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A criação do Sindisider, o braço político dos distribuidores

Siderurgia Brasil — Edição 64

A ideia de criar o Sindisider surgiu a partir da necessidade de se contar com um mecanismo que representasse os interesses políticos do setor de distribuição de aço.

Com a criação do Inda, as empresas distribuidoras de aço passaram a ser bem representadas nas negociações comerciais com os demais elos da cadeia siderúrgica. No entanto, o setor ainda se ressentia da falta de uma representatividade política, que só veio a se tornar realidade quase vinte anos depois da fundação do Instituto, com a criação do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Produtos Siderúrgicos (Sindisider), em 29 de novembro de 1988. “A ideia de criar o Sindisider surgiu no final de 1985, quando eu estava terminando minha primeira gestão como presidente do Inda”, recorda José da Costa Vinagre. “Eu propus a criação do sindicato porque, naquela época, as cerca de 120 empresas associadas estavam filiadas a mais de vinte sindicatos patronais. Depois de termos feito esse levantamento, eu convoquei todos os ex-presidentes do Inda e eles concordaram com a ideia de nós constituirmos um sindicato que representasse nossas associadas.”
A necessidade de se criar um sindicato dos distribuidores de aço era importante para fortalecer um setor que até então se encontrava extremamente fragmentado. O fato de as empresas associadas ao Inda estarem filiadas aos mais variados sindicatos regionais ou setoriais praticamente anulava seu poder de barganha nas negociações dos dissídios coletivos com os sindicatos de trabalhadores. “Minha empresa, por exemplo, pagava a contribuição sindical para o sindicato da distribuição da indústria de petróleo; outros pagavam ao sindicato relativo à construção, e assim por diante”, exemplifica Vinagre. “O que acontecia é que as empresas começavam pagando a um sindicato já existente e continuavam indefinidamente filiados a ele. Elas nunca se sentavam à mesa para discutir as suas dificuldades e acabavam aceitando aquilo que o sindicato resolvia. De fato, as empresas nem conheciam os sindicatos que as representavam.”
Apesar da proposta de se criar um sindicato ter sido bem aceita pelos membros da diretoria e ex-presidentes do Inda, torná-la realidade não era tão simples assim devido ao grande processo burocrático que essa atitude implicava. José da Costa Vinagre não pode colocar a ideia em prática, mas ela foi retomada quando Benjamin Nazário Fernandes assumiu a presidência do Instituto. “Na época de minha primeira gestão, de 1983 a 1985, não havia liberdade para se constituir um sindicato. A burocracia era enorme e havia uma politicagem tremenda, já que os enquadramentos sindicais eram dirigidos pelo Ministério do Trabalho. Dadas todas essas dificuldades, a criação do Sindisider acabou ficando para 1989, ou seja, só depois da elaboração da Constituição de 1988, que facilitou muito a criação de sindicatos. Aliás, a nova constituição, não só facilitou como até incentivou a criação de sindicatos”, relata José da Costa Vinagre.
“Quando Benjamin Nazário Fernandes assumiu a presidência do Inda, em 1989, ele me chamou para ser o seu vice-presidente e sugeriu que retomássemos a ideia de criar o sindicato. Para viabilizar o Sindisider, nós fizemos um trabalho de captação de associados, atraindo-os com uma contribuição mensal bastante baixa, já que a possibilidade de usar as instalações do Inda nos permitia baratear os custos. Logo no início, captamos de 30 a 40 associados. Nossa intenção era captar todos, mas muitos resistiram a se associar, provavelmente achando que a condição de sócios do Instituto já era suficiente. Nós também fizemos um levantamento do potencial de empresas que poderiam se filiar ao sindicato, analisando todas as empresas que trabalhavam com qualquer tipo de produto siderúrgico. Enquanto o Inda era voltado aos aços planos, produzidos pelas usinas siderúrgicas – Cosipa, Usiminas e CSN –, o sindicato tentaria abranger qualquer tipo de comercialização de aço e, num estudo preliminar, chegamos a um universo superior a mil empresas. Se nós conseguíssemos trazer todas essas empresas para dentro do Sindisider, conseguiríamos formar um sindicato muito forte e poderoso, que poderia beneficiar inclusive as decisões políticas do Inda. O que fizemos questão de preservar, para que não houvesse brigas e disputas, foi que o presidente do Inda seria automaticamente o presidente do sindicato.”
Segundo José Vinagre, um dos primeiros benefícios obtidos com a criação do sindicato foi a representatividade nos dissídios coletivos, porque os associados passaram a não depender mais de 20 ou mais dissídios distintos. Para entender melhor, o sindicato de uma categoria distinta tem determinadas situações em que sua ação é voltada para o interesse das empresas que compõem a maioria daquele grupo. Como exemplo, o sindicato das empresas comerciais de Belo Horizonte irá, evidentemente, se preocupar com os interesses daquele grupo, daquela cidade. Se nesta cidade houver um único distribuidor de produtos siderúrgicos, ele sempre será voto vencido e deverá acompanhar a maioria, mesmo que os interesses sejam contrários aos seus. Com a criação do Sindisider, os sindicatos de trabalhadores passaram a falar diretamente com ele, que conhecia com profundidade os problemas de seus afiliados, ou mesmo de empresas que tinham como atividade principal a distribuição de aço. “E o caminho para negociar com os órgãos governamentais do Executivo também se tornou muito mais fácil em função do regime jurídico próprio do Sindisider”, observa Vinagre.
O Sindisider passou ainda por muitas dificuldades, pois, por incrível que pareça, várias empresas distribuidoras de produtos siderúrgicos não entenderam o papel da entidade no primeiro momento e insistiram em continuar seguindo orientações de várias entidades que, mesmo não sendo suas representantes legais, operavam em vários pontos do país. No início da entidade, ela teve ainda que enfrentar algumas ações judiciais de outros sindicatos, pois, na medida em que os distribuidores de produtos siderúrgicos aderiram ao Sindisider, eles se sentiram prejudicados com a perda de associados e foram buscar uma solução favorável na Justiça. Entretanto, como o Sindisider foi constituído em cima da legislação existente, todas essas disputas judiciais foram vencidas, de sorte que hoje ele representa com autoridade o papel de braço sindical do setor.
Segundo José da Costa Vinagre, hoje, com suas centrais sindicais bem organizadas, os trabalhadores têm um enorme poder de negociação. “Se a classe patronal não se organizar para fazer frente a isso, acaba sendo uma luta desigual. Eu não acho que se trate de estar preparado para uma disputa, mas para um entendimento. O fato é que você não pode ser fraco na hora de negociar com um forte”, finaliza o ex-presidente do Inda e do Sindisider.
www.sindisider.org.br