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As variáveis para o preço do aço

Siderurgia Brasil — Edição 64

Variáveis internas e externas criam incertezas sobre a evolução do preço do aço nos próximos meses.

Ricardo Torrico

O ano de 2010 mal chegou à metade, mas já pode ser considerado como um ano de profundas mudanças no mercado do aço. Depois do enorme susto trazido pela crise financeira internacional, que chegou a ser considerado o prelúdio de um apocalipse econômico em toda a economia global, a expectativa geral era de um período de recuperação generalizada na demanda das commodities até os patamares anteriores à crise. No entanto, algumas medidas adotadas em toda a cadeia criaram um clima de incerteza nos mercados internacionais e, particularmente, no nacional. Para entender melhor o atual panorama com vistas a prever o futuro, é o caso de analisar as novidades já ocorridas no primeiro semestre deste ano.
Preço do minério – Logo no primeiro trimestre, as três maiores mineradoras mundiais – Rio Tinto, BHP Billiton e Vale –, responsáveis por mais de 80% do fornecimento dessa commodity ao pulverizado mercado siderúrgico mundial, anunciaram uma drástica mudança na regra de reajuste do preço do minério. O critério de reajuste anual, através de rodadas de negociações entre as mineradoras e as siderúrgicas, que vigorava há quatro décadas, a partir deste ano, passou a ser trimestral, com base num índice que represente o mercado, passando a valer já na passagem do primeiro para o segundo trimestre. As negociações feitas entre as mineradoras e os grandes grupos siderúrgicos nessa fase de transição envolveram índices superiores a 90%. Posteriormente, no início de junho, as três grandes fornecedoras estão propondo aumentos de 20% a 30%, todas com base no índice Platts de minério de ferro.
Preço do aço – O impacto do preço do minério de ferro nos custos de produção do aço foi o argumento que as usinas brasileiras utilizaram para anunciar, no final de março, reajustes entre 10,5% e 14,5% nos preços de seus produtos, já a partir de abril. Por enquanto, as usinas ainda não anunciaram novos aumentos, mas não se descarta a possibilidade de que eles ocorram até o final do ano. Por outro lado, no caso deles acontecerem, os setores que mais demandam aço podem vir a solicitar ao governo a redução das alíquotas de importação desses produtos, como já aconteceu este ano, embora o governo não tenha atendido ao pedido, por considerá-lo ainda desnecessário.
Formação de estoques – Segundo o levantamento feito pelo Instituto de Distribuidores de Aço, provavelmente provocada pela iminência de aumento da demanda e de novos reajustes nos preços do aço, a partir do mês de fevereiro, ocorreu uma intensa recuperação dos estoques do setor, tendo chegado ao patamar recorde de 1.040 milhão de toneladas. Essa formação de estoque – a mais alta dos últimos dois anos – provavelmente reflete uma aposta dos distribuidores nos prováveis aumentos nos preços do aço nos últimos anos, isto é, desde que se confirmem as atuais expectativas de expansão da demanda, decorrente do aquecimento da economia nacional.
Importação de aço – O estoque formado pela rede de distribuição também inclui um considerável volume de aço importado nos últimos meses, obviamente, a preços mais baixos do que os do aço nacional – apesar dos tributos e custos de logística inerentes à sua importação. Da mesma forma que os distribuidores, algumas montadoras de veículos anunciaram que estão realizando importações de aço para as suas linhas de produção. A Fiat declarou que pretende importar entre 15% e 20% do aço que vai consumir este ano, assim como a Volkswagen, que declarou que já importa 30% de suas necessidades de aço. A questão em aberto é saber qual vai ser a influência dessas duas tendências; preços domésticos crescente e disponibilidade de aço mais barato no mercado internacional.
Capacidade de produção – Se, no médio prazo, o aumento da demanda interna promete absorver, pelo menos parcialmente, os aumentos nos preços do aço, outro fator, porém, coloca um ponto de interrogação nesse contexto, que é o aumento na capacidade de produção mundial e também nacional de aço. O título de uma matéria publicada na edição 602 da revista Carta Capital – Há demanda para tanto aço? – sintetiza a dúvida em relação ao crescimento da demanda mundial de aço nos próximos anos. A matéria foi feita por ocasião da inauguração da Companhia Siderúrgica Atlântico, no município de Santa Cruz, com investimentos da Vale, que também está envolvida em três outros projetos siderúrgicos. Aliás, se todos os projetos anunciados pelas empresas nacionais forem concluídos, a capacidade nacional de produção de aço deverá dar um salto dos atuais 42 milhões de toneladas para 77 milhões de toneladas nos próximos seis anos. Até aí, não haveria grandes problemas. A grande incógnita vem do mercado internacional, já que a China já produz mais da metade do aço do mundo e o aumento anual de sua produção tem superado toda a produção atual do Brasil. “A maior preocupação dos potenciais investidores é que, num futuro não muito distante, o gigante asiático não consiga absorver todo esse volume. Se isso acontecer, os chineses podem inundar o mundo com aço barato”, adverte a matéria da Carta Capital. Talvez essa “inundação” ainda demore um pouco, mas o mercado brasileiro já tem sentido frequentes “marolas” de aço barato chinês.