Um pouco da história do Inda
Siderurgia Brasil — Edição 64
Em entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil, Raimundo José Sabóia Pessoa relembra os bons momentos de quatro décadas atrás.
No final dos anos 60, o panorama da siderurgia brasileira era bem diferente do que se vê hoje. Cerca de 300 distribuidores, grandes e pequenos, batalhavam para se manter no mercado do aço, isoladamente ou em pequenos grupos, geralmente ligados a um sindicato local. Cada Estado tinha o seu sindicato dos vendedores de aço ou ferro, mas não havia integração entre eles e nem uma entidade que os representasse. Foi nessa época que um grupo de jovens empresários do Rio de Janeiro, ligados a empresas distribuidoras, decidiu criar uma associação informal e promover reuniões semanais em que discutiam os problemas de estoque e faziam trocas. Um dos maiores incentivadores dessas reuniões era Raimundo José Sabóia Pessoa, diretor do grupo J. Torquato, na época o maior distribuidor de aço do Brasil, com sede no Rio de Janeiro e escritórios em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Ceará e Pernambuco. É ele quem nos revela, numa conversa descontraída, como nasceu o Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), num tempo em que a confiança era tão grande nas relações comerciais, que a palavra tinha o valor de um contrato. “Todas as quintas-feiras, depois do expediente, nos reuníamos no escritório de um dos participantes”, conta. “Levávamos nossas planilhas de estoque, conferíamos o que cada um tinha em excesso ou falta. A partir daí, fazíamos trocas. Isso funcionou muito bem, durante um bom tempo.” O sucesso das reuniões daquela associação informal e sem nome foi tão grande que chegou aos ouvidos dos altos escalões do governo. No final dos anos 60, o Consider (Conselho Nacional da Indústria Siderúrgica) – órgão interministerial ao qual cabia estabelecer as políticas globais do setor, e do qual participavam os ministros de Estado da área econômica e os presidentes do BNDES e do IBS – convocou o grupo do Rio para um encontro. Nele, pediu que eles estudassem a criação de um novo Instituto que representasse os interesses dos distribuidores de aço e promovesse sua integração junto às indústrias e órgãos regularmente constituídos. Estava lançado o embrião do Inda. O grupo não se fez de rogado. Imediatamente, todos se jogaram ao trabalho. Os olhos de Raimundo Pessoa brilham quando ele fala dos desafios enfrentados. “As primeiras reuniões foram no Rio de Janeiro”, lembra. “Analisamos minuciosamente as ideias propostas e elaboramos um anteprojeto dos estatutos. A meta do Instituto seria unificar e dar força ao nosso setor, em nível nacional, e também promover e incentivar todos os estudos que se destinassem a melhorar e desenvolver a comercialização dos produtos siderúrgicos. Tratamos, então, de mobilizar todos os distribuidores do Rio e expor nossas ideias. A aprovação foi unânime. O passo seguinte foi ir para São Paulo, onde seguimos a mesma estratégia, promovendo reuniões com os distribuidores, e obtendo a aprovação de todos. A aprovação e adesão dos outros Estados veio naturalmente.” Finalmente, no dia 23 de julho de 1970, em uma assembleia solene, foi criado o Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço – Inda. Os trabalhos foram instalados por Moacir Consiglio, presidente da Associação dos Comerciantes de Aço. A mesa, presidida por Raimundo José Sabóia Pessoa, contou com a participação de Herculano Carlos de Almeida Pires, Moacir Consiglio, Roberto Brandão Figueiredo, José Romero Lopes Neto, Pedro Lopes, Onofre Cargiulo, Walter Habrkohr, Agostinho Felipelli e Carlos Mendes Pinheiro. Para a primeira gestão (1970/1971) foi eleito presidente Roberto Brandão de Figueiredo, assumindo a vice-presidência Raimundo Pessoa e José Zamprogna. Raimundo Pessoa continuou nesse cargo na gestão seguinte, e em 1973/74 assumiria a presidência do Inda. No começo, o Instituto funcionou como um departamento técnico. “Até então, cada um voava para um lado, não havia organização”, diz Raimundo Pessoa. “Aos poucos, o Inda virou o interlocutor oficial dos distribuidores com as siderúrgicas brasileiras e com o Ministério da Indústria e Comércio. Recebíamos, e trocávamos informações sobre o mercado. Tudo foi muito bem estruturado. O Instituto passou a resolver os impasses com as siderúrgicas, não mais com os distribuidores. O Ministério da Indústria e Comércio delegou essas operações ao Consider, que passou a ser o nosso interlocutor junto ao governo.” O grupo dos fundadores era pequeno, mas logo todas as empresas credenciadas pelas siderúrgicas aderiram ao Inda. “Todos eram bem-vindos, grandes e pequenos”, afirma Raimundo Pessoa. Bastava que preenchessem os requisitos e se credenciassem. Para custear as despesas, foram estabelecidas cotas de contribuição, de acordo com o tamanho da empresa e a tonelagem comercializada. “Todos contribuíam. Com isso, foi possível criar uma estrutura e ampliar os trabalhos. Os Departamentos Financeiro e de Estatística passaram a ser os pontos fortes do Instituto.” Quando o Inda conseguiu um acordo com o Banco do Brasil, Raimundo Pessoa realizou uma proeza. Em nome da J. Torquato, entrou com um pedido de empréstimo exigindo uma quantia astronômica: 24 milhões de dólares. “Você está louco, me diziam”, lembra ele, rindo. Poucos dias depois, ele foi acordado por um amigo com a notícia de que o empréstimo rotativo tinha sido aprovado. “Foi uma vitória e tanto”, reconhece. A J. Torquato repassou esse crédito, que equivalia a 110 mil toneladas, a todos os distribuidores, de acordo com a sua participação histórica. Foi a salvação para quem não tinha como atender às necessidades de importação. Nos anos 70, havia três grandes siderúrgicas, todas estatais: a CSN, a Usiminas e a Cosipa. Junto a elas, estavam dois grandes grupos: os industriais, que eram os grandes compradores, e os distribuidores, dos quais se valiam os pequenos vendedores. Muitas vezes, os pequenos não conseguiam ser atendidos. A distribuição do Crédito Rotativo abriu novas possibilidades e, em pouco tempo, já se contabilizavam cerca de 20 mil compradores dos associados do Inda. “O mais importante era atender os consumidores”, resume Raimundo Pessoa. “A criação do Inda possibilitou a união do setor e, em consequência, deu a todos uma nova força.” Para quem vive na turbulência do mercado atual, onde a competição é um massacre e a busca de lucros uma guerra constante, talvez seja difícil imaginar a ética que reinava nos anos 70. “Havia uma relação de respeito e confiança”, observa Raimundo Pessoa. “O comprador chegava no balcão, dizia o que queria e mandava um caminhão buscar a mercadoria, sem perguntar o preço. Ele sabia que o valor cobrado seria justo. A propaganda era boca a boca; um indicava o outro.” Uma situação vivida pela J. Torquato ilustra bem o espírito da época. É Raimundo Pessoa que narra: “Eu era então um garoto, cheio de pique, e queria partir para uma inovação na empresa. Contratei várias pessoas com talento e ideias, que busquei em vários lugares, e coloquei-as comigo – para não fazer nada. Só para pensar. Foram surgindo ideias... e chegamos à produção do zinco. O negócio deu certo e, como se diz, caiu na boca do povo. Um dia me chamam na empresa dizendo que um espanhol me procurava. Na verdade, era um asturiano, com uma grande empresa na Espanha. Queria participar do negócio do zinco. Propusemos uma parceria de 30%, ele concordou e ia partir imediatamente. Lembramos que o contrato ainda ia ser feito, e ele retorquiu: ‘Don Raimundo, não precisamos do papel. Sua palavra está valendo.’ Uma semana depois, já tínhamos um grupo na Espanha, e voltávamos com toneladas de projetos... Conseguimos um financiamento do BNDES de 40 milhões de dólares e criamos a Paraibuna de Metais, com a parceria dos espanhóis. (A empresa foi vendida em 1996 à Paranapanema, da Previ). Além dos negócios, nos tornamos amigos.” As reuniões de trabalho entre os representantes do Inda e das siderúrgicas eram frequentes. O pessoal da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) ia para o Rio se encontrar com o grupo carioca. Discutiam as entregas, a eficiência, a qualidade. As reuniões também viraram uma agradável oportunidade de convivência. “Todo distribuidor é ‘cachaceiro’”, brinca Raimundo Pessoa. “Depois das reuniões sérias vinha o congraçamento, que se estendia até a meia-noite...” Com o fortalecimento do Instituto, começaram a ser organizados os congressos anuais, que contavam com a participação de distribuidores de todo o país, representantes de Ministérios, do Consider, e da Siderbras, a partir de sua criação em 1973. Os diretores do Inda adquiriram prestígio, e suas reivindicações recebiam mais atenção. Em 1975 veio a tempestade. Uma crise violenta abalou o mercado como um todo, e a siderurgia não escapou do vendaval. “Muitos distribuidores não aguentaram”, recorda Raimundo Pessoa. “Muitos faliram, outros mudaram de profissão, foram se afastando... Restaram poucos. As siderúrgicas assimilaram alguns deles e decidiram entrar no comércio direto com os clientes. A privatização das usinas e a turbulência da era Collor acabaram por mudar totalmente o cenário. Acabaram com a Siderbras e o Consider. Grandes siderúrgicas internacionais encamparam algumas das nossas. Os distribuidores que resistiram à crise tiveram que se adaptar ao novo mercado. Foram se sofisticando, passaram a atender a outras coisas como peças semiprontas, maquinário etc.” Raimundo Pessoa considera fundamental o papel do Inda na história da siderurgia brasileira. E não tem dúvidas da importância da siderurgia na história de um país. “Basta olhar em volta. Desde a construção de um edifício ao mais simples cadeado, de um navio aos automóveis, das obras mais complexas de infraestrutura a um modesto guarda-chuva, das máquinas pesadas a um eletrodoméstico... Em tudo, o aço está presente. Nosso desenvolvimento depende da siderurgia.”
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