Indústria siderúrgica otimista com recordes no consumo – IABr
Siderurgia Brasil — Edição 65
Ao avaliar os resultados do primeiro semestre de 2010, o Instituto Aço Brasil ressalta a plena retomada do setor siderúrgico nacional.
Depois de uma época conturbada, a siderurgia brasileira se encontra em franca recuperação. O excelente desempenho no primeiro semestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2009, permite previsões bastante positivas para os próximos meses. Esta foi, em síntese, a avaliação do Instituto Aço Brasil (IABr), exposta pelo presidente executivo, Marco Polo Mello Lopes, e André Johannpeter, presidente do Conselho Diretor. Eles apresentaram os números alcançados nestes primeiros seis meses (veja a tabela).

Em todos os setores, o resultado foi animador. O recorde ficou com as importações – 148,4% maiores do que em 2009 –, seguido pelo consumo aparente, com um crescimento de 68,6% em relação ao ano passado. “Efetivamente ocorreu uma retomada muito bem-vinda”, ressalta Marco Polo. “O principal agora é manter a estabilidade ao longo do ano. Esperamos fechar 2010 com uma produção de 33,2 milhões de toneladas de aço bruto, 25% maior do que a de 2009”. Com um total de 16,3 milhões de toneladas, a produção de aço bruto neste primeiro semestre superou em 55% a produção do mesmo período de 2009. Em relação aos laminados, a produção foi 59,5% maior. Isso mostra que as usinas funcionam a pleno vapor. Resultados tão positivos levam o Instituto Aço Brasil a fazer boas previsões para 2010. “Pretendemos encerrar o ano com um recorde histórico”, enfatiza o presidente. “O consumo aparente de produtos siderúrgicos deverá ter um aumento de 34,5% em relação a 2009. Esse crescimento reflete a boa situação da economia nacional e sua influência na demanda dos principais segmentos do aço. Destacam-se o aquecimento da construção civil – tanto na área habitacional como nas obras de infraestrutura – o contínuo crescimento da indústria automotiva (mesmo com a redução dos incentivos tributários) e da produção de bens da linha branca e de consumo”. O setor do aço é um dos poucos que tem folga excedente e, segundo o Instituto Aço Brasil, as siderúrgicas brasileiras estão plenamente capacitadas a produzir mais do que as necessidades do mercado interno. Por que, então, o estouro nas importações? Na avaliação do IABr, vários fatores interferem. Embora demonstre o aquecimento do mercado interno, por outro lado reflete os efeitos do câmbio valorizado, a persistência dos elevados índices de excedentes no mercado internacional, e os subsídios à produção e exportação mantidos por países exportadores, principalmente a China. Somam-se ainda os benefícios estaduais para a redução do ICMS. “Quem sai ganhando é o importador”, observa Marco Polo. Um exemplo dessa situação é o da Transpetro, que, para construir dezenas de navios, barcaças de reboque e outros equipamentos, vai importar a maioria do aço bruto da China, com alíquota zero. “O preço é aviltado no mercado internacional”, aponta o presidente do IABr. “A China vem recebendo uma série de benefícios que fazem com que a competição não seja justa. O câmbio não é flutuante, os impostos são mínimos... com isso, podem jogar o preço no pé.” O Instituto Aço Brasil vai se reunir com as autoridades competentes do governo para discutir o problema, que inclusive se contrapõe às afirmações do presidente Lula, de que as empresas nacionais teriam preferência. “É uma questão conjuntural”, diz Marco Polo, acrescentando que, se persistir a carga tributária que penaliza o Brasil, há o risco de ocorrer a desindustrialização do país. “Podemos perder a competitividade.” No âmbito das exportações, o crescimento ocorreu com menor intensidade. De janeiro a junho de 2010, as vendas alcançaram um total de 4,2 milhões de toneladas – 18,9% a mais que o mesmo período de 2009. O faturamento, em 2010, foi de 2,5 bilhões de dólares, superando em 6,6% o de 2009. Só no mês de junho passado, a exportação de produtos siderúrgicos chegou a 782,1 mil toneladas, no valor de 505,4 milhões de dólares. Na evolução do consumo per capita de produtos siderúrgicos, medida de 1980 a 2009, o Brasil vem “andando de lado”, na avaliação do Instituto Aço Brasil. Enquanto a China passou de 34,1 kg para 405,2 kg por pessoa, e na Coreia do Sul o consumo por pessoa pulou de 160 kg para 936,1 kg, no Brasil esse consumo, que era de 100,6 kg caiu para 97 kg. Mas o Brasil não é o único país em que houve queda. Nos Estados Unidos, por exemplo, o consumo despencou de 376,0 kg para 186,9 kg por pessoa. Quanto ao problema da alta de preço, a posição do Instituto Aço Brasil é clara: “Estamos cansados de sermos vistos durante anos como vilões e usados como alavacandadores de preço”, desabafa Marco Polo. “Mesmo com as mudanças dos preços do minério de ferro, que pesam 50% no orçamento das usinas, as empresas não repassaram – ou repassaram minimamente – esses aumentos para o mercado.” Para exemplificar a questão do preço, o IABr apresenta um estudo feito sobre a diferença de valor do carro Corolla XEI 2.0, em diversos países. Enquanto no Brasil este carro custa R$ 75 mil, nos Estados Unidos é vendido por R$ 32,7 mil; no Chile tem o preço de R$ 41,8. “É uma distorção violenta, causada pela carga absurda de taxas e impostos em nosso país”, comenta Marco Polo. “Essa carga é uma anomalia que afeta o país como um todo, e envolve todos os segmentos da indústria financeira.” O Instituto Aço Brasil está batalhando para superar vários desafios que envolvem a siderurgia nacional. “O primeiro é promover o aumento de consumo doméstico de aço, estagnado há vários anos”, explica o presidente do Conselho Diretor, André Johannpeter. “O setor tem capacidade e qualidade. Mas o aumento do consumo depende dos investimentos, público e privado, e há uma estreita relação entre o consumo de aço e o PIB.” Outra meta é a construção de uma base sustentável para que os investimentos sejam feitos. A competição entre empresas é válida, mas é difícil competir com o governo. Entra aí a questão de medidas governamentais tomadas à revelia da categoria. “É necessário que as regras sejam claras e que haja segurança jurídica”, afirma André Johannpeter. Na opinião do IABr, não faria sentido, e nunca fez, a alíquota zero para a entrada de produtos siderúrgicos, sem que tenham ocorrido situações de excepcionalidade, definidas em regulamento, que justificassem essa medida. O que houve foi pressão dos consumidores, e o governo cedeu. Um grande desafio a ser vencido é a reciprocidade de regras: se há facilidades para o mercado exterior, aqui também deveriam vigorar as mesmas facilidades. Isso leva à questão da isonomia competitiva na importação e na exportação. O Instituto Aço Brasil acentua que os tributos e encargos deixam os setores produtivos brasileiros em desvantagem face aos outros países. É necessário que o Brasil siga o exemplo de países que adotam medidas contra o comércio ilegal, como dumping e subsídios. Entre eles, estão Estados Unidos, Rússia, Egito, Turquia, Irã, Índia, Tailândia, Vietnã. “A siderurgia brasileira se encontra preparada para atender à demanda dos grandes projetos, como os do Pré-Sal e da Copa do Mundo em 2014”, diz Marco Polo. “Estamos acompanhando o processo e à disposição do governo para fornecer os nossos produtos. Basta que os projetos saiam do papel...” Já para a anunciada execução do Trem-Bala, não há interesse do setor. “A CSN há tempos produzia trilhos, mas, por ser antieconômica, essa produção foi desativada”, lembra o presidente. “Várias empresas já analisaram o projeto do Trem-Bala e acharam que não compensa produzir trilhos pela pouca extensão do percurso. Só valeria investir na produção se fosse para reativar a rede ferroviária no país como um todo.” Animado diante do bom desempenho e das perspectivas deste ano, o Instituto Aço Brasil não perde de vista os eternos problemas que continuam a penalizar a siderurgia. A opinião de Marco Polo Mello Lopes é compartilhada por André Johannpeter: “Estamos na expectativa”, resume. “Há anos lutamos por uma reforma tributária, batalhamos por medidas que favoreçam o nosso setor. Temos eleições, temos candidatos. Quem sabe o próximo governo faz algum progresso nesse sentido?” www.acobrasil.org.br
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