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Pontes controladas à distância

Siderurgia Brasil — Edição 16
Processos e Produtos em 18 Abr 2004


Uma parceria entre a Aços Roman e um físico empreendedor permite o desenvolvimento de um controle remoto de pontes rolantes testado em condições reais de funcionamento.

Qual é o negócio de uma distribuidora de aço? Comercializar aço de forma eficiente, obviamente. Isso, no entanto, não se aplica à Aços Roman Ltda., que apostou na diversificação dos seus produtos e hoje oferece ao mercado um controle remoto para pontes rolantes. Depois deste primeiro aparelho, já pronto para ser comercializado, a empresa desenvolve outras soluções para problemas inerentes à manipulação e processamento do aço. Isso não significa uma mudança radical no core business da Roman, mas apenas uma saudável diversificação surgida de uma oportunidade não desperdiçada. Afinal, quem pode conhecer mais as necessidades da indústria e do setor de distribuição do aço do que uma empresa com décadas de experiência nesse setor?
A oportunidade não desperdiçada se deu em novembro de 2002, quando Roman Cernohorsky, o sócio gerente da empresa, conheceu Marco Antonio Medeiros, um físico formado pela PUC-SP, durante uma feira do setor, no Expo Center Norte, em São Paulo. O acaso fez com que estivessem, de um lado, o estande da Aços Roman e, do outro, o físico Medeiros com seu projeto de controle remoto para pontes rolantes ainda em desenvolvimento e à procura de uma parceria que lhe permitisse aprimorá-lo até atingir as qualidades que ele considerava indispensáveis: um produto barato, eficiente e, principalmente, seguro.
A procura dessas qualidades norteou desde o primeiro momento a pesquisa de Marco Antonio Medeiros. Com seis anos de experiência em controles remotos utilizados no aeromodelismo, ele procurou uma aplicação para seus conhecimentos que pudesse lhe oferecer independência profissional e financeira. Tendo ouvido falar da operação de pontes rolantes através de controles remoto, nos Estados Unidos, deduziu que existia um grande mercado para esse produto no Brasil. Logo de início, ele descartou a idéia de simplesmente copiar um modelo já existente, por considerar que ele poderia desenvolver o modelo ideal para ao mercado brasileiro, evitando assim as eventuais falhas de um modelo já existente. Além, é claro, dos elevados custos que a utilização de um projeto já existente implica. “Eu sempre tive em mente fazer um aparelho que não desse problemas. Que, havendo qualquer condição estranha, ele bloqueasse a operação da ponte”, explica Medeiros. “Quem é do ramo sabe muito bem os problemas que uma ponte rolante fora de controle pode causar. Isso definitivamente não pode acontecer.”
A preocupação de Marco Antonio Medeiros com a segurança tinha uma razão de ser. “Segurança é a primeira preocupação de quem lida com controles remotos, principalmente no aeromodelismo. As normas de segurança utilizadas no aeromodelismo, nos Estados Unidos, são muito rígidas”, afirma. “Para a maioria das pessoas, um aviãozinho voando pode parecer um brinquedo inofensivo, mas o seu controle precisa ser muito seguro, já que se trata de um objeto de cerca de 5 kg que, se não for bem controlado e despencar sobre o público, pode ser fatal.”

