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Mineração: da água para o vinho – Pedro Galdi

Siderurgia Brasil — Edição 64

Neste artigo, o autor analisa como foi a evolução do mercado mundial de minério de ferro a partir de 2008.

Pedro Galdi*

Recentemente, percebemos uma grande evolução do setor de minério de ferro no Brasil. As principais empresas brasileiras passaram por momentos de instabilidade muito grande, que deixaram o investidor em dúvida quanto à solidez do setor. Hoje, podemos concluir que, apesar de a atual crise econômica na Europa reduzir a demanda naquele continente, o apetite pelas commodities metálicas continuará em alta, impulsionado pela Ásia.
A atuação das empresas de mineração caminhava com robustez de 2003 até o primeiro semestre de 2008. O expressivo crescimento da economia chinesa elevou a participação na produção siderúrgica mundial de aço de 5%, em 1980, para 23%, em 2003, e, em 2009, para 47% do total. A grandiosidade deste salto significou um aumento da demanda muito forte para as três grandes mineradoras: Vale, BHP e Rio Tinto.
Este cenário favorável, entretanto, foi interrompido no segundo semestre de 2008, quando a crise econômica global se instalou e trouxe uma forte retração na atividade industrial mundial. Houve uma impressionante redução na demanda, afetando todos os segmentos envolvidos na criação e transformação do aço. O período foi extremamente crítico para as mineradoras. As siderúrgicas fracassavam no ponto de venda e, consequentemente, foram obrigadas a desligar os altos-fornos, uma solução considerada extrema pelo setor. No caso da Vale, o cenário foi exatamente este, com forte queda nas vendas de minerais e preços em queda livre.
O interessante é que, naquela ocasião, somente as siderúrgicas da China realizavam grandes aquisições de minério de ferro, decorrente do forte crescimento da indústria local e da demanda por aço na reurbanização das províncias. Foi justamente neste período que ocorreu uma profunda mudança no conceito de precificação do minério de ferro. Nos últimos 40 anos, o modelo de negociação tinha como base a definição de um preço que valeria por um ano, ou seja, de dezembro a dezembro para países do ocidente e de abril a abril para países do oriente.
Com a crise, a China não aceitou os preços contratados por um ano e decidiu adquirir minério de ferro apenas pelo conceito de mercado à vista, o que até então era um mercado muito pequeno e refletia negócios gerados apenas entre a Índia e China. Como os preços caíram 28% no contrato anual e a cotação no mercado à vista estava em queda, um preço ainda menor foi o imposto pelas siderúrgicas chinesas às mineradoras.
No início do segundo semestre de 2009, o cenário econômico mundial começou a registrar melhoras, principalmente com o aquecimento das economias de países em desenvolvimento, com destaque para os Brics. Este fator foi determinante para que as siderúrgicas retomassem gradualmente as encomendas de minerais. Com a sinalização de melhora no contexto global, o preço do minério de ferro no mercado à vista entrou em forte movimento de recuperação. No início de 2010, o preço superou a casa de US$ 120 por tonelada, valor muito acima do preço sugerido no modelo de contrato anual.
Neste contexto, como as siderúrgicas chinesas não tinham interesse em comprar pelo preço anual e, tendo em vista os níveis praticados no mercado à vista, a solução foi quebrar o modelo. Sendo assim, a partir deste ano, a precificação passou a ser trimestral, com aumento automático ao final de cada trimestre, com base no preço médio do mercado à vista do trimestre anterior.
O anúncio desta mudança ocorreu no segundo trimestre de 2010 e trouxe benefícios para o setor como um todo. As mineradoras passaram a ter um substancial aumento do faturamento com minério de ferro no trimestre corrente e no próximo também. Não só o minério de ferro teve alta de preços, como o níquel também, o que representa para a Vale, por exemplo, uma substancial evolução de seus resultados nos próximos trimestres.

A partir de todo este cenário, podemos dizer que as commodities de minério, agora que as indústrias retomaram as atividades, poderão trazer bons resultados para a bolsa de valores, puxando o índice Bovespa para cima e satisfazendo as expectativas de rendimentos dos investidores.

*Pedro Galdi é graduado em administração de empresas pela USP e analista-chefe da SLW Corretora.