Uma grande confraria - Inda
Siderurgia Brasil — Edição 64
Desde sua criação, o Inda sempre foi mais do que uma entidade normal: foi um ponto de convergência de interesses e fonte geradora de novas amizades.
Reunidos em um restaurante de São Paulo, tivemos a oportunidade de conversar com Herculano Carlos de Almeida Pires, José Romero Lopes Neto e Raul Maselli. O que eles têm em comum? Além de uma grande amizade entre si, os três são fundadores e ex-presidentes do Inda – Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço, que está comemorando 40 anos de vida. A ideia de reunir alguns presidentes foi do próprio Herculano Pires, que presidiu a entidade entre os anos de 1975 e 1977. O Inda começou a partir de associações regionais existentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, que tinham em comum a defesa dos interesses dos distribuidores de aço. “Após a edição da Resolução nº 3 do Consider”, diz Herculano, “não havia mais tempo para esperar, pois tanto o governo quanto as usinas – que naquele momento eram estatais – queriam conversar com organismos que representassem o setor em nível nacional.” Dessa forma, empresários de várias empresas cujas atividades convergiam para o aço se reuniram na Associação dos Revendedores de Ferro e Aço de São Paulo, que naquele momento era presidido por Moacir Consiglio, e fundaram o Inda. A primeira missão da nova entidade foi a criação de regras para a distribuição de aço em todo o território nacional, estabelecido pelo Plano Siderúrgico Nacional – uma subdivisão do Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico (PNDE) –, que consistia num esforço para regulamentar o setor da siderurgia brasileira. José Romero lembra que o principal avanço desse plano – e que era de fato a “pedra de toque” de todo o sistema – era de que “toda a atividade de distribuição fosse necessariamente exercida pela iniciativa privada”. Com isso, a livre concorrência ficou liberada e conseguiu-se evitar a enorme burocracia estatal que existia naquele momento. No entanto, o ponto alto da criação do Inda – ressaltam os três presidentes em uníssono – foi a grande afinidade que se criou entre os titulares das empresas distribuidoras. Várias pessoas que tinham seus interesses próprios e, naturalmente, sua própria personalidade deixaram de lado os seus interesses particulares e se renderam a um interesse maior, sempre no sentido de harmonizar a entidade e a atividade comum. José Romero lembra que o grande mérito do Inda foi a possibilidade que trouxe de fazer grandes amizades. Em suas próprias palavras, “era uma delícia pertencer à Diretoria ou ao Conselho do Inda, pois todos eram amigos e, na verdade, a ocupação dos cargos obedecia meramente a uma imposição estatutária. Não havia dificuldade em sermos diretores, pois todas as medidas eram tomadas por consenso. Aliás, a própria mesa de reuniões do Inda – que era redonda –, já eliminava qualquer posição de destaque para nenhuma parte e refletia o espírito de igualdade entre seus sócios”. Outro ponto destacado pelos ex-presidentes, e que mostra bem o espírito reinante, é que todas as empresas puderam participar no Instituto, independentemente de seu tamanho e de sua capacidade para contribuir. Foi criado um sistema móvel de contribuição, em que as mensalidades eram diretamente proporcionais às tonelagens de aço recebidas das usinas. Os ex-presidentes também ressaltam que o estatuto do Inda impedia a reeleição do presidente e que o vice-presidente era o candidato automático ao cargo de presidente na próxima eleição. Esse mecanismo foi criado com a intenção de evitar o continuísmo dos presidentes, ao mesmo tempo em que se garantia a continuidade das atividades, tendo trazido resultados comprovadamente positivos para todo o setor. O governo e as siderúrgicas estatais não só aprovaram como incentivaram a existência do Inda, pois passaram a ter um interlocutor único, que falava por todo o setor. No entanto, a importância do Inda, no primeiro momento de sua existência, chegou a ser questionada, pois alguns consumidores, com o claro propósito de desestabilizar o setor, insinuavam que as empresas distribuidoras eram criadas somente para aumentar o preço do aço. Raul Maselli lembra que as diretorias que se sucederam no Inda contrataram o professor Hélio de Paula Leite, naquela época titular da cadeira de Economia da Fundação Getúlio Vargas, para elaborar um trabalho denominado “Custo de Posse”. Esse trabalho provou do ponto de vista econômico a importância de existirem empresas que se preocupavam em estocar o aço e funcionar como um “bolsão”, não só para suprir as deficiências no caso de uma falta circunstancial de aço ou alguma contingência, como, por exemplo, um alto-forno em manutenção, que poderia trazer dificuldades ao mercado consumidor. Outro episódio lembrado no encontro foi o momento da privatização, pois, apesar do Inda ser filosoficamente a favor da privatização, quando as usinas foram colocadas à venda, os recursos envolvidos em tais operações eram de tal sorte grandiosos que a presença dos distribuidores ficou reduzida ao mínimo. Tentando observar numa espécie de túnel do tempo, os três ex-presidentes ressaltam que a melhor recordação que ficou da época em que se mantiveram ativos nas diretorias do Inda foi o estabelecimento de uma grande amizade e camaradagem entre os envolvidos, e que em muitos desses contatos permanecem até os dias atuais, citando entre os que fazem parte dessa verdadeira “confraria” os nomes de José da Costa Vinagre, Raimundo José Sabóia Pessoa, Roberto Brandão de Figueiredo, José Luiz da Cunha Freire, Otto Zinn, Hollar Caffagni, Onofre Gargiullo, Pedro Lopes, Carlos Loureiro, que hoje preside novamente a entidade e tantos outros que ajudaram a escrever a sua história. Quanto ao futuro, eles se dizem deslocados, mas, pelo acompanhamento à distância que fazem, avaliam que o cenário do mercado de distribuição de aço mudou muito. Hoje cerca de 50% da distribuição pertence às usinas, pois elas enxergaram nesta atividade uma forma de completarem o ciclo da colocação do aço junto a seus clientes. Particularmente, Raul Maselli considera que o Inda deve se “abrasileirar” um pouco mais, pois, no seu entender, as ações da entidade têm estado muito focadas nos distribuidores de São Paulo e Rio de Janeiro, em detrimento dos empresários dos demais estados. O resumo que se pode fazer – e que é plenamente aceito – é que o Inda teve o mérito de formar um grande grupo de amigos e que, depois de quatro décadas de existência, continua mais forte do que nunca, já tendo justificado plenamente a sua existência.
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