Testado em campo

Para chegar ao produto ideal em termos de segurança, eficiência e custo, o caminho costuma ser longo. Para Medeiros não foi diferente e já tinha consumido dois anos de trabalho e recursos próprios quando ocorreu seu primeiro contato com Roman Cernohorsky, em novembro de 2002, naquela feira do Expo Center Norte. “Quando vi o estande da Aços Roman, achei que não custava nada explicar mais uma vez o que eu tinha em mente”, recorda Marco Antonio. “Para minha surpresa, a reação de Roman foi muito positiva. Ele se interessou de imediato pelo aparelho que eu estava desenvolvendo. Com muita experiência no setor de distribuição de aço, ele tinha condições de avaliar o grande mercado em potencial que existia para um produto como aquele. E a empresa dele tinha uma ponte rolante, na qual eu teria condições de testar o protótipo do aparelho. A ponte da Aços Roman era, porém, muito antiga, movida por alavancas. A grande vantagem foi que Roman – que é uma pessoa muito organizada – mantinha arquivado todo o conjunto de esquemas desse equipamento, o que facilitou demais o meu trabalho.”
Marco Antonio estudou detalhadamente o funcionamento do sistema de comando do equipamento da Aços Roman, cujas tentativas anteriores de modernização tinham esbarrado no custo elevado, já que as empresas consultadas tinham achado necessário substituí-lo totalmente. A solução encontrada por Marco Antonio Medeiros, no entanto, foi bem mais simples – e barata.
Reiniciada a pesquisa em janeiro de 2003, já no segundo semestre o controle remoto foi considerado testado e aprovado, depois de devidamente solucionados os problemas que surgiram. O principal deles foi a queima de circuitos que acontecia sem nenhum motivo aparente em alguns aparelhos instalados, mas não em outros, embora fossem idênticos. “Não havia nenhuma explicação lógica para isso, pelo menos pelo lado da teoria”, diz Marco Antonio Medeiros. “Analisamos o problema e constatamos que algumas pontes rolantes geram ‘ruídos’ que se refletem via cabo, provocando a queima dos circuitos. A solução foi instalar filtros, que resolveram definitivamente o problema. Hoje, por precaução, todos os aparelho que instalamos são acompanhados desses filtros.”
Para chegar ao aparelho ideal foi necessário resolver aquilo que Marco Antonio Medeiros considerava ser seu maior problema – um transmissor e receptor de rádio feito à medida. “Essa era a minha carta na manga, pois eu conheço bem as características e o funcionamento dos transmissores e receptores de rádio. Normalmente, as pessoas que projetam controles remotos para apontes rolantes tentam adaptar módulos transmissores comerciais, que têm muita potência de saída, o que fatalmente vai provocar problemas, já que o espectro de ARF se encontra sobrecarregado”, detalha. “Para ser confiável numa ponte rolante, o transmissor e receptor precisa oferecer baixa irradiação de sinal, alta sensibilidade e seletividade, uma grande quantidade de canais de rádio – e baixo custo.”
Atualmente, o controle remoto da Aços Roman – que ainda não foi “batizado” – é uma realidade. Aliás, já era uma realidade em setembro de 2003. De lá para cá, 15 desses aparelhos já foram instalados em diversas empresas. Agora, o que falta é apenas um melhoramento estético, “para ficar mais bonito”. O aparelho deverá ganhar uma nova carcaça de proteção em plástico resistente a choques e a água, além de ser mais ergométrico. Ele também será equipado com as mais avançadas baterias recarregáveis disponíveis no mercado. O modelo definitivo estava programado para “sair do forno” ainda em março deste ano.

Novos projetos

A reboque do desenvolvimento do controle remoto, acabaram surgindo soluções para problemas intermediários. Um deles foi um gaussímetro – medidor de campo magnético – de baixo custo. Rotineiramente utilizado em ensaios não destrutivos, o gaussímetro desenvolvido na Aços Roman, para uso próprio, já está pronto para ser comercializado como produto independente. Outra solução surgida no caminho foram filtros “anti-spike”, destinados a resolver o problema de queima constante das contatoras dos painéis de controle das pontes rolantes – um problema que exige trocas freqüentes, com custos elevados.
Um fato importante a ser ressaltado é que tanto o controle remoto quanto esses produtos resultaram de pesquisas desenvolvidas de forma independente. “O projeto do nosso controle remoto – é bom lembrar – não foi copiado de nenhum modelo já existente”, orgulha-se Marco Antonio Medeiros. “A única informação que – por assim dizer – nós ‘aproveitamos’ foi o fato de saber da sua existência. Isto é, que existiam controles remotos operando pontes rolantes nos Estados Unidos – e não mais do que isso. De resto, o seu desenvolvimento começou da ‘estaca zero’, e sempre tendo em vista que teria de ser totalmente confiável e seguro. Desde o início ele foi projetado para não dar dor de cabeça, porque, afinal, nós estamos vendendo aquilo que nós também utilizamos.”