que certamente terá fundamental influência no custo de aquisição. Uma especificação inadequada redunda na maioria das vezes, um incremento de retrabalho ao material encarecendo-o.
Lembro-me bem de um cliente que exigia que suas chapas de 0,30 mm de espessura por 3 metros fossem entregues colocadas em prateleira situada no fundo de sua fábrica que tinha acesso por um corredor de 75 metros no qual passava uma pessoa por vez, ou seja, para o fornecimento das 10 t mensais que consumia, o veiculo de entrega normalmente necessitava de dois dias com quatro pessoas (desde que o motorista ajudasse), ocasionando um custo de logística desproporcional ao fornecedor. Todas essas necessidades devem ser ajustadas entre as partes envolvidas.
A exigência no excesso de limitação nas tolerâncias dimensionais, superfícies diferenciadas, embalagens e logística distintas e etc. ocasionam diferenciação e consequentemente custos específicos para cada caso.
Quando me refiro a custo, lembro que ele é composto pelo tripé: qualidade, pontualidade e preço.
Para um mercado abastecido como atualmente, onde só se enxerga o preço como diferencial para definição do fornecedor, fica muito difícil o atendimento das exigências plenas do consumidor. Cabe lembrar de que adianta comprar mais em conta se não tenho o produto no prazo e nas especificações exigidas? A assistência técnica que todo consumidor necessita deve estar sempre disponível e a credibilidade, profissionalismo e idoneidade serão indispensáveis para perpetuação do suprimento.
Quando passamos a nos enxergar como consumidores cremos que devemos utilizar a assistência ampla que nosso fornecedor disponibiliza, porque nosso sucesso está diretamente ligado ao dele.

*Pedro Antonio de Souza Teixeira é engenheiro mecânico, com especialização em metalurgia e carreira profissional ligada ao ramo do aço. Foi presidente do Inda durante duas gestões. Comandou o parque industrial e o setor comercial da Inal